só me dou conta da estupidez do que digo, /até pedi um desejo/, quando Damas se ri de mim. o que inicialmente acreditei ser uma estrela cadente, mas logo percebi que um rasto de luz que se transforma numa bola de fogo tem de ser coisa diferente, será tão somente lixo espacial.
13.9.18
11.9.18
deste vez fui sozinha, Cirilo nem se atreveu a questionar a minha decisão. atravessei a cidade com Jolly Jumper a pedir um fardo de palha, mas com boa-vontade e o freio a meio gás lá se aguentou até ao estábulo mais próximo. a pé desde cedo e de estômago vazio, ainda parei num salon desses da moda, onde filas intermináveis de turistas provam as iguarias mais típicas de lisboa, e debiquei junto deles um pastelinho com bica a correr. atravessei umas quantas ruas, galguei alguns degraus e virei a esquina. a toca do velhaco estava mesmo ali em frente, com vista para a praça. tinha pressa em resolver a questão, por isso avancei o mais rápido que pude, quase arrastando o casalinho de franceses apaixonados por uma vespa verde tropa, estacionada no passeio. pardon, i'm sorry, já se arredavam, não?
sabia exactamente cada palavra que ia dizer, por onde começar, como demonstrar o que tinha de ser, encostá-lo à parede com a realidade certeira. sentia-me confiante da vitória. o azul escuro dava-me um ar profissional, estava com boa cara, o cabelo arrebitado num rabo de cavalo perfeito, a sobrancelha, à linha, devidamente arqueada, o sorriso no ponto certo. vamos lá então, envergonhar aquele cara de cu e obrigá-lo a puxar da carteira.
não foram precisos nem trinta segundos a caminhar pela praça, para sentir o sabor amargo da derrota. uma nesga da janela rasteira e um papel torto onde alguém tinha escrito: Fechados para férias até 24/09... ¡cabrón!...
10.9.18
8.9.18
da conversa entre Mariana Oliveira e Isabel Lucas, no paraíso perdido de ontem, na antena 3, ficou-me esta frase [que hoje recupero no rtp play]:
-- achas que este ódio à poesia tem a ver com essa nossa aversão a tudo o que não seja imediatamente claro ou perceptível?
6.9.18
relincham alto como potros ainda sem cabresto, cheirando nada mais do que a liberdade do momento e a vontade de coicear. pondero assobiar-lhes em riste, para que se calem, ou pelo menos baixem as vozes acnosas, mas manieto a insatisfação. olho-os uma última vez, antes de me recolher ao silêncio mordido que já não me satisfaz. soubesse outrora deste maldito porvir.
enquanto me esvaio em sangue e desvaneço dentro de uma dor de cabeça velhaca e persistente, Pepetela entretém-me, contando um pouco mais da parábola do cágado velho:
A explosão fez toldar o azul do céu, mas o rosto melancólico de Munakazi ficou pregado nele. Morri e vejo o céu e vejo Munakazi. Estranha morte. Não ouvia tiros, nem gritos, nem explosões, então a morte é isso, esse silêncio num céu brilhante, esse parar da vida como naquele instante da tarde, como agora que era meio da tarde, em que tudo fica extático e ele em cima do morro olhando o seu mundo. O silêncio persistia, o rosto de Munakazi se apagou, ficou apenas o céu azul. Mas havia uma coisa na morte que era diferente dos outros meios da tarde, não sentia angústia.
Foi quando percebeu que tremia de medo. Afinal não estava morto. Impossível parar o tremor, ficou muito tempo na mesma posição, placado no solo, de olhos abertos, vivendo o seu medo e a frustração de com o medo estar vivo. Então decidiu, Munakazi tem de ser minha.
|lentamente, não se impondo, falando apenas, Pepetela vai-me levando para onde ainda há pouco pensava não querer ir.|
5.9.18
[tenho me deitado com Antonio Gamoneda nestas últimas noites]
voltando à tradução, refastelo-me nas palavras de Pablo Javier Pérez López, na enfermaria do meu coração:
voltando à tradução, refastelo-me nas palavras de Pablo Javier Pérez López, na enfermaria do meu coração:
A arte de traduzir é, simplesmente, uma das mais elevadas e secretas. Poucos humanos conseguem levar poemas para uma outra língua com essa estranha e árdua fidelidade que reproduz a ebriedade, o ritmo, e o pensar cosido à música da vida da qual nasce o poema. Mais difícil ainda frente ao sentir popular, é fazer viajar a poesia para uma língua aparentemente familiar ou próxima. Mudar, verbo escolhido por Helberto Helder para este facto sagrado que sempre convoca a apropriação de outra voz e a recriação oral e escrita do poema, um verbo que, Gamoneda aceitou e recebeu com gosto. Sempre tem que ser um poeta a mudar a voz de outro poeta e sempre que isto acontece nota-se logo a partir do início da leitura.
|que gozo me dão as edições bilingues|
2.9.18
e já submersa, viajando à velocidade da ponta dos dedos no ecrã, encontro o texto de miss smile, que me encanta, depois o do xilre, e deixo me ficar, contente por conseguir manter as mãos fora de água e os olhos abertos :b
|a blogosfera em bom|
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