de todos os entra-e-sai do prédio, ups, dhl e uber eats incluídos, calhou-me fazer amizade com o carteiro provisório deste mês. tudo começou com um siga da emel, dois euros e quarenta e seis cêntimos trocados e a oferta de um cafézinho. a coisa deu-se de forma simples, como se dão todas as coisas de valor. da conversa de circunstância, aproveitou-se o tempo para falar de tudo o que no momento nos apeteceu, a filhaputice da emel e a sua aplicação merdosa, tantas vezes avariada, o tempo, que no dia abrasava com um caldeirão do diabo, as férias que ainda não gozámos, as chávenas do café com rosinhas pintadas, oferta (pirosinha) da minha querida mãe, as horas que damos a mais ao trabalho, porque temos amor à camisola, e isso é que importa, e por aí terminámos. hoje voltei a encontrá-lo no rés-do-chão, segurei-lhe a porta do elevador, inquiri-lhe da correspondência, avisando de antemão que não recebo contas à segunda. rimos os dois, reconvidei-o para mais um cafézinho, por cá há-de passar mais tarde. e é ao teclar esta meia dúzia de frases sem grande importância, que me lembro daquela vez em que a tia Lurditas, em tom de evidente desagrado, avisou a minha mãe que muito eu gostava de dar conversa aos serviçais, eu, que tinha tantos estudos! pobre tia Lurditas, de cabelos pintados e mamas volumosas - como lhas invejava, caramba -, vivia convencida que pertencia a uma casta superior, porque tinha sido secretária de administração durante algum tempo. ainda vive. deus lhe dê muita saúde. calculo que não bebesse cafézinhos com qualquer um...