30.8.18

 Jan Erik Waider


Caminho sem pés e sem sonhos 
só com a respiração e a cadência 
da muda passagem dos sopros 
caminho como um remo que se afunda. 

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes 
para que a elevação e a profundidade se conjuguem. 
avanço sem jugo e ando longe 

de caminhar sobre as águas do céu


Daniel Faria |1998|

28.8.18

e então eu perguntei, posso ir para casa, jardinar de pijama polar, debicar uvas com scones e marmelada?... é que me apetece tanto... e tenho frio, só com este casaquinho de sem jeito nenhum... aproveitava para pôr roupa a lavar, mudava os lençóis da cama... adiantava o projecto da estufa!, fazia festas aos borregos, escovava as pretinhas... oh pá! era tão fixe!! posso?...


e eles, o bando inteiro, para que não houvesse dúvidas, semicerraram os olhos metálicos, encresparam as frontes e ergueram-se a mim respondendo:


Eugenia Loli

27.8.18


























– Pois não será nem um camelo, muito menos um dromedário! A Princesa há-de passear-se pelos jardins do deserto montada na corcunda de uma cabra coroada de chifres, igualmente alva e delgada, com rabo em largas plumas.


de todos os entra-e-sai do prédio, ups, dhl e uber eats incluídos, calhou-me fazer amizade com o carteiro provisório deste mês. tudo começou com um siga da emel, dois euros e quarenta e seis cêntimos trocados e a oferta de um cafézinho. a coisa deu-se de forma simples, como se dão todas as coisas de valor. da conversa de circunstância, aproveitou-se o tempo para falar de tudo o que no momento nos apeteceu, a filhaputice da emel e a sua aplicação merdosa, tantas vezes avariada, o tempo, que no dia abrasava com um caldeirão do diabo, as férias que ainda não gozámos, as chávenas do café com rosinhas pintadas, oferta (pirosinha) da minha querida mãe, as horas que damos a mais ao trabalho, porque temos amor à camisola, e isso é que importa, e por aí terminámos. hoje voltei a encontrá-lo no rés-do-chão, segurei-lhe a porta do elevador, inquiri-lhe da correspondência, avisando de antemão que não recebo contas à segunda. rimos os dois, reconvidei-o para mais um cafézinho, por cá há-de passar mais tarde. e é ao teclar esta meia dúzia de frases sem grande importância, que me lembro daquela vez em que a tia Lurditas, em tom de evidente desagrado, avisou a minha mãe que muito eu gostava de dar conversa aos serviçais, eu, que tinha tantos estudos! pobre tia Lurditas, de cabelos pintados e mamas volumosas - como lhas invejava, caramba -, vivia convencida que pertencia a uma casta superior, porque tinha sido secretária de administração durante algum tempo. ainda vive. deus lhe dê muita saúde. calculo que não bebesse cafézinhos com qualquer um...
beatas, centenas delas, espalhadas pela rua inteira. ainda tentei uma formação on job, perceber qual a melhor técnica de cantoneiro, a inclinação certa da pá, a posição mais adequada à vassoura, mas não havia ninguém a quem perguntar. era eu e elas, pontas redondas, mais ou menos terminadas, algumas brancas, a maioria já pisada. apanhar beatas é como um daqueles jogos básicos de computador dos anos noventa, percebemos que é sempre igual, mas não o conseguimos largar. não foi preciso muito para descobrir que estava viciada naquilo. Comecei por alargar o perímetro das buscas, insistia até nas mais difíceis, presas em sulcos de terra ou nos buracos do passeio, tudo isso enquanto ia pensando na vida, sossegada. embora o objectivo principal fosse apenas o de limpar o lixo maior, não parei enquanto não cheguei à curva do quarteirão sem uma ponta que se visse. está bom!, gritou-me lá do fundo o responsável. fosse assim tão fácil limpar o lixo da cabeça.

26.8.18

um dia teremos de chamar a polícia, digo-lhe ainda outra vez, forçando uma resposta que me ampare. Tristan suspira, de rosto voltado para a lua, tão prenhe lá em cima. ouve, Tristan, eu também não quero problemas com ninguém, mas é impossível manter os animais nestas condições, sabes que o barulho os deixa agitados. não vale a pena continuar, Tristan não me ouve, acha que é cedo demais para fazer a queixa. descalça, magoo os pés no caminho de brita, enquanto tento chegar a casa. a algazarra do grupo não me deixará descansar nas próximas horas, tão-pouco o grunhido que chega do curral, mas, quem sabe, talvez também eu me aninhe na cobardia da inacção e deixe a vida correr assim. se ao menos chovesse...

24.8.18

ao poeta

coisas da vida, dir-me-ia o leitor, se ainda por aqui passasse, isso de ouvir outra vez o poeta, num tiro de sorte à sua Caligrafia Ardente, falar-me da flor que se abre na boca dos suicidas. nesta surpresa de poder olhá-lo ali tão perto, a pele salgada em gotas, estendo-lhe as mãos às palavras, abro a boca em beijo, morro e renasço, enquanto a sua língua se enterra em mim.



o canto da velha toupeira
ondulante entre o diálogo dos mortos
na cinza das pátrias destruídas
em troca de uma estrela __e outra estrela
até à constelação chamada sempre a idade de ouro
e ilha da reunião de todos os desejos
e do amor único e louco
até à grande maravilha do princípio
das mil e uma noites sem fim
numa nuvem de sangue muito doce
erguida à altura da paixão dos olhos
perdidos no infinito


/Uma Faca nos Dentes - Antígona/

13.8.18

Wild, wild horses we'll ride them some day

28.5.18

na literatura, como na vida,
na vida, como nos blogs.

Tem de se retirar algum prazer deste trabalho, e é isso. Andar por aí disfarçado. Representar um papel. Fazermo-nos passar por algo que não somos. Fingir.

Philip Roth

27.5.18

Lo que me gusta de tu cuerpo 
es el sexo. 
Lo que me gusta de tu sexo 
es la boca. 
Lo que me gusta de tu boca 
es la lengua. 
Lo que me gusta de tu lengua 
es la palabra.