13.11.18

Preciso Me Encontrar



Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
...

8.11.18


Nature Morte, 1931
sempre que vou abastecer Jolly Jumper de fardos de palha, peço ao homem simpático que me venda apenas o combustível e fique com o imposto. ele ri-se, mas eu insisto: a sério, já tentei, mas Jolly Jumper é um equídeo esquisito, não há meio de digerir essa porra. não sei se o expele em valentes bufas esverdeadas, mas galopar com isso é que ele não galopa, nem a trote, quanto mais. ora isto assim é uma estragação, mais de metade da palha que lhe estou a comprar não serve sequer para fazer esterco. um bocadinho até concordo, que é preciso ajudar a malta, mas assim, caramba!, é um assalto à mão armada! o homem, ainda de pistola na mão ri-se, mas olhe que não sou eu! diz que tem que atestar sempre primeiro com o imposto e só depois a palha. são ordens. mas você não vê que o bicho já está velho, a quinta ainda não dá quase nada e isto assim é morte certa, apelo-lhe ao coração. encolhe os ombros e responde-me baixinho: é tudo uma cambada de ladrões, fazer o quê? isto só lá ia com gente nova, mas a gente nova quando lá chega fica igual. é o mecanismo a girar, não tem fim, é uma coisa infinita. É um modo de funcionamento que se auto-alimenta, e expele, cospe o que não faz parte dele. O mecanismo está em tudo. Do governo federal ao seu João. No macro e no micro. É um padrão.



“Os combustíveis estão sobrecarregados há muitos anos. Mas de 60% do preço dos combustíveis são impostos. Um litro de gasóleo custa menos de 40 cêntimos, tudo o resto são impostos, ISP e IVA”

|29.10.2018|

5.11.18

«Aqueles pobre Monstros viviam em abrigos e cabanas, que estavam sempre cheias de lixo e cheiravam mal, porque tão simplesmente lhe faltava o jeito para os manter em ordem.»

A Fenda, Doris Lessing

[os Monstros, logicamente, são os homens, mais tarde apelidados de Esguichos]


 «Cada mulher tem em si a capacidade de ser quem cuida da casa.»

Padre José Rafael Espírito Santo, Opus Dei

1.11.18

enquanto vou recolhendo as fardas secas do estendal, lembro a história de cada uma delas. são as mais antigas que mais me emocionam. de um tecido barato e reles, foram compradas numa dessas lojas de origem espanhola numa altura em que eu tinha pouco dinheiro, pouquíssimo, se quisermos ser mais apurados. não que a situação se tenha invertido o suficiente que desejo para a minha estabilidade  financeira, mas, dentro das lojas de fast fashion, consegui subir um degrauzinho na qualidade. eu sabia que matar Vendredi me iria debilitar as posses económicas, as quais desde sempre defini como a base de sustentação da minha independência. mas, contrariamente aos que me julgam uma capitalista sanguinária, o dinheiro nunca foi o objectivo, antes a ferramenta. a farda velha, que ainda uso, sem que por isso me sinta constrangida, lembra-me do quanto lutei para chegar aqui de pé. felizmente, nunca me assustou não ter croissants, que adoro, o único receio é deixar de ter pão. enquanto isso, sobrevivo de cabeça mais limpa. 
por mais repulsa que lhes sinta - e sinto tanta! -, todas as manhãs em que me dirijo ao barracão, já sem nenhum espécime viscoso à vista, tento imaginar o rastejante cortejo na sua lenta debandada para o covil. a que horas começarão elas a deixar de engolir a comida seca dos gatos - ver uma lesma com uma bola dentro da boca é o expoente máximo da minha náusea - e darão meia volta iniciando o rastejo de regresso? presumo que o momento seja calculado com base no crescendo de luminosidade, mas a verdade é que, enquanto não dedicar uma das minhas noites à experiência, nunca o saberei. embora a curiosidade se tenha agarrado a mim com uma lapa, temo não ter sangue-frio suficiente para resistir à imagem de tanta viscosidade junta. 
não pensem mal de mim, não alimento este preconceito sem alguma mágoa, não esqueço que somos todos oriundos da mesma mãe natureza e já tentei por várias vezes ultrapassar este asco observando a mesma lesma durante muitos segundos, mas há algo demasiado entranhado no meu cérebro, quem sabe memórias ancestrais de lesmas pré-históricas do tamanho de dinossauros, que não me deixa superar este nojo continuo e profundo. 
as lesmas são o meu limite em termos de tolerância à viscosidade animal, mas também abomino os caracóis - só de pensar em comê-los, sinto um refluxo gástrico potente - e as minhocas. este problema com os invertebrados existe desde que me conheço. talvez a coisa, obscura, aceito, se curasse com algumas sessões de hipnoterapia, mas suspeito que uma vez aberta a caixa de pandora a minha repulsa doentia às lesmas seria um dos meus menores problemas, ainda assim gigante.
às vezes, quando vejo as lesmas pequenas, apelo ao meu instinto maternal, o mesmo que me faz enternecer quando vejo uma família de osgas com as suas osguinhas pequeninas, e chego a ter vergonha da minha frieza. também não gosto das lesminhas...

29.10.18

e tu, flor, o que fazes numa noite fria e chuvosa de segunda feira? pintas as unhas como a outra senhora na assembleia? vês netflix? passas a ferro os pijaminhas e as meinhas de lã?

....

aprendo a caçar lesmas no google.
não posso mais com esta praga de invertebrados hermafroditas viscosos! está me a dar cabo dos nervos!!
Sophia continua de cara fechada, justificando-se com a constipação que lhe ataca especialmente o nariz. sei que não será apenas isso, mas aceito a fuga. gosto de Sophia talvez como se gosta de uma irmã mais nova, falta-me às vezes a paciência para o seu mau-humor, mas continuo presente, por vontade, na sua vida escassa de contacto social. durante muito tempo, revia-me em Sophia, no seu comportamento destrutivo, na sua busca desesperada por afecto. a falta de um pai transformou-nos em mulheres amargas. a diferença entre nós, sei-o agora, é que aos mortos tudo se perdoa mais depressa.
Escritora inglesa, nasceu em 1919, no Irão, mudando-se, aos cinco anos de idade, para o Zimbabwe. 

daqui

Doris Lessing, é por ela que ando apaixonada, leio-lhe A Fenda, uma 'comunidade pré-histórica é exclusivamente consistida por mulheres, que não conhecem homens nem deles têm necessidades'.

Fendas&Monstros