estaciono, a custo, entre dois automóveis pouco generosos. sinto o calor devorar-me a carne debaixo do tecido azul justo, tenho sede e nem uma gota de água. avanço devagar pelo carreiro de terra até à estrada principal. vários homens das oficinas cruzam-se comigo. reparo nos emigrantes, ruidosos, com grandes ramos de flores amarelas nos braços. a esplanada do café, em plástico vermelho encardido, não me atrai, adio a vontade de beber, gozando o prazer obscuro da privação, e continuo a andar. mais à frente, uma pequena bomba de gasolina de chão muito escuro. um homem espera, dentro de uma carrinha comercial velha, cortando-me a passagem, que o empregado acabe de atender o homem do renault. contorno-o, pisando o alcatrão, sem parar. um pouco mais, passadas largas, e a paisagem mascara-se, abrupta, de zona fina. rolando devagar, exibindo o polimento, um maserati cruza o meu caminho, saído de uma garagem subterrânea. aqui os prédios inflacionam, as ruas alargam, o calor mantém-se colado à carne, dificultando-me a respiração. à porta do nº 28 o homem espera-me, de sorriso curto, e essa sobriedade sabe-me bem. subimos em silêncio, numa sintonia perfeita. se tudo correr como espero, regresso antes do cemitério fechar.