27.5.18

Fabrizia Milia

26.5.18




Se alguém me perguntasse por um livro, falar-lhe-ia d' O Livro de Emma Reys, que a Alexandra me apresentou no seu blog Mais Mulheres Por Favor

Um livro de memórias, contruido a partir da correspondência que trocou com Germán Arciniegas (Gabriel Garcia Marquez também entra nesta história). Aqui encontrei mais algumas referências acerca de  Emma: «Luis Caballero escribió: “Hay pintores míticos, de leyenda. De los que se habla en torno a quienes se tejen y destejen anécdotas, pero cuya pintura se ignora. Emma es uno de ellos. Su enorme personalidad impide que se vea su obra para desventura de quienes aman la pintura. La leyenda de Emma se ha elaborado a partir de su propia vida a pesar de su obra; es por eso tal vez que su obra es ignorada”. Germán Arciniegas decía: “Ella no pinta con aceite sino con lágrimas”.»


Por isso, mais uma vez, obrigada, Alexandra, que, de uma forma assertiva, inteligente e graciosa, partilhas as tuas descobertas profundamente humanas e com a singularidade do feminino. Não sendo apologista da dicotomia, sou totalmente a favor de mais mulheres, por favor!


«Todas as crianças do bairro passavam o dia ali, a brincar, a gritar e a rebolar numa montanha de barro, insultando-se e brigando umas com as outras, chafurdando nas poças de lama e esgaravatando o lixo com as mãos à procura daquilo a que chamávamos tesouros: latas de conserva para fazermos música, sapatos velhos, pedaços de arame, de borracha, paus, vestidos velhos; tudo nos interessava, era o nosso quarto de brinquedos.»


Untitled (1989)

como não, se logo na capa Ana Hatherly me acenava e o tom de tijolo me trazia um agosto de barro e espigas. peguei-lhe com cuidado, tinha o Mar grafado no título da primeira história, mas Pavese menino corria pelos campos e pelas encostas áridas do monte em frente, procurando víboras com Pale. Porque é que não respondes quando te chamam?, pergunta Pavese menino a Pale, que apanhava com frequência da mãe por não responder sempre que ela gritava pelo seu nome. Pale trouxe-me à memoria o João menino, que só não apanhava porque a mãe era a mulher mais bondosa da rua. os meus irmãos diziam que ele não respondia para mostrar aos outros rapazes que ninguém mandava nele, fazia o que lhe apetecia e só ia para casa às horas que lhe dava na telha. talvez, talvez João e Pale fossem pequenos rebeldes para quem a vida seria sempre palmilhada no fio da navalha e, ou se apanhava a víbora sibilando devagarinho, ou se descia a encosta, numa corrida sem tréguas, fugindo ao nosso próprio nome, mas eu sempre achei que o problema do João era a sua timidez disfarçada, um medo de não saber o que dizer, por se sentir tão diferente dos outros.

/Férias de Agosto, Cesare Pavese/

20.5.18

foi Bartolomeu quem tocou no assunto. sempre pensei que seria Cirilo, com o seu jeito impaciente e nervoso. mas foi Bartolomeu, o sábio, quem se abeirou de mim, já depois do computador desligado, e perguntou, até quando aguentaremos isto? as lágrimas que naquele momento oscilaram, mas não tombaram, levo-as comigo para a cama. até quando, não sei.
as mulheres de cinza continuam na borda da banheira, impacientes para que as ouça. fico sem jeito, mas repito o abuso à simpatia de Mia Couto e não lhes pego. Solaris não pode esperar mais, submerjo.
a desilusão foi sempre demasiado amarga na minha boca. primeiro o Coliseu de Roma, depois a Universidade, agora o Taj Mahal. rasgo a velha máxima de não esperar nada e acabo sempre incrédula a questionar se é só aquilo - esperava monumentos infinitos, daqueles que os sonhos me revelam, em movimentos de intersecção, geometria aumentada, bem ao estilo de Escher. há um sonho especial que desejo secretamente que represente o meu momento final: estou sentada num vale que conheço, verde, em frente a montanha da minha infância, tudo num plano muitíssimo mais íngreme, que se vai aproximando, mas não sinto medo de tombar. sou menina, a minha mãe está sentada ao meu lado e sorri, perto, os meus irmãos brincam às apanhadas. a montanha está cada vez mais perto, os ponteiros do relógio caminham para a sobreposição, vamos ser esmagados, mas estamos serenos. é um sonho escasso, soberbo, dos poucos de que me consigo lembrar. se não acontecer, será a minha última desilusão.
Stanisław Lem, é com ele que me deito esta noite, caçadora exímia que se pavoneia, venho aqui grafa-lo às 3 da manhã. num descarado ménage, deixo-me seduzir pela tradução directa do polaco de Teresa Fernandes Swiatkiewicz. a teoria da tradução será sempre o meu tesão obscuro, a problemática da apropriação. a palavra é como um corpo, como lhe tocar sem a abocanhar, onde está a equivalência pura, directa, asséptica? tudo não passa de uma mentira, a palavra é um corpo. um sopro, um murmúrio, um ligeiro tremor é quanto basta.
Solaris, o livro por fim, e Lem levando-me para "outros mundos, outras civilizações, sem conhecer inteiramente os meus próprios recantos, os meus becos sem saída, sem saber o que está por detrás das minhas portas negras"....
tem tudo para ser uma noite inesquecível.

18.5.18

rouxinol, o pássaro louco das intermináveis cantatas nocturnas, engatatão do canavial por quem me apaixonei, partiu durante o meu curto exílio nas montanhas. as noites repetem-se agora silenciosas e sem paixão. não consigo deitar-me com ninguém, um louco que seja, um deprimido novelista, um poeta, lambendo-me as mamas, as mãos, os dedos, um a um. olho-os, tacteio-lhes as capas, folheio-lhes os corpos e desisto. se escrever é corrigir a vida, levar os escritores para a cama é enganá-la.

Sono, maravilhosa edição da casa das letras, com ilustrações de Kat Menschik

falta-me, mais do que caminhar, um chão de terra onde possa cair e ficar quieta, até que outra alma tome conta de mim. e um vento suão, desalinhando-me os caracóis.
Os zés-ninguém

Sonham as pulgas comprar um cão e sonham os zés-ninguém sair da pobreza, que num dia mágico chova a sorte de repente, chova a sorte a cântaros; mas a sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem em chuvinha cai a sorte do céu, por mais que os zés-ninguém a chamem, ou que lhes comiche a mão esquerda, ou que se levantem com o pé direito, ou comecem o ano trocando de vassoura.
Os zés-ninguém, os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os zés-ninguém, os nenhuns, os ignorados, apertando o cinto, morrendo a vida, fodidos, fodidíssimos.
Que não são, embora sejam.
Que não falam línguas, mas dialectos.
Que não professam religiões, mas superstições.
Que não fazem arte, mas artesanato.
Que não praticam cultura, mas folclore.
Que não são seres humanos, mas recursos humanos.
Que não têm cara, mas braços.
Que não têm nome, mas número.
Que não figuram na história universal, mas nos casos do dia da imprensa local.
Os zés-ninguém, que custam menos do que a bala que os mata.


/Eduardo Galeano, O livro dos Abraços/