29.6.19

Maurice

Maurice parece-me ser companhia solar para a manhã de domingo, mas agora, enquanto folheio o seu corpo de bestiário encantado, descubro a coruja e fica-me a dúvida. afinal, o homem foi gravemente ferido na guerra e isso há de ser coisa para muitas noites sem dormir.

...
A coruja não regressava de repente. Girava à volta do campanário, metia-se debaixo de um quebra-som, voltava a sair para um breve circuito, e aninhava-se de novo no seu abrigo. Já era quase dia. O voo não fazia nenhum barulho. As pontas flexíveis das penas retrizes curvavam-se ao toque do ar. Mas a cada passagem, ela gritava. E esse queixume, e essa forma vaga deram vida em mim ao sentimento inesquecível de uma pequena alma sofredora, pálida e fiel, que planava sobre o sofrimento dos soldados.

Maurice Genevoix, Bestiário Encantado

a

a liberdade traz solidão
e está tudo bem.

da beleza ii

da beleza das coisas simples
ainda

Yoshiyuki Katayama, Cubism For Biota

da beleza i

da beleza das coisas simples

bugs-2
Yoshiyuki Katayama, Umwelt 

28.6.19

vi-o,

vi-o, apressado, no corredor das bebidas espirituosas. como estava belo o meu poeta azul, ajeitando o cabelo no reflexo da prateleira. disparou-se-me logo o verso numa rima cruzada que nervosamente emparelhei. e então larguei o pacotinho das avelãs e avancei pela multidão. Poeta!, gritei, já depois de passar os frescos, onde homens engravatados dos escritórios em volta pesam quilos de bananas a pedido das vozes do outro lado do telefone. Poeta!, gritei de novo, quando cheguei aos enchidos, onde senhoras azedas apalpavam as morcelas escuras. Poeta!, gritei pela última vez. em vão, do poeta nem sombra, nem cheiro, nem porra nenhuma. que tristeza senti, sozinha naquele grande supermercado cheio de luz artificial, com tanta poesia a tremer-me nas pernas. e então decidi, depois de escolher a garrafa,

Vou pôr um anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
Que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro de água.
Vou querer que me ame e abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos.

António Franco Alexandre in A Pequena Face

25.6.19

não,

não, caro leitor, papa triturada não se trata de pleonasmo vicioso, viciosa é V. Exa, carcaça de dedo apontado feito gatilho. lembre-se, sr. ablativo do ecrã, sem papas na língua, que um dia lhe há de calhar a si, calha a todos, comerem-lhe as papas na cabeça.

em Niflheim

em Niflheim ainda se diz que toda a panela tem um testo e o ovo se estrela na sertã, tudo o mais, tristemente, vai-se homogeneizando numa papa triturada onde todos caganitam da mesma forma. ao requeijão no café torcem o nariz, alimentam-se a leite com cereais e pouco mais. sorte a minha, que tenho tiques de realeza e detesto dividir o que quer que seja. mato as saudades da manteiga caseira e do doce de ginja, tudo na mesma fatia de pão. gosto desta gula, pecado tão difícil de praticar na capital, onde a comida pouco me deslumbra. Niflheim enche-me a barriga e embala-me a alma. o que mais posso pedir?

24.6.19

da sensualidade

da sensualidade e da beleza crepuscular,

Nick Knight




























|sobre as rosas de Nick|

23.6.19

puro deleite,

puro deleite, pequeno-almoço de pão escuro torrado e manteiga com sal. em frente, a chuva fina traz o verde à erva. quando chove calam-se as famílias ruidosas dos passeios e ouço apenas os pássaros e os cães. tenho a loiça para lavar, varrer novamente a cozinha, repetições que apenas me agradam quando preciso de arrumar barulhos na minha cabeça. as extensões eléctricas que ficaram na rua estão molhadas, como pude ser tão imprudente. gosto de dormir em lençóis lavados, não fosse a preguiça disfarçada de cansaço e mudá-los-ia todos os dias. violeta, a orquídea, mantém-se carregada de flores, D. Poinsétia está enorme, deve ter sido a única estrela a vingar naquele natal. continua a doer-me a mão esquerda, continuo sem me lembrar da razão.
nada disto importa, é conteúdo irrelevante, pequenas coisas que me equilibram em cima do muro onde ontem vi uma osga branca.

20.6.19

por vezes,

por vezes, muitas, também nos encontramos nas imagens dos outros, nas terras do mundo.

Alex Robciuc, Roménia