27.9.19

outono

aqui em Niflheim, onde o ar é mais puro e cheira a uvas doces e a maçãs, o tempo engana-nos com o seu andar vagaroso. não conheço nenhum dos miúdos que jogam à bola no recinto da escola e já esqueci o nome de quase todos os velhos sentados nos bancos do café, mas uns e outros parecem não se incomodar com isso. uns continuam a correr e a gritar o insistente «passábola!», os outros acenam-me em silêncio a salvação. sou-lhes indiferente e isso tranquiliza-me.

maçã

Flor


Ela disse-me que foi feita a partir de uma costela do meu corpo. Isso é no mínimo duvidoso, senão mais do que isso. Eu cá não senti falta de nenhuma costela.

Os diários de Adão & Eva, Mark Twain

11.9.19

esquecidos

combinamos nas escadas interiores do prédio, onde ninguém passa, mesmo quando um dos elevadores se avaria. subir escadas é como escrever à mão, disse-me uma vez o Damas, em breve já ninguém sabe como se faz. 

10.9.19

Sem rede

Na terceira fala já me trata por tu, franqueza que não consigo, e apresenta me Kiko, um rafeiro abandonado perto há dois anos, que agora é o porteiro da propriedade. Derreto me, pois claro. Subimos depois ao miradouro e a vista está toda lá, como ele tinha dito, uma serenidade alentejana que nos acalma todas as pressas. Das colunas de som, espalhadas pela casa, a música vem dos anos setenta, em francês. Quase me rendo ao gin oferecido, mas sei que o meu lugar não é ali. Agradeço e afago o cão uma última vez. O velho Jolly Jumper, sem surpresas, espera por mim à sombra de uma oliveira. É quanto basta.

9.9.19

arroz de pato

a alegria dos fracos é ver cair os outros, mas também não precisamos de ser idiotas e dar a mão à concorrência, Unlucky Blue!! nós não somos nenhum balcão de informações!

comi e calei o mau humor de Bartolomeu, ainda me falha demasiado a negação assertiva. dei-lhe a razão e não almocei mais nada.

7.9.19

Concede-me, Senhor, a coragem para modificar

um dia de cada vez,
sei agora que o mantra não serve apenas para os alcoólicos anónimos.

2.9.19

- Meus senhores, morreu Ivan Ilitch!


- Pelo amor de Jesus Cristo, deixe-me morrer em paz! - falou.

1.9.19

o lobo ferido

«Era ela a culpada. Estava tão necessitada de sexo e atenção que entendeu tudo mal. Achou que havia espaço para algo mais do que uma brutal cópula entre dois conhecidos adultos. O que lhe passou pela cabeça? Que deixaria a mulher para ficar com ela, com uma qualquer lambisgoia? Que era amor? Mas quem confunde afeto com sexo? Muito casamento feliz não tem sexo e imenso bom sexo não passa de mera expressão sexual.» 

toda a história aqui, no Absinto Muito da Marina
um blog para quem gosta de ler

29.8.19

Caliban

Discutimos,
deitamos as mãos à cabeça e tombamos no cimento.
Caímos. Quebramos. Sofremos.
Frágeis criaturas do pós-moderno.

Queria fugir para a ilha deserta, com serviço de massagens e sumos naturais. Levar livros ao quilo e plantá-los à beira-mar. Ser imortal, escrito na areia, e um gato, e um cão, e o sol.
E ser muda.
Gritar interior.
Rebentar pelo canal das lágrimas.
E haveria um comboio,
verde,
que passava todas as terças-feiras. E um foguetão,
o mesmo que vi com a minha mãe.
E os rins, cheios de creme de ovo, com o chocolate a sujar-me a cara.

E a corda a bater nas minhas mãos. E eu a chorar, imbecil, ranhosa, púbere.

Quero voltar à ilha.
Verde.
Deserta.
Eu e Caliban.
Fornicando. Fodendo. Fazendo.
Deixando o tempo passar.