24.6.19

da sensualidade

da sensualidade e da beleza crepuscular,

Nick Knight




























|sobre as rosas de Nick|

23.6.19

puro deleite,

puro deleite, pequeno-almoço de pão escuro torrado e manteiga com sal. em frente, a chuva fina traz o verde à erva. quando chove calam-se as famílias ruidosas dos passeios e ouço apenas os pássaros e os cães. tenho a loiça para lavar, varrer novamente a cozinha, repetições que apenas me agradam quando preciso de arrumar barulhos na minha cabeça. as extensões eléctricas que ficaram na rua estão molhadas, como pude ser tão imprudente. gosto de dormir em lençóis lavados, não fosse a preguiça disfarçada de cansaço e mudá-los-ia todos os dias. violeta, a orquídea, mantém-se carregada de flores, D. Poinsétia está enorme, deve ter sido a única estrela a vingar naquele natal. continua a doer-me a mão esquerda, continuo sem me lembrar da razão.
nada disto importa, é conteúdo irrelevante, pequenas coisas que me equilibram em cima do muro onde ontem vi uma osga branca.

20.6.19

por vezes,

por vezes, muitas, também nos encontramos nas imagens dos outros, nas terras do mundo.

Alex Robciuc, Roménia

Enquanto

Enquanto espero que a água encha o tanque do submarino, que há de levar me para muito longe, volto a Mia e às Mulheres de Cinza.



Capítulo 3



A página do chão


          Eis a armadilha da glória: quanto maior 
          for a vitória, mais o herói será perseguido 
          e cercado pelo passado. Esse passado devorará 
          o presente. Não importa quantas condecorações 
          recebeu ou venha a receber: a única medalha 
          que, no final, lhe irá sobrar é a triste e 
          fatal solidão.

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Mia é um bom contador de histórias, ou estórias, como alguns preferem agora dizer, como são muitos dos escritores africanos da sua geração. Hei de partilhar um pouco mais da vida de Imani, a menina indagação.

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Começo já, porque hoje é feriado.


As sombras eram já extensas quando parti em busca  do meu pai, sobraçando um cesto onde gorgolejava uma garrafa de vinho tinto, em cujo rótulo se podia ler a letras gordas: Vinho para o preto. A lua cheia acendia a dormente paisagem. os meus pés decalcaram na areia as recentes pegadas do velho Katini. Quem mais, na aldeia, usava botas? Aos poucos me surpreendi como ele se tinha afastado para tão longe. O meu chamamento, trémulo, esmorecia sem eco nem resposta:
 – Pai! Pai!? 
Cheguei, enfim, a um campo a perder de vista. Parecia uma terra de lavoura. A confirmar a vocação da paisagem, lá estava o meu pai ocupado a esgravatar a terra. Os homens VaChopi são os únicos que lavram a terra, lado a lado com as suas mulheres. Meu pai, na verdade, lavrava mais era no alambique.

Quando cheguei perto, reparei: aquilo que antes parecia uma enxada era, afinal, um pau afiado na ponta. Ele não sachava, apenas ciscava no solo como se desenhasse sobre uma infinita tela.

– Estou a escrever, disse ele, ao sentir-me perto.
 A escrever?
 Não é só você que escreve...
 E o que tanto escreve, pai?
 São os nomes de todos os que morreram na guerra.

Olhei o chão e vi que a terra por ele revolvida se estendia para além do horizonte. Contudo, mesmo sob o intenso luar, os rabiscos na areia era ilegíveis.

 E quem vai ler tudo isto?

 Deus!


Apontou com o cajado para lado nenhum, gesto vago, mais indistinto que a própria voz. Repetiu, balbuciando: Deus! Deus vai-me ler! Rodopiou sobre si mesmo para, depois, se sentar no chão, derrubado por um invisível empurrão.
 Essa sua mãe...
Não completou a frase. Ficou cego para palavras. Essa cegueira atacava-o sempre que queria falar da mulher. Mastigou o silêncio como se fosse um fruto amargo. E assim se deixou ficar, imóvel e vencido.
Passageiras nuvens encobriram a Lua. Os nomes dos mortos, rubricados no chão, tinham sido engolidos pelo escuro quando o pai voltou a falar:
 Veio buscar-me? Pois diga à sua mãe que não volto. Ela tem que aprender a ter respeito. Eu sou o marido. Para além disso, sou o mais velho dos Nsambe.
 Trouxe-lhe isto, pai, foi a mãe que mandou entregar. E estendi-lhe a garrafa de vinho.


Um fulgor iluminou-lhe o rosto. Com os dentes arrancou a rolha e, com cerimoniosos vagares, entornou na areia as primeiras gotas. Depois serviu-se com ruidoso deleite. E foi bebendo como se beber fosse o único afazer deste mundo. As mãos ossudas faziam rodopiar a garrafa como se quisesse entontecer o vinho ainda no berço. No rótulo caseiro já se apagavam as letras e restava apenas a palavra «preto». Meu pai não tinha cor, mas, à medida que ia bebendo, tornava-se mais e mais escuro. Tive receio de que também fosse tragado pela noite. Estendi-lhe a mão para o salvar. Quando sentiu os meus dedos perguntou:
 Está com medo, Imani?
Acenei que sim. Comovido, quis serenar-me. Estaria eu, como a minha mãe, com temor de que ele bebesse demais?
 Sou um bêbedo, todos dizem. O que é que acha que bebo, você que me conhece?
 Não sei, pai. Bebe vinho, bebe nsope. Bebe tanta coisa.


Tanta coisa era ainda muito pouco. O velho Katini bebia tudo. Certa vez ingeriu um frasco inteiro de água de colónia que roubou da casa do sargento. Tivemos que o reanimar e o hálito doce que exalou empestou a noite. Pelos vistos, ele tinha uma avaliação bem diversa:

 Sou um homem solitário e com medo. A mãe não entende. Eu só bebo gente. Bebo os sonhos dos outros.

Na nossa família o álcool tinha antiquíssimas raízes: bebíamos para fugir de um lugar. E tornávamo-nos bêbados porque não sabíamos fugir de nós mesmos.


Mulheres de Cinza, Mia Couto, Caminho, p.47 - p.50

18.6.19

As nuvens

As nuvens correm baixas, cobrindo a luz da lua. A noite está prenhe de chuva e eu continuo sentada, em silêncio, à espera. Sei que já passaram perto, conheço o ladrar dos cães das quintas em volta. Cada estalar de uma cana deixa-me em sobressalto. Não muito longe, ouvem-se os chocalhos de um rebanho e o ar ameniza.

17.6.19

Hoje

Hoje montamos guarda mais cedo. Os bichos virão, velozes e sem medo, pequenos rinocerontes da serra, levando as cadelas ao ladrar enfurecido e ao disparo do meu coração. Há adrenalina no medo aos bichos da noite. Ao pisar do restolho, uma cana partida, o piar dos mochos, os nossos olhos perscrutam, tentando encontrá-los na penumbra do vale. A lua, que agora se levanta, redonda, confunde-nos ainda mais as cores. Mas eles virão.

ela

ela apresentou-me um Candido Portinari com cheiro a café e negros com pés de gigante, o capataz calçava botas com esporas de prata, uma mulher descansava no chão, todos de figura cheia, mas foi o Portinari da mulher com lágrimas de pedra, ossos descarnados, carregando a criança morta como numa prece a deus, que mais me impressionou. quanta miséria a daquela gente da terra.
o Brasil é um país muito ambivalente, mesmo, ela rematou. 
e não somos todos?

o suicídio

o suicídio idealizado de Maximilien
























As benevolentes, Jonathan Littell, Dom Quixote



é a morte anunciada do soldado de Boris.



XV
Continuo de pé em cima da mina. Tínhamos partido esta manhã em patrulha e eu ia em último como de costume, todos passaram ao lado, mas eu senti o clique debaixo do pé e parei logo. Elas só rebentam quando se tira o pé. Atirei para os outros o que trazia nos bolsos e disse-lhes para se irem embora. Estou sozinho. Devia esperar que eles voltem, mas disse-lhes que não voltassem. Podia tentar atirar-me de barriga para o chão, mas teria horror a viver sem pernas. Fiquei apenas com o meu bloco e o lápis. Vou atirá-los para longe antes de mudar o peso para a outra perna, é que tenho mesmo que o fazer porque estou farto da guerra e estou a sentir um formigueiro.

As Formigas, Boris Vian, Relógio D'Água

14.6.19

Vargas Llosa,

Vargas Llosa, o erótico*, tem um lugar especial na minha cama. Os Cadernos de Don Rigoberto, mas também Cinco Esquinas, são noites escaldantes, vinho branco e muita carne chupada por mosquitos sequiosos. o eterno prazer, que se expande pelo corpo liquidificando-o, nasce sempre na ideia.



|*o erotismo, diz Vargas Llosa na Folha de S. Paulo, em 1997,


...exige um certo padrão estético, um nível de criatividade elevado, uma certa cultura. Não há erotismo sem cultura. O erotismo é incompatível com a ignorância, com a vida primitiva. Requer um grau de refinamento elevado e requer, além disso, uma certa espiritualidade investida na ação amorosa.

Não se trata somente de satisfazer uma necessidade física. Trata-se também de realizar um certo ato de tipo espiritual.



daqui

Um povo

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista
e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas,
sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião,
um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas
é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem,
nem onde está,
nem para onde vai;
um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,
não descriminando já o bem do mal,
sem palavras,
sem vergonha,
sem carácter,
havendo homens que,
honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro (ou na Cancela).

Um poder legislativo,
esfregão de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador;
e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos [cinco, afirmo eu] sem ideias,
sem planos,
sem convicções,
incapazes,
vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido,
análogos nas palavras,
idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero,
e não e malgando e fundindo,
apesar disso,
pela razão que alguém deu no parlamento,
de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.


Guerra Junqueiro, Pátria (1896)


|interessante, também, será ler este artigo na Caliban, Guerra Junqueiro, o mais ilustre dos ignorados|