Quando te perguntarem por mim,
diz-lhes que morri,
que me matei,
que me mataram,
que foi melhor assim.
Diz-lhes que levem tudo e o dividam irmãmente,
que paguem apenas
o impolido funeral.
Que não quero rezas,
nem cânticos,
nem orações.
Que rezar me faz mal,
me crucifica por dentro.
Maldigo o lamento, tortura, blasfémia, intento.
Maldigo o meu ser.
Que não quero cremações.
Arder,
hei-de arder no inferno,
se o houver,
e apenas quando a Satanás aprouver.
Diz-lhes,
anda, corre, vai, alminha.
Vai dizer-lhes que venham,
que já tudo é deles.
Vai,
some-te da minha vista.
Anda, deita-te a correr,
que a vida é curta e eles hão-de querer saber. Dos herdos,
hão-de querer receber o quinhão,
maldito mês,
maldito chão,
maldita eu,
pária feita mulher.
Não lhes digas que ainda vivo,
que choro,
nem do frio que me faz tolher.
Que o útero é podre, que a fonte secou, jano partiu, juturna ficou.
Sentenças inacabadas.
Perdão, que lhes peço perdão, mil perdões. Negações. Predestinações. Óreas escaladas.
Grita-lhes, se preciso for.
Vai-te daqui, some-te. Andor!

