29.10.18

e tu, flor, o que fazes numa noite fria e chuvosa de segunda feira? pintas as unhas como a outra senhora na assembleia? vês netflix? passas a ferro os pijaminhas e as meinhas de lã?

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aprendo a caçar lesmas no google.
não posso mais com esta praga de invertebrados hermafroditas viscosos! está me a dar cabo dos nervos!!
Sophia continua de cara fechada, justificando-se com a constipação que lhe ataca especialmente o nariz. sei que não será apenas isso, mas aceito a fuga. gosto de Sophia talvez como se gosta de uma irmã mais nova, falta-me às vezes a paciência para o seu mau-humor, mas continuo presente, por vontade, na sua vida escassa de contacto social. durante muito tempo, revia-me em Sophia, no seu comportamento destrutivo, na sua busca desesperada por afecto. a falta de um pai transformou-nos em mulheres amargas. a diferença entre nós, sei-o agora, é que aos mortos tudo se perdoa mais depressa.
Escritora inglesa, nasceu em 1919, no Irão, mudando-se, aos cinco anos de idade, para o Zimbabwe. 

daqui

Doris Lessing, é por ela que ando apaixonada, leio-lhe A Fenda, uma 'comunidade pré-histórica é exclusivamente consistida por mulheres, que não conhecem homens nem deles têm necessidades'.

Fendas&Monstros

27.10.18

componho a loiça que seca no pequeno escorredor da copa, /encaixar as chávenas molhadas umas nas outras não é a melhor ideia/, inclinando-a, para que seque mais rapidamente e agradeço a Cirilo pelo trabalho feito. Cirilo, à sua maneira, sem hábitos do(e) género instituídos, bem pelo contrário, tem lavado a loiça toda amiúde, e não apenas a sua, como compete a cada um no bando.

moral da história: não é com vinagre que se apanham moscas ou de como as pequenas coisas mudam o mundo ou ainda de como todos gostamos de uma palavra de incentivo
talvez o vento que despenteia as árvores do jardim tenha descido pelo cano do exaustor e depois atravessado o tecto falso, não sei, nem me dei ao trabalho de confirmar. o som, delicado e continuo, lembrou-me o repique dos sinos, sinos de cristal, copos que não parti, nem dei, mas que não uso. não deixa de ser irónico - e tão irónica tem sido a vida, meus caros -, que agora me comova com a música singela dentro do armário, quando há muito me desfiz de quase tudo o que não uso, porque a beleza da vida sempre a percebi nas coisas vivas. digo mais, tantas das coisas que tinha as tinha apenas para estar em sociedade, calar bocas demasiado insistentes, não destoar do padrão. pois então, se dei uso aos belíssimos vista alegre, pintados de cidades, para que os gatos comessem a ração, se deitei a uso corrente pequenas colheres de prata para que desconhecidos mexessem o café, que sentimento é este de me sentir emocionada ao simples toque de alguns copos de cristal?

20.10.18


gild assembly, Billy Kidd

16.10.18

ah, senhores! o cheiro da terra molhada, húmus, água, erva, fruta apodrecida, anis-estrelado, tudo por entre o verde que brilha logo pela manhã, quando todas as aves se reúnem para os primeiros ensaios...  

15.10.18

sei que Tristan tem razão, a culpa, a que ele prefere chamar de responsabilidade, é minha, fui eu que decidi acreditar que ainda podia salvar o ano. deixei que a luz do sol me namorasse, analisei os números com a pele acariciada pela volúpia do calor. quão irónica pode ser às vezes a vida, que até do corpo me escoou a vitamina. estúpida, é isso que sou. acreditar que o último trimestre nos traria a salvação. Bartolomeu contrapõe, dizendo que não conhece ninguém que avance sem tropeçar, por vezes nos seus próprios passos. é necessário acreditar que o melhor virá, a chuva há-de parar. agradeço-lhe as palavras, amigas, mas não as engulo. culpa minha, que não tive a coragem, devíamos ter alterado a rota do navio, logo que o vento começou a amainar. continuo com este defeito de astrologia barata entranhado na carne, demoro séculos, demasiadas vidas, a desistir do que não vinga. 

14.10.18

Megan Lorenz















mochos, corujas, morcegos,
noitibós pequeninos,
animais nocturnos voadores
são a minha felicidade.





|para a Bela Teresa|
cavalguei o Leslie sem arreios, nem medos, a cautela é valentia dos frouxos e eu, esta noite, soltei os cabelos à ventania. aos seus assobios de réptil gigante, respondi com gargalhadas infindáveis, geradas em várias doses de conhaque - aquele que estava guardado por uma ocasião especial. que me destruísse a casa, que violentasse as árvores maiores, os caixotes do lixo, os vasos, as vassouras. que me levasse em rodopio para a morte certa, mas não haveria de me cheirar o medo na urina.