10.9.18

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona. 

 Luís Miguel Nava

8.9.18

da conversa entre Mariana Oliveira e Isabel Lucas, no paraíso perdido de ontem, na antena 3, ficou-me esta frase [que hoje recupero no rtp play]:

-- achas que este ódio à poesia tem a ver com essa nossa aversão a tudo o que não seja imediatamente claro ou perceptível?

6.9.18


It is almost axiomatic that the worst trains take you through magical places.

relincham alto como potros ainda sem cabresto, cheirando nada mais do que a liberdade do momento e a vontade de coicear. pondero assobiar-lhes em riste, para que se calem, ou pelo menos baixem as vozes acnosas, mas manieto a insatisfação. olho-os uma última vez, antes de me recolher ao silêncio mordido que já não me satisfaz. soubesse outrora deste maldito porvir.
enquanto me esvaio em sangue e desvaneço dentro de uma dor de cabeça velhaca e persistente, Pepetela entretém-me, contando um pouco mais da parábola do cágado velho:

A explosão fez toldar o azul do céu, mas o rosto melancólico de Munakazi ficou pregado nele. Morri e vejo o céu e vejo Munakazi. Estranha morte. Não ouvia tiros, nem gritos, nem explosões, então a morte é isso, esse silêncio num céu brilhante, esse parar da vida como naquele instante da tarde, como agora que era meio da tarde, em que tudo fica extático e ele em cima do morro olhando o seu mundo. O silêncio persistia, o rosto de Munakazi se apagou, ficou apenas o céu azul. Mas havia uma coisa na morte que era diferente dos outros meios da tarde, não sentia angústia. 
Foi quando percebeu que tremia de medo. Afinal não estava morto. Impossível parar o tremor, ficou muito tempo na mesma posição, placado no solo, de olhos abertos, vivendo o seu medo e a frustração de com o medo estar vivo. Então decidiu, Munakazi tem de ser minha.


|lentamente, não se impondo, falando apenas, Pepetela vai-me levando para onde ainda há pouco pensava não querer ir.|

5.9.18

[tenho me deitado com Antonio Gamoneda nestas últimas noites]

voltando à tradução, refastelo-me nas palavras de Pablo Javier Pérez López, na enfermaria do meu coração:

A arte de traduzir é, simplesmente, uma das mais elevadas e secretas. Poucos humanos conseguem levar poemas para uma outra língua com essa estranha e árdua fidelidade que reproduz a ebriedade, o ritmo, e o pensar cosido à música da vida da qual nasce o poema. Mais difícil ainda frente ao sentir popular, é fazer viajar a poesia para uma língua aparentemente familiar ou próxima. Mudar, verbo escolhido por Helberto Helder para este facto sagrado que sempre convoca a apropriação de outra voz e a recriação oral e escrita do poema, um verbo que, Gamoneda aceitou e recebeu com gosto. Sempre tem que ser um poeta a mudar a voz de outro poeta e sempre que isto acontece nota-se logo a partir do início da leitura.


|que gozo me dão as edições bilingues|

2.9.18

e já submersa, viajando à velocidade da ponta dos dedos no ecrã, encontro o texto de miss smile, que me encanta, depois o do xilre, e deixo me ficar, contente por conseguir manter as mãos fora de água e os olhos abertos :b

|a blogosfera em bom|
e já que estou com as mãos na massa e os dedos no gatilho, aproveito para deixar mais uma semente, antes de descalçar as botas sujas de terra e mergulhar no submarino marsupial. 

«Traduzir Solaris é um desafio, porquanto a narrativa urdida neste romance ultrapassa as fronteiras da realidade conhecida e ficcionada, construindo um mundo desconhecido, completamente imaginado e povoado de fenómenos nunca dantes concebidos. Neste caso, a tarefa do tradutor estende-se a um espaço onde o visionamento destes fenómenos é a condição necessária para que não se percam as representações visuais das entidades inventadas, nem o estilo literário que, oscilando entre uma linguagem técnica, filosófica e poética, avulta em criatividade linguistica e neologismos. São exemplo disso os sugestivos nomes das entidades que habitam o planeta Solaris: «mimóides», «longóides», «cogumelões», «simetríadas», «dendromontanhas», etc. Por conseguinte, a tarefa repartiu-se entre dar a ver o mundo representado neste romance de ficção científica e, simultaneamente, dar a ouvir a voz do autor e o seu modo de expressão»

/Nota à presente tradução, Teresa Fernandes Swiatkiewicz, in Solaris/


sempre me encantou a busca por este eterno equilíbrio entre a transposição e a criação. a vontade de mostrar o outro, num acto de abnegação à nossa própria existência, tentando transportá-lo o mais puro possível, |como, santo deus, se mesmo ele próprio já é polissemia?|, permanecendo nós na sombra das palavras. saber do poder e rondá-lo sem lhe tocar o nervo, uma pouco mais do que a pele.
é das poucas vontades que ainda hoje me permanecem: por que diabos não escolhi teoria da tradução?
encantadora rata, a Josefina de Kafka, de sorriso insolente, pretensiosa, inflamada de raiva pela falta de reconhecimento, como qualquer artista que se preze, no limbo entre o mero assobio ou algo maior (assim é a arte, dizem)....


«É nessas escassas pausas entre batalhas que o povo sonha, é como se os membros de cada qual se soltassem, como se a ansiedade tivesse por uma vez direito a distender-se e esticar-se à vontade na cama grande e quente do povo. E nesse sonho ouve-se aqui e ali o som do assobio da Josefina; ela chama-lhe pérola, nós chamamos-lhe chumbo; mas de qualquer das formas, ele encontra aqui o seu lugar como em nenhum outro sítio, aqui encontra a música o momento que por ela esperava, e isto é raro acontecer. Há nisto qualquer coisa da nossa pobre e tão breve infância, de uma felicidade perdida que nunca poderá voltar a ser encontrada, mas há também qualquer coisa da vida activa, do dia a dia, da sua pequena, incompreensível e apesar disso subsistente e irreprimível alegria. E tudo isto é dito com sinceridade, sem grandes sons, antes com leveza, sussurrado, uma confidência por vezes um pouco rouca. Claro que é um assobio. Como poderia ser outra coisa? O assobio é a língua do nosso povo, só que há quem assobie a vida inteira sem o saber, enquanto que aqui o assobio está livre dos constrangimentos da vida quotidiana e pode também libertar-nos a nós por um breve momento. Assim sendo, é óbvio que não queríamos perder este espectáculo.»

/Josefina, a Cantora ou o Povo dos Ratos, de Kafka/



acompanhei a novela de Josefina ora no Artista de bolso, ora no Bestiário (confesso a minha predilecção por bestiários). na rua ou em casa, a rata de Kafka, a mesma que os três magníficos (Borges, Bioy e Ocampo) já tinham escolhido para figurar na sua Antologia da Literatura Fantástica, acompanhou-me durante alguns dias na minha insossa vida de rato. no fim, foi-se a Josefina, ficou-me/nos, felizmente, (o) Kafka, que pouco tempo depois morreu de tuberculose laríngea |talvez daí um artista da fome...| 



__ o que ela ambiciona é então apenas o reconhecimento público da sua arte, um reconhecimento unânime, que perdure pelo tempo, que ultrapasse tudo o que até agora se conhece. 

30.8.18

 Jan Erik Waider


Caminho sem pés e sem sonhos 
só com a respiração e a cadência 
da muda passagem dos sopros 
caminho como um remo que se afunda. 

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes 
para que a elevação e a profundidade se conjuguem. 
avanço sem jugo e ando longe 

de caminhar sobre as águas do céu


Daniel Faria |1998|