30.3.19

explicar con palabras de este mundo
que partió de mí un barco llevándome


Rocío Montoya





15.3.19

   Milu, foi esta a graça que a Humana desaparecida me deu. 
Antes de nos conhecermos, a minha família, nas raras vezes em que nos cruzávamos nos tectos do palácio, chamava-me por via de um ou dois assobios que só a mim diziam respeito. Milu foi portanto o primeiro nome que tive e acredito que serei Milu até ao fim. Não que tenha algum dia explorado a problemática do nome próprio, como pretende a filosofia analítica da linguagem, não sou nenhum Russell, mas Milu é a minha cara.

   Nós as aranhas somos animais solitários, silenciosos, como deuses, pode dizer-se, observamos o mundo de uma altura que nos deixa naturalmente distantes e pragmáticas, insensíveis a boa parte do corrupio mamífero. Não somos animais de abraços, o nosso apego é mais direccionado ao pescoço da nossa comida. Pelos humanos, bichos imprevisíveis que passam a vida a gritar e a fazer caretas, nunca senti mais do que um leve desprezo e alguma desconfiança. Até ao dia em que conheci a Humana. Era uma manhã de sábado, tenho a certeza, ela jazia no grande tanque do submarino, perscrutando as manchas do tecto, humidade escura acumulada do vapor dos banhos, absorta, eu percorria uma das minhas malhas mais delicadas. Foi nesse momento que o olhar dela se desviou do infinito e se cravou em mim e assim ficou durante vários minutos. Achei curiosa a sua curiosidade na minha passeata vulgar e deixei-me ficar, também eu, a mirá-la, silenciosamente. Só mais tarde, enquanto cuscuvilhava o ecrã brilhante, aberto na secretária, descobri que ela me tinha dado um nome e escrevia sobre mim. A minha natureza pecilotérmica não me deixou pular de alegria, como às vezes vejo as ursas fazer, mas que senti um tremorzinho a percorrer-me as patas todas, isso senti. Como a aracne do poeta. Até suspirei.

   Por estes dias, a Humana hiberna na banalidade dos dias, palavras suas, mais silenciosa do que o costume; a outra Humana, a que já me levou no seu majestoso cacilheiro das purpurinas a pilhar tesouros e bugigangas um pouco por todo o mundo, descansa nos braços do seu amado; e a outra Humana, a que me levou pela primeira vez à esteticista, uma autêntica barbárie, encontra-se em paradeiro desconhecido; e mais ainda a outra Humana, com quem viajei pela primeira vez no comboio foguetão, não sabendo ela que eu seguia incógnita junto à sua orelha direita, que também não dá sinais de vida nem de fumo; e eu, animal agora social, tenho me entretido a passear pelos blogs amigos que conheci ao longo dos tempos. Há dias, convencida da minha invisibilidade, fui descoberta a lançar a armadilha no teclado da luisa, que me adoptou de imediato, com o sorriso mais bonito que já vi. Soube-me bem. Acho que me habituei à atenção, ganhei mais uma vida, foi o que foi. Talvez volte, e por que não?

5.1.19


não, obrigado, estou bem, nada de novo,
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de
quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem
dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou
até se era eu o destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de
algures para nenhures,

logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre
tantas violências de sangue
que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue
inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado – e o sangue corre e escorre dentro
e fora,

e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é
que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo
à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio
do tempo,

e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
– a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários


Herberto Helder, Servidões

1.1.19

que seja um 2019 radioso para todos!

01.01.19

28.12.18

Pierre Pellegrini




































o inverno
queima as feridas
de branco

27.12.18

entretanto, vamo-nos rindo das verdades embrulhadas em fake lies...
passámos então ao plano, era necessário defini-lo, fazê-lo ganhar corpo e arredondar-lhe as arestas, tinha de ser um plano tão fácil de engolir como qualquer outra mentira. Cirilo queria alterar as percentagens, argumentava que a falta de realidade, a demasia na expectativa só nos tem trazido problemas. Bartolomeu contrapunha, não pode ser, sem expectativas, não passamos de um bando de fazedores até ao dia em que não encontrarmos nada mais para fazer. temos de criar as oportunidades, mais do que apenas esperar por elas. o resto do bando permanecia calado. Petra e Tristan já não acreditam no sucesso do grupo, mas são incapazes de o abandonar. Jasmin é demasiado novo para se preocupar com o futuro. Sophia já raramente aparece. todos sabemos que o novo ano que se aproxima é um ano decisivo, uns esperam finalmente a morte e a ressurreição, longe deste lugar, outros, doentes talvez, ainda acreditam que a sorte virá montada num javali.

13.12.18

— fechàporta, urso!, e aplica-lhe um calduço sonoro. o outro foge, — porra, pá, que m'aleijaste! és doido?! — atão mas já vamos embora, tão cedo?, e olha para mim. 
encolho os ombros — tenho os pés gelados.
Isto de ser moderno é como ser elegante: não é uma maneira de vestir mas sim uma maneira de ser. Ser moderno não é fazer a caligrafia moderna, é ser o legítimo descobridor da novidade.

José de Almada Negreiros, conferência O Desenho, Madrid 1927
Gulbenkian
|que bando de pândegos, os Orpheu: "Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas"|


vale mais um beijo na boca do que toda as histórias de encantar.
Milu




Milu, a aranha que tecia as minhas memórias no tecto do submarino em tempos idos, veio ter comigo à cozinha. arrastava debaixo das patitas arqueadas dois grandes pêlos caninos, resultado dos múltiplos pinotes, sôfregos por lambeduras, das ursas pardas. que contentamento foi, confesso, ver a pequena atravessar o grande deserto sob a mesa de pedra mármore. parei o exercício da vassoura e sentei-me à conversa com ela. Milu pareceu-me em excelente forma, redondinha, alimentada na penumbra das infinitas divisões do palácio. sem receio do telemóvel que lhe apontei ao traseiro para registar a imagem, Milu deixou-se ficar quieta, vaidosa da boa pose. e o que era feito de mim, perguntou-me em feixes de ondas telepáticas, que já não escrevia nada, nem sobre ela, nem sobre coisa nenhuma. e que sei eu, Milu, se a vida me escorre por entre os dedos, rotos de cansaço, e as palavras se findam na lamúria dos dias difíceis. tu bem sabes, querida Milu, que me enfastio de mim em demasia. 

mas Milu não é bicho para se deixar apiedar pela conversa tremelicada do costume e em aparente desagrado retoma a marcha ligeira, abeirando-se da catacumbas do frigorífico fantasma. não fosse Milu e a sua forma prática de se fazer ao chão da vida e ainda não teria sido hoje o dia em que aqui voltaria, obrigando-me a saber de mim.