14.10.18

catorze de outubro de dois mil e dezoito, na graça de deus e de todos os vizinhos alarmados que saíram de casa domingo cedo para ajudar na remoção dos destroços. o meu filho mais velho, joão pedro miguel, faz-se homem e ajuda acarretar os galhos partidos. enquanto finjo pesquisar o número da epal da região, corro a internet em busca de notícias frescas. sinto-me um abutre. ou talvez exagere, o que procuro é a companhia de outros pobres infelizes a quem o vento também tenha levado as telhas e a segurança calafetada em que vivíamos, para que possamos confortar-nos nas nossa miserabilidade conjunta. joana patrícia, a minha mais nova, gasta-me o nome, enquanto marfa o segundo molete com manteiga: Ómãeeeeeeee! 
não saio à rua, mesmo que a rua seja minha, sem dar um arranjo no visual, ao menos limpar o negro dos olhos que ontem não desmaquilhei, o cabelo amarfanhado em ninho de ratos disfarça-se com um elástico da joana patrícia e o mau hálito leva com um cigarro em cima, depois um café. não sei se ao contrário evitava a úlcera, mas o prazer que me dá a nicotina em jejum é quase um orgasmo, não dá para parar só porque faz mal. a miúda, cujas goelas deve ter herdado da avó, continua a chamar, ora por mim, ora pelo irmão. joão pedro miguel não lhe liga, tão entretido que anda a fazer-se crescido juntos dos mais velhos, ajudando em tudo. nunca vi uma criança com tanta vontade de ser grande, desconfio que deve estar farto de mim e da irmã e logo que possa foge de casa.

2.10.18

Deixar de escrever é muito isso, deixar de querer, condenar ao silêncio as palavras é convidar para dentro o vazio. Porta cerrada, entretanto, torna-se o hóspede em invisível carrasco.

- Lady Kina - 
Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
Não é o serem atingidas, mas que,
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda

25.9.18

Gao Xingjian
























caminhamos ainda
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível dentro dos fragmentados corpos
e um dia......quem sabe?

chegaremos

24.9.18

não somos feitos de medo, diz-me Bartolomeu, quando percebe que há lágrimas que teimam em rolar desde manhã. Petra, que não vejo há vários meses, ter-me-ia abraçado, dizendo-me que está tudo bem,  provavelmente não deve ser nada. Bartolomeu, adivinhando o meu pensamento no silêncio com que lhe respondo, regressa à secretária e conclui, ainda é muito cedo para ter pena de ti.

22.9.18

o equinócio bateu-me à porta, bafejando vapores do caldeirão, e eu continuo branca como a cal da primavera, excepto estes longos braços escanzelados e a fronha rafeira. dizem as revistas de especialidade que este é o momento para nos desprendermos do que está maduro, folhas, frutos, projectos de vida, colhermo-nos a nós mesmos. eu, descrente desde o berço, onde mijei até tarde, deixo-o entrar. sei que traz consigo o início do fim e do meu lado nada há para parir. ano fodido este, sim senhor.
pois muito bem, lançado o repto do Ouriquense e seguindo a genial Tetisq, não posso deixar a oportunidade de penizar este blog fraquinho e murcho.

ergam-se os falos dos anjos, porque o do diabo já cá está.

 Robert Mapplethorpe

derramam gozo em carne madura, pingando fios de mel, translúcidas gotas que adornam o orifício sagrado.

16.9.18

Amar? 
Para quê? 
Por um tempo, não vale a pena. 
E, para sempre, é impossível. 


/Alexander Pushkin/

14.9.18

fez o ninho nas minhas coxas, onde se enroscou de azul estrelado e toda a noite me aqueceu. acordei com ele bicando-me os figos maduros.