5.1.19
não, obrigado, estou bem, nada de novo,
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de
quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem
dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou
até se era eu o destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de
algures para nenhures,
logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre
tantas violências de sangue
que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue
inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado – e o sangue corre e escorre dentro
e fora,
e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é
que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo
à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio
do tempo,
e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
– a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários
Herberto Helder, Servidões
27.12.18
passámos então ao plano, era necessário defini-lo, fazê-lo ganhar corpo e arredondar-lhe as arestas, tinha de ser um plano tão fácil de engolir como qualquer outra mentira. Cirilo queria alterar as percentagens, argumentava que a falta de realidade, a demasia na expectativa só nos tem trazido problemas. Bartolomeu contrapunha, não pode ser, sem expectativas, não passamos de um bando de fazedores até ao dia em que não encontrarmos nada mais para fazer. temos de criar as oportunidades, mais do que apenas esperar por elas. o resto do bando permanecia calado. Petra e Tristan já não acreditam no sucesso do grupo, mas são incapazes de o abandonar. Jasmin é demasiado novo para se preocupar com o futuro. Sophia já raramente aparece. todos sabemos que o novo ano que se aproxima é um ano decisivo, uns esperam finalmente a morte e a ressurreição, longe deste lugar, outros, doentes talvez, ainda acreditam que a sorte virá montada num javali.
13.12.18
Isto de ser moderno é como ser elegante: não é uma maneira de vestir mas sim uma maneira de ser. Ser moderno não é fazer a caligrafia moderna, é ser o legítimo descobridor da novidade.
José de Almada Negreiros, conferência O Desenho, Madrid 1927
Gulbenkian
José de Almada Negreiros, conferência O Desenho, Madrid 1927
Gulbenkian
vale mais um beijo na boca do que toda as histórias de encantar.
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| Milu |
Milu, a aranha que tecia as minhas memórias no tecto do submarino em tempos idos, veio ter comigo à cozinha. arrastava debaixo das patitas arqueadas dois grandes pêlos caninos, resultado dos múltiplos pinotes, sôfregos por lambeduras, das ursas pardas. que contentamento foi, confesso, ver a pequena atravessar o grande deserto sob a mesa de pedra mármore. parei o exercício da vassoura e sentei-me à conversa com ela. Milu pareceu-me em excelente forma, redondinha, alimentada na penumbra das infinitas divisões do palácio. sem receio do telemóvel que lhe apontei ao traseiro para registar a imagem, Milu deixou-se ficar quieta, vaidosa da boa pose. e o que era feito de mim, perguntou-me em feixes de ondas telepáticas, que já não escrevia nada, nem sobre ela, nem sobre coisa nenhuma. e que sei eu, Milu, se a vida me escorre por entre os dedos, rotos de cansaço, e as palavras se findam na lamúria dos dias difíceis. tu bem sabes, querida Milu, que me enfastio de mim em demasia.
mas Milu não é bicho para se deixar apiedar pela conversa tremelicada do costume e em aparente desagrado retoma a marcha ligeira, abeirando-se da catacumbas do frigorífico fantasma. não fosse Milu e a sua forma prática de se fazer ao chão da vida e ainda não teria sido hoje o dia em que aqui voltaria, obrigando-me a saber de mim.
17.11.18
13.11.18
é uma vontade de desistir, sim, desistir sem explicações, acabou, fui, não dá mais, mas não te preocupes, que não tenciono matar-me, e eu lá teria coragem para tanto, já me conheces, sou das que mirram, das que fogem, não, nada de dramas, era desaparecer da cidade, desta gente toda igual, falando merda, vendendo merda, parecendo merda, sendo merda; estou farta, sim, farta de andar todos os dias o mesmo caminho que não me leva a lado nenhum, apenas cimento e contas e imperativos, e eu nada, sem respostas, sem merda nenhuma, eu quero é o campo, o campo aberto, o mato, as ervas altas, a lama, o vento, os pássaros, os bichos todos e os livros, sim, os livros, pequenos livros de contos e de poesia, pouco mais, e quando os livros não forem fogo e mel, abandono-os ao pó, visto o casaco azul, calço as botas velhas e desço a ladeira com os cães. não tenho filhos, findarei em mim, louca, calcorreando os montes, sorrindo aos rebanhos, voando no voo do falcão, longe, à procura da minha mãe.
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