25.9.18

Gao Xingjian
























caminhamos ainda
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível dentro dos fragmentados corpos
e um dia......quem sabe?

chegaremos

24.9.18

não somos feitos de medo, diz-me Bartolomeu, quando percebe que há lágrimas que teimam em rolar desde manhã. Petra, que não vejo há vários meses, ter-me-ia abraçado, dizendo-me que está tudo bem,  provavelmente não deve ser nada. Bartolomeu, adivinhando o meu pensamento no silêncio com que lhe respondo, regressa à secretária e conclui, ainda é muito cedo para ter pena de ti.

22.9.18

o equinócio bateu-me à porta, bafejando vapores do caldeirão, e eu continuo branca como a cal da primavera, excepto estes longos braços escanzelados e a fronha rafeira. dizem as revistas de especialidade que este é o momento para nos desprendermos do que está maduro, folhas, frutos, projectos de vida, colhermo-nos a nós mesmos. eu, descrente desde o berço, onde mijei até tarde, deixo-o entrar. sei que traz consigo o início do fim e do meu lado nada há para parir. ano fodido este, sim senhor.
pois muito bem, lançado o repto do Ouriquense e seguindo a genial Tetisq, não posso deixar a oportunidade de penizar este blog fraquinho e murcho.

ergam-se os falos dos anjos, porque o do diabo já cá está.

 Robert Mapplethorpe

derramam gozo em carne madura, pingando fios de mel, translúcidas gotas que adornam o orifício sagrado.

16.9.18

Amar? 
Para quê? 
Por um tempo, não vale a pena. 
E, para sempre, é impossível. 


/Alexander Pushkin/

14.9.18

fez o ninho nas minhas coxas, onde se enroscou de azul estrelado e toda a noite me aqueceu. acordei com ele bicando-me os figos maduros.

13.9.18

só me dou conta da estupidez do que digo, /até pedi um desejo/, quando Damas se ri de mim. o que inicialmente acreditei ser uma estrela cadente, mas logo percebi que um rasto de luz que se transforma numa bola de fogo tem de ser coisa diferente, será tão somente lixo espacial. 

12.9.18

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.


Nagib El Desouky

11.9.18

deste vez fui sozinha, Cirilo nem se atreveu a questionar a minha decisão. atravessei a cidade com Jolly Jumper a pedir um fardo de palha, mas com boa-vontade e o freio a meio gás lá se aguentou até ao estábulo mais próximo. a pé desde cedo e de estômago vazio, ainda parei num salon desses da moda, onde filas intermináveis de turistas provam as iguarias mais típicas de lisboa, e debiquei junto deles um pastelinho com bica a correr. atravessei umas quantas ruas, galguei alguns degraus e virei a esquina. a toca do velhaco estava mesmo ali em frente, com vista para a praça. tinha pressa em resolver a questão, por isso avancei o mais rápido que pude, quase arrastando o casalinho de franceses apaixonados por uma vespa verde tropa, estacionada no passeio. pardon, i'm sorry, já se arredavam, não? 
sabia exactamente cada palavra que ia dizer, por onde começar, como demonstrar o que tinha de ser, encostá-lo à parede com a realidade certeira. sentia-me confiante da vitória. o azul escuro dava-me um ar profissional, estava com boa cara, o cabelo arrebitado num rabo de cavalo perfeito, a sobrancelha, à linha, devidamente arqueada, o sorriso no ponto certo. vamos lá então, envergonhar aquele cara de cu e obrigá-lo a puxar da carteira.
não foram precisos nem trinta segundos a caminhar pela praça, para sentir o sabor amargo da derrota. uma nesga da janela rasteira e um papel torto onde alguém tinha escrito: Fechados para férias até 24/09... ¡cabrón!...