catorze de outubro de dois mil e dezoito, na graça de deus e de todos os vizinhos alarmados que saíram de casa domingo cedo para ajudar na remoção dos destroços. o meu filho mais velho, joão pedro miguel, faz-se homem e ajuda acarretar os galhos partidos. enquanto finjo pesquisar o número da epal da região, corro a internet em busca de notícias frescas. sinto-me um abutre. ou talvez exagere, o que procuro é a companhia de outros pobres infelizes a quem o vento também tenha levado as telhas e a segurança calafetada em que vivíamos, para que possamos confortar-nos nas nossa miserabilidade conjunta. joana patrícia, a minha mais nova, gasta-me o nome, enquanto marfa o segundo molete com manteiga: Ómãeeeeeeee!
não saio à rua, mesmo que a rua seja minha, sem dar um arranjo no visual, ao menos limpar o negro dos olhos que ontem não desmaquilhei, o cabelo amarfanhado em ninho de ratos disfarça-se com um elástico da joana patrícia e o mau hálito leva com um cigarro em cima, depois um café. não sei se ao contrário evitava a úlcera, mas o prazer que me dá a nicotina em jejum é quase um orgasmo, não dá para parar só porque faz mal. a miúda, cujas goelas deve ter herdado da avó, continua a chamar, ora por mim, ora pelo irmão. joão pedro miguel não lhe liga, tão entretido que anda a fazer-se crescido juntos dos mais velhos, ajudando em tudo. nunca vi uma criança com tanta vontade de ser grande, desconfio que deve estar farto de mim e da irmã e logo que possa foge de casa.

