14.8.19

aceitação

antes mesmo de Bartolomeu pedir a palavra, a minha decisão estava tomada. nada na vida é eterno, apenas o caminho é precioso. mesmo quando nos perdemos, ou, talvez, até mais. conhecendo o meu pavor à mudança, nada mais posso sentir, agora e até à hora do fim, senão um enorme orgulho de ter tido a coragem para deixar a estrada alcatroada e tomar um simples carreiro de urzes e giestas.  
Bartolomeu dirá muitas coisas, apelará à resistência, lembrará todo o percurso, repetirá as nossas qualidades, evidenciando-as à luz do momento actual, tenho a certeza, mas todos sabemos o que vai acontecer. 

13.8.19

Lua

Impedida de apanhar sol durante o dia, banho me, indecorosa, na luz da lua. Os James chegam me de longe, entrecortados pelos rodopios do vento nos canaviais, e durante alguns segundos regresso ao sul de Espanha, bem perto do mar.

Flor

vazia

vagueamos, em busca de um par de olhos que nos abrace, uma voz que nos conforte, por entre o metal e a pedra. se nos perdemos ou fugimos, pouco importa, estamos sós.

Flor

12.8.19

oca, sim

Flor

11.8.19

cabelos

Beta, a moça do salão onde vou cada vez menos, confidencia-me o último escândalo, que a rapariga foi contratada para fazer as férias da Lurdinhas e da Paula, mas que a coisa correu mal logo na primeira semana. vinha cheia de saberes, que tinha tirado o curso na escola não sei do quê e que tinha aprendido com os melhores hair stylists e já sabe como é, a gente já cá está há tanto tempo a virar frangos, vem agora uma mafarrica armada aos cucos e a gente não tem paciência. mas o pior nem foi aqui connosco, continua a Beta, foi com as clientes. com as clientes?! inquiri eu com algum espanto, deixando-me levar pelo enredo. com as clientes!, a Beta até abre os olhos para enfatizar a resposta. então veja lá que começou a criticar os cabelos das clientes, que vinham todos espigados, que vinham mal cortados, que a cor que estavam a escolher não era para o tom delas, a uma cliente habitual disse-lhe que tinha a cabeça cheia de caspa, que era um nojo e devia ir ao médico, ai meu deus!, dessa vez ficámos todas pr'a morrer, a senhora tem uma doença que lhe escama o couro cabeludo, coitadinha, ficou tão envergonhada. não acredito!, exclamei, acreditando. é verdade, era mesmo parva, o raio da rapariga. não durou cá quinze dias, a D. Gina meteu-a logo a andar. olhe, não entendo, a sério que não entendo, ensinaram-lhe tanta coisa lá na tal escola e não lhe ensinaram o mais importante, que as mulheres são muito sensíveis com o cabelo?
caramba, se somos, Beta, se somos.

lições

aceitar a morte dos que amamos.

tentar entendê-la foi o maior erro - a morte sente-se, chora-se, guarda-se, sem explicações.

9.8.19

Milu, ei-la!

Para que nunca duvidem de Milu,

Flor

«em cão azul, ou estrela electrocutada, ou em homem nocturno»


Flor


herberto helder, lugar ii

...

Sujo, é o mundo; porém respira. E tu entras no quarto como
     um animal resplandecente.

|antonio gamoneda, descrição da mentira|
|canal de poesia|

8.8.19

As minhas pêras


Flor