22.7.19

desmistificando

devia ter continuado em economia, na verdade, a minha religião, se alguma professo.

A palavra «economia» pode parecer um pouco árida e fazer o leitor pensar numa quantidade de estatísticas aborrecidas. Mas, na realidade, o que lhe interessa é o modo de ajudar as pessoas a sobreviver e a serem saudáveis e instruídas. O modo como as pessoas obtêm aquilo de que necessitam para viver plenas e felizes - e porque é que algumas não conseguem. Se conseguirmos resolver questões económicas básicas, talvez possamos ajudar todos a viver vidas melhores.

adiada

adiada novamente a entrega, recebo hoje um pedido de desculpas, que prontamente me garante que a situação continua a dever-se ao atraso de alguns editores na entrega do(s) mesmo(s). mas que diabo, grunho mais uma vez, como pode o poeta, povoador dos sonhos azuis, a voz em sussurro no meu ouvido ondulando-me, estar retido num armazém?!

dos outros

a solidão em campo aberto,

S de Solidão (ou C de Comunidade)

19.7.19

das

das plantas que matam,
eis a preferida das feiticeiras de Orkhon,
cicuta, a singela

Conium maculatum

sou

sou vítima apenas de mim própria e mereço toda a dor que sinto de cada vez que me corto.

16.7.19

o

Um milhão de anos antes de Adão,
um escaravelho inventou a roda
fazendo uma pequena bola de merda,
(...)

[Hovhannes Grigoryan, poeta arménio traduzido do espanhol]



A esfera é o mais uniforme dos corpos sólidos, dado que todos os pontos da superfície são equidistantes do centro. Por isso, e pela faculdade de girar em torno do eixo sem mudar de lugar e sem exceder os seus limites, Platão (Timeu, 33) aprovou a decisão do Demiurgo, que deu forma esférica ao mundo. Julgou que o mundo era um ser vivo e, nas Leis (898), afirmou que os planetas e as estrelas também o eram. Dotou assim a zoologia fantástica de muitos Animais Esféricos e censurou os torpes astrónomos por não quererem entender que o movimento circular dos corpos celestes era espontâneo e voluntário.

Mais de quinhentos anos depois, em Alexandria, Orígenes ensinou que os bem-aventurados ressuscitariam sob a forma de esferas e entrariam a rolar na eternidade.

[Jorge Luis Borges, O Livro dos Seres Imaginários]

medo

toda a minha vida conheci gente assim, que na segurança do pátio gostava de atiçar os cães a quem passava no caminho. foi por causa dessa gente medíocre e cobarde que aprendi uma lição valiosa sobre o medo, os cães só correm atrás de quem foge.

#navidacomonosblogs

15.7.19

testículos

a dona da bata às riscas não ficou convencida. franziu o sobreolho uma e outra vez e repetiu, ó menina, olhe que isso não deve ser. mas parece mesmo, insisti eu, e comecei a bater com o garfo na latinha, sinal da janta por aqueles lados. Ramirez, assim o cria eu, apareceu de imediato no telhado do barracão, como de costume, e só dali descerá depois dos restantes terem enchido a pança. chamei a dona da bata às riscas e ali ficamos em silêncio alguns minutos. não fosse um cão ter ladrado perto e talvez o embuste não ficasse logo a descoberto, mas bastou o bicho virar costas assustado e logo a dona aponta o braço e exclama: eu não lhe disse?! não é ele, veja lá aquele par de tomates!! eu bem lhe disse!
raios partam a mulher... com um par de tomates, deitou-me por terra a alegria do reencontro. Ramirez, ainda que macho valente e afoito, era castrado. a prova daquele par de ovos de codorniz era demasiado evidente para ser ignorada. tem razão, respondi-lhe, e guardei para mim a desconfiança do assassinato do meu pobre espanhol. que diabo... tamanha convicção... terá sido o bêbado do marido dela?

11.7.19

dos

dos trinta e oito que acusavam no lombo de Joly Jumper, combatidos por várias ventoinhas arcaicas perto das orelhas do bicho, onde derreti litros de suor fedorento, regresso aos gélidos vinte e dois, que rapidamente me fazem nascer esta maldita dor de cabeça. em cima da blusa transpirada - blusa, oh là là, quel luxe! - habita agora um casaquinho foleiro. se tapar o frio não é difícil, combater a dor de cabeça é outra dor de cabeça. refugio-me no café, cápsula atrás de cápsula, sabendo de antemão a doninha neurótica que estou a gerar. 

Milu

Milu, a minha aranha de estimação, respira suavemente
sorrindo junto ao meu pescoço.

Smiling Spider (1881) – Odilon Redon