20.5.18

as mulheres de cinza continuam na borda da banheira, impacientes para que as ouça. fico sem jeito, mas repito o abuso à simpatia de Mia Couto e não lhes pego. Solaris não pode esperar mais, submerjo.
a desilusão foi sempre demasiado amarga na minha boca. primeiro o Coliseu de Roma, depois a Universidade, agora o Taj Mahal. rasgo a velha máxima de não esperar nada e acabo sempre incrédula a questionar se é só aquilo - esperava monumentos infinitos, daqueles que os sonhos me revelam, em movimentos de intersecção, geometria aumentada, bem ao estilo de Escher. há um sonho especial que desejo secretamente que represente o meu momento final: estou sentada num vale que conheço, verde, em frente a montanha da minha infância, tudo num plano muitíssimo mais íngreme, que se vai aproximando, mas não sinto medo de tombar. sou menina, a minha mãe está sentada ao meu lado e sorri, perto, os meus irmãos brincam às apanhadas. a montanha está cada vez mais perto, os ponteiros do relógio caminham para a sobreposição, vamos ser esmagados, mas estamos serenos. é um sonho escasso, soberbo, dos poucos de que me consigo lembrar. se não acontecer, será a minha última desilusão.
Stanisław Lem, é com ele que me deito esta noite, caçadora exímia que se pavoneia, venho aqui grafa-lo às 3 da manhã. num descarado ménage, deixo-me seduzir pela tradução directa do polaco de Teresa Fernandes Swiatkiewicz. a teoria da tradução será sempre o meu tesão obscuro, a problemática da apropriação. a palavra é como um corpo, como lhe tocar sem a abocanhar, onde está a equivalência pura, directa, asséptica? tudo não passa de uma mentira, a palavra é um corpo. um sopro, um murmúrio, um ligeiro tremor é quanto basta.
Solaris, o livro por fim, e Lem levando-me para "outros mundos, outras civilizações, sem conhecer inteiramente os meus próprios recantos, os meus becos sem saída, sem saber o que está por detrás das minhas portas negras"....
tem tudo para ser uma noite inesquecível.

18.5.18

rouxinol, o pássaro louco das intermináveis cantatas nocturnas, engatatão do canavial por quem me apaixonei, partiu durante o meu curto exílio nas montanhas. as noites repetem-se agora silenciosas e sem paixão. não consigo deitar-me com ninguém, um louco que seja, um deprimido novelista, um poeta, lambendo-me as mamas, as mãos, os dedos, um a um. olho-os, tacteio-lhes as capas, folheio-lhes os corpos e desisto. se escrever é corrigir a vida, levar os escritores para a cama é enganá-la.

Sono, maravilhosa edição da casa das letras, com ilustrações de Kat Menschik

falta-me, mais do que caminhar, um chão de terra onde possa cair e ficar quieta, até que outra alma tome conta de mim. e um vento suão, desalinhando-me os caracóis.
Os zés-ninguém

Sonham as pulgas comprar um cão e sonham os zés-ninguém sair da pobreza, que num dia mágico chova a sorte de repente, chova a sorte a cântaros; mas a sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem em chuvinha cai a sorte do céu, por mais que os zés-ninguém a chamem, ou que lhes comiche a mão esquerda, ou que se levantem com o pé direito, ou comecem o ano trocando de vassoura.
Os zés-ninguém, os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os zés-ninguém, os nenhuns, os ignorados, apertando o cinto, morrendo a vida, fodidos, fodidíssimos.
Que não são, embora sejam.
Que não falam línguas, mas dialectos.
Que não professam religiões, mas superstições.
Que não fazem arte, mas artesanato.
Que não praticam cultura, mas folclore.
Que não são seres humanos, mas recursos humanos.
Que não têm cara, mas braços.
Que não têm nome, mas número.
Que não figuram na história universal, mas nos casos do dia da imprensa local.
Os zés-ninguém, que custam menos do que a bala que os mata.


/Eduardo Galeano, O livro dos Abraços/


Cai
Cai eternamente
Cai no fundo do infinito
Cai no fundo de ti mesmo
Cai o mais baixo que se possa cair

Vicente Huidobro 
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15.5.18

foi quando decidi não levar mais trabalho para casa que passei a viver no escritório.

14.5.18

A alma adora nadar. Para nadar, há que deitar-se de barriga. A alma despega-se e parte. Parte a nadar. (...) Fala-se muito em voar. Não é isso. O que ela faz é nadar. E nada como as serpentes e as enguias, nunca de outro modo. (...) Quando a alma deixa o corpo pelo ventre para nadar, produz-se uma tal libertação de sei lá o quê, é um abandono, um gozo, uma descontracção tão íntima.

/Antologia/
Underwater Choreography Performed in the World’s Deepest Pool by Julie Gautier

Daqui  Colossal