Enquanto espero que a água encha o tanque do submarino, que há de levar me para muito longe, volto a Mia e às Mulheres de Cinza.
Capítulo 3
A página do chão
Eis a armadilha da glória: quanto maior
for a vitória, mais o herói será perseguido
e cercado pelo passado. Esse passado devorará
o presente. Não importa quantas condecorações
recebeu ou venha a receber: a única medalha
que, no final, lhe irá sobrar é a triste e
fatal solidão.
---
Mia é um bom contador de histórias, ou estórias, como alguns preferem agora dizer, como são muitos dos escritores africanos da sua geração. Hei de partilhar um pouco mais da vida de Imani, a menina indagação.
---
Começo já, porque hoje é feriado.
As sombras eram já extensas quando parti em busca do meu pai, sobraçando um cesto onde gorgolejava uma garrafa de vinho tinto, em cujo rótulo se podia ler a letras gordas: Vinho para o preto. A lua cheia acendia a dormente paisagem. os meus pés decalcaram na areia as recentes pegadas do velho Katini. Quem mais, na aldeia, usava botas? Aos poucos me surpreendi como ele se tinha afastado para tão longe. O meu chamamento, trémulo, esmorecia sem eco nem resposta:
– Pai! Pai!?
Cheguei, enfim, a um campo a perder de vista. Parecia uma terra de lavoura. A confirmar a vocação da paisagem, lá estava o meu pai ocupado a esgravatar a terra. Os homens VaChopi são os únicos que lavram a terra, lado a lado com as suas mulheres. Meu pai, na verdade, lavrava mais era no alambique.
Quando cheguei perto, reparei: aquilo que antes parecia uma enxada era, afinal, um pau afiado na ponta. Ele não sachava, apenas ciscava no solo como se desenhasse sobre uma infinita tela.
– Estou a escrever, disse ele, ao sentir-me perto.
– A escrever?
– Não é só você que escreve...
– E o que tanto escreve, pai?
– São os nomes de todos os que morreram na guerra.
Olhei o chão e vi que a terra por ele revolvida se estendia para além do horizonte. Contudo, mesmo sob o intenso luar, os rabiscos na areia era ilegíveis.
– E quem vai ler tudo isto?
– Deus!
Apontou com o cajado para lado nenhum, gesto vago, mais indistinto que a própria voz. Repetiu, balbuciando: Deus! Deus vai-me ler! Rodopiou sobre si mesmo para, depois, se sentar no chão, derrubado por um invisível empurrão.
– Essa sua mãe...
Não completou a frase. Ficou cego para palavras. Essa cegueira atacava-o sempre que queria falar da mulher. Mastigou o silêncio como se fosse um fruto amargo. E assim se deixou ficar, imóvel e vencido.
Passageiras nuvens encobriram a Lua. Os nomes dos mortos, rubricados no chão, tinham sido engolidos pelo escuro quando o pai voltou a falar:
– Estou a escrever, disse ele, ao sentir-me perto.
– A escrever?
– Não é só você que escreve...
– E o que tanto escreve, pai?
– São os nomes de todos os que morreram na guerra.
Olhei o chão e vi que a terra por ele revolvida se estendia para além do horizonte. Contudo, mesmo sob o intenso luar, os rabiscos na areia era ilegíveis.
– E quem vai ler tudo isto?
– Deus!
Apontou com o cajado para lado nenhum, gesto vago, mais indistinto que a própria voz. Repetiu, balbuciando: Deus! Deus vai-me ler! Rodopiou sobre si mesmo para, depois, se sentar no chão, derrubado por um invisível empurrão.
– Essa sua mãe...
Não completou a frase. Ficou cego para palavras. Essa cegueira atacava-o sempre que queria falar da mulher. Mastigou o silêncio como se fosse um fruto amargo. E assim se deixou ficar, imóvel e vencido.
Passageiras nuvens encobriram a Lua. Os nomes dos mortos, rubricados no chão, tinham sido engolidos pelo escuro quando o pai voltou a falar:
– Veio buscar-me? Pois diga à sua mãe que não volto. Ela tem que aprender a ter respeito. Eu sou o marido. Para além disso, sou o mais velho dos Nsambe.
– Trouxe-lhe isto, pai, foi a mãe que mandou entregar. E estendi-lhe a garrafa de vinho.
Um fulgor iluminou-lhe o rosto. Com os dentes arrancou a rolha e, com cerimoniosos vagares, entornou na areia as primeiras gotas. Depois serviu-se com ruidoso deleite. E foi bebendo como se beber fosse o único afazer deste mundo. As mãos ossudas faziam rodopiar a garrafa como se quisesse entontecer o vinho ainda no berço. No rótulo caseiro já se apagavam as letras e restava apenas a palavra «preto». Meu pai não tinha cor, mas, à medida que ia bebendo, tornava-se mais e mais escuro. Tive receio de que também fosse tragado pela noite. Estendi-lhe a mão para o salvar. Quando sentiu os meus dedos perguntou:
– Está com medo, Imani?
Acenei que sim. Comovido, quis serenar-me. Estaria eu, como a minha mãe, com temor de que ele bebesse demais?
– Sou um bêbedo, todos dizem. O que é que acha que bebo, você que me conhece?
– Não sei, pai. Bebe vinho, bebe nsope. Bebe tanta coisa.
Tanta coisa era ainda muito pouco. O velho Katini bebia tudo. Certa vez ingeriu um frasco inteiro de água de colónia que roubou da casa do sargento. Tivemos que o reanimar e o hálito doce que exalou empestou a noite. Pelos vistos, ele tinha uma avaliação bem diversa:
– Sou um homem solitário e com medo. A mãe não entende. Eu só bebo gente. Bebo os sonhos dos outros.
Na nossa família o álcool tinha antiquíssimas raízes: bebíamos para fugir de um lugar. E tornávamo-nos bêbados porque não sabíamos fugir de nós mesmos.
Mulheres de Cinza, Mia Couto, Caminho, p.47 - p.50
– Trouxe-lhe isto, pai, foi a mãe que mandou entregar. E estendi-lhe a garrafa de vinho.
Um fulgor iluminou-lhe o rosto. Com os dentes arrancou a rolha e, com cerimoniosos vagares, entornou na areia as primeiras gotas. Depois serviu-se com ruidoso deleite. E foi bebendo como se beber fosse o único afazer deste mundo. As mãos ossudas faziam rodopiar a garrafa como se quisesse entontecer o vinho ainda no berço. No rótulo caseiro já se apagavam as letras e restava apenas a palavra «preto». Meu pai não tinha cor, mas, à medida que ia bebendo, tornava-se mais e mais escuro. Tive receio de que também fosse tragado pela noite. Estendi-lhe a mão para o salvar. Quando sentiu os meus dedos perguntou:
– Está com medo, Imani?
Acenei que sim. Comovido, quis serenar-me. Estaria eu, como a minha mãe, com temor de que ele bebesse demais?
– Sou um bêbedo, todos dizem. O que é que acha que bebo, você que me conhece?
– Não sei, pai. Bebe vinho, bebe nsope. Bebe tanta coisa.
Tanta coisa era ainda muito pouco. O velho Katini bebia tudo. Certa vez ingeriu um frasco inteiro de água de colónia que roubou da casa do sargento. Tivemos que o reanimar e o hálito doce que exalou empestou a noite. Pelos vistos, ele tinha uma avaliação bem diversa:
– Sou um homem solitário e com medo. A mãe não entende. Eu só bebo gente. Bebo os sonhos dos outros.
Na nossa família o álcool tinha antiquíssimas raízes: bebíamos para fugir de um lugar. E tornávamo-nos bêbados porque não sabíamos fugir de nós mesmos.
Mulheres de Cinza, Mia Couto, Caminho, p.47 - p.50


