7.6.19
6.6.19
percebo
percebo que a mulher da pastelaria, sítio onde nunca tinha entrado, me julgue por momentos fiscal das finanças. à volta, mais de uma dezena de idosas palradeiras, dois ou três idosos encolhidos atrás do jornal desportivo e um pequeno cão enraivecido, que se atira a todas as pernas que passam. logo que lhe respondo que não preciso do nif no recibo de uma meia de leite e uma sandes de queijo, passa a tratar-me como ao resto da fauna local e pergunta-me se desejo que me leve o pequeno-almoço, que já fumega no balcão à minha frente, até à mesa onde me irei sentar. é uma mulher delicada e atenciosa, gostei dela, mas naquele momento não consegui evitar um arcaico valha-me deus! nem pensar!
5.6.19
A Ilha
A Ilha de Sukkwan de David Vann
é como levar um valente pontapé no baixo ventre, após o cházinho das cinco. embalados por uma narrativa de lugares-comuns da história típica, não entendemos de onde saiu aquele golpe certeiro que nos mantém caídos até ao fim, a boca cheia de sangue.
...
Versos Íntimos
(...)
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
(...)
Psicologia de um Vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme -- este operário das ruínas --
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
|in Eu|
lamentavelmente, augusto dos anjos morreu novo, deixando apenas um livro publicado, Eu.
(...)
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
(...)
os corcundas do ego, cegos ao princípio da modernidade, não lhe reconheceram o valor, não entenderam que as palavras são ácido também. eu, enamorada, sorvo-lhe cada verso como aos dedos do meu amor. somos o par perfeito. entre a melancolia, a beleza da decomposição e a verve tingida de lodo e escarros, vamos passando as manhãs de quarta-feira.
Psicologia de um Vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme -- este operário das ruínas --
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
|in Eu|
lamentavelmente, augusto dos anjos morreu novo, deixando apenas um livro publicado, Eu.
2.6.19
em Niflheim,
em Niflheim, noitibós-de-nuca-vermelha, mochos-galegos e mochos-pequenos-d'orelhas ecoam toda a noite no vale. são a minha orquestra celestial.
também eu conheço pássaros que mastigam pedaços de vento e moram nas palavras.
|um presente para si, caro leitor, abra cada um dos links e ouça, em simultâneo, as três aves.|
também eu conheço pássaros que mastigam pedaços de vento e moram nas palavras.
|um presente para si, caro leitor, abra cada um dos links e ouça, em simultâneo, as três aves.|
1.6.19
muitos
muitos espantar-se-iam, tenho a certeza. talvez acabassem por concordar que as mais discretas são as mais perigosas, quebram, perdem a razão, as outras vão equilibrando os dissabores da vida aos gritos, aliviando a raiva acumulada. mas ela que me pariu, ela lê-me os gestos antes mesmo de saber de mim, e ao que se passa, minha filha, respondo, engolindo algum ódio por mim própria, nada, minha mãe.
Subscrever:
Mensagens (Atom)