28.5.19

...

porque te queixas da solidão, se tens sempre a porta fechada?


|ah, como devorei a carne a Platão, página após página, na esperança de conseguir acreditar na imortalidade da alma. ingénua, achava que seria a filosofia a dar-me as respostas.|

o seu

o seu desejo mais forte era tornar-se invisível. existir, caminhar pelos seus carreiros, sem o olhar da urbe execrável - manadas ostentando a merda ao peito.

22.5.19

das palavras, fiz fogueiras.
ardi
em beijos profundos,
com febres de graus inacabados,
reais e imaginados,
todos misturados,
labaredas
que já nem sei.
da luz,
fiz-me sombra,
depois corpo enxertado,
depois cinza
poeira
e, por fim,
rascunho dos sonhos da minha mãe.
agora descanso,
imóvel,
enquanto espero pelas estrelas cadentes,
como quando era criança.

21.5.19

É esta condenação, 
lava ardente, 
suco, 
sémen, 
semente, 
esta inconstância só minha. 

Sonho uma morte violenta, 
a quente, 
bala na têmpora, 
carro despistado, 
cara desfeita, 
em contra-mão. 

Sonho com o vidro que me há-de perfurar 
a pele macia, 
fêmea pronta em cio, 
cadela em ladeira esquecida, 
macho alfa de alcateia, 
sonho-me liberta de mim.

20.5.19

DEUS

Deus não me pede nada,
mas eu culpo-o de tudo.

|in Erosão|
NÃO TE ESCREVAS

entre os mundos,

ergue-te contra

a variedade de sentidos,

confia no rasto das lágrimas
e aprende a viver.

|in A Morte é uma Flor|

15.5.19

mil homens,
bestas de cascos afiados,
relinchando trovões, penetrando-me, rasgando orifícios,
pântanos de sangue e de fezes,
urinando-me as feridas abertas da cara.
mil homens cuspindo-me o nojo,
derramando sémen nos meus olhos abertos,
até não haver mais círculos de fogo.
mil homens enjaulando-me,
nua, numa praça qualquer.
oferecendo a minha boca ao público animal, que zurra, na antecipação,
vendendo a minha cona a todos os mercadores,
velhos senis
que masturbam membros defeituosos.
mil homens
silvando a mesma tira de couro nas minhas costas,
nas minhas mãos,
nas minhas mamas,
noite após noite, até adormecer.

mil homens despedaçando o meu corpo, queimando o meu centro, acalmando a minha dor. 

11.5.19

se as palavras tivessem facas
e me cortassem os lábios,
a língua,
as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas,
afiadas,
ao dilacerar a carne,
escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria.

7.5.19


Quando te perguntarem por mim,
diz-lhes que morri, 
que me matei, 
que me mataram, 
que foi melhor assim. 
Diz-lhes que levem tudo e o dividam irmãmente, 
que paguem apenas 
o impolido funeral. 
Que não quero rezas, 
nem cânticos, 
nem orações. 
Que rezar me faz mal, 
me crucifica por dentro. 
Maldigo o lamento, tortura, blasfémia, intento. 
Maldigo o meu ser. 
Que não quero cremações. 
Arder, 
hei-de arder no inferno, 
se o houver, 
e apenas quando a Satanás aprouver. 
Diz-lhes, 
anda, corre, vai, alminha. 
Vai dizer-lhes que venham, 
que já tudo é deles. 
Vai, 
some-te da minha vista. 
Anda, deita-te a correr, 
que a vida é curta e eles hão-de querer saber. Dos herdos, 
hão-de querer receber o quinhão, 
maldito mês, 
maldito chão, 
maldita eu, 
pária feita mulher. 
Não lhes digas que ainda vivo, 
que choro, 
nem do frio que me faz tolher. 
Que o útero é podre, que a fonte secou, jano partiu, juturna ficou. 
Sentenças inacabadas. 
Perdão, que lhes peço perdão, mil perdões. Negações. Predestinações. Óreas escaladas. 
Grita-lhes, se preciso for. 

Vai-te daqui, some-te. Andor! 

24.4.19

La Carencia

Yo no sé de pájaros,
no conozco la historia del fuego.
Pero creo que mi soledad debería tener alas.

De Las Aventuras Perdidas (1958)