10.10.19

para a Paula

a inspiração, tal como as açucenas, volta sempre a florescer após um período de quietação 
(vem na página 987 do Manual Blogtânico)


a amizade, tal como as flores silvestres, nasce onde bem lhe apetece, sem precisar  de ordem ou razão.
(vem na página 988 do Manual Blogtânico)

um abraço ainda maior, querida Paula.

para a Maria Eu

Porque los pájaros nacidos en jaula creen que volar es una enfermedad, de más en más hay pájaros rogando porque los  metan en una jaula.

Alejandro Jodorowsky


voam em bando
os pássaros negros do teu cabelo,
mas não te digo nada para não te acordar. 
fico só olhando, 
adivinhando o rumo no bater das asas,
o crocito em coro sobrevoando o teu ventre, 
alto-ventre, 
baixo-ventre,
espero até os ver pousar.
imobilizo-me depois,
fico quieto,
na intimidade do teu quarto
respiro mais devagar.
já não sinto o dia, nem a dor,
nem o tempo, nem a voz,
apenas um sopro suave
e faço os pássaros voar.

8.10.19

para a Janita

não me venhas, amor,
falar dessa maneira,
dizer que a vida já passou por nós,
que estamos velhos e não nos fica bem,
agora é sentar o corpo cansado na cadeira
e ver os outros passar,
porque eu, amor,
quero bailar, rodar nos teus braços,
grandes como laços,
beijar-te a pele enrugada,
o tempo que me deste.
não, amor, não te deixarei sentar na cadeira,
nem que tentes,
porque eu, amor,
quero é propostas estranhas e indecentes.


7.10.19

para a ana p

o meu medo era mirrares
em melancolia sem fim,
perto de mim,
longe do princípio do mundo
onde nasceste.
murmurei-te
a mesma melodia,
dia após dia,
música mineral, rocha metamórfica,
melindrosa manifestação nasal
bilabial
e muito mais.
Pierre Magnol saberia cuidar de ti,
magnólia
monofilética,
estética harmonia em pétalas paradoxais,
hóstias pagãs,
és tu
a flor de mim.

Adam Cohen & Lana Del Rey



Chelsea Hotel No. 2

And you got away, didn't you babe,
You just turned your back on the crowd
You got away, I never once heard you say,
I need you

5.10.19

para a UJM

rompem flores das paredes,
quando das minhas mãos
são já os netos que procuram
alguma coisa para romper.
bordadas em mil cores,
carros de linhas em círculos sobre a mesa,
cata-ventos coloridos girando na janela,
crianças que riem e correm
num sábado de sol.
plumérias, rosas, lírios, jacintos,
narcisos e miosótis,
frágeis peónias, gentis amores-perfeitos,
erva-doce, alfazema, um singelo malmequer,
rompem flores de todas as paredes
na nossa casa-poema,
e do meu corpo, útero criador, rompem
dores e alegrias
e flores,
de avó, mãe e filha, mulher.


|espero que não me leve a mal não ter acatado a sua segunda sugestão, mas gostei tanto da sua proposta inicial|

para a Sónia

nos teus olhos
vi trémulos fragmentos de mim,
pedaços de sonhos, aromas púrpura
e mãos nervosas,
um mundo novo nas nossas vozes
onde uma tarde,
esquecidos no nevoeiro do rio,
aceitei o medo e mergulhei contigo.
eras belo,
refulgente como o metal das estrelas distantes,
quando se sabem observadas.
era frágil,
um murmúrio teu fez parar a minha vida.

para a Susana

- Corta o fogo! Corta o fogo, Susana!

- Não ligues, Susana. Põe mais lenha na fogueira, anda, não deixes morrer o lume. 

- Não! Susana, não acredites nele! Despacha-te! Corta o fogo, vai buscar uma manta! 

- Uma manta, Susana? A sério?! Mas que raio de ideia. Rega mas é isso com mais um pouco de gasolina, está a ficar mortiço, daqui a pouco fica frio.

- Não o ouças, Susana! Corta o fogo! Despacha-te, não fiques aí parada, está tudo a arder. Não vais deixar arder a casa toda, pois não?! Susana? Susana?!

- Vês? Grita contigo como se fosses surda, não te respeita. Mete mas é ali mais umas cavacas que agora está a arder bem. Está a ficar mais quentinho, não está? Assim toda a gente se aquece, é muito melhor.

- Susana, o que estás a fazer, Susana?? Susana, isto vai rebentar! Não vês qu'isto vai rebentar?! Tens de cortar o fogo, Susana. Não te deixes enganar por esse bicho do inferno! Vais ficar sem nada! Susana, corta o fogo!

- Não ligues, Susana, é doidinho. Anda, chega-te à frente, aquece-te aqui ao pé de mim...

3.10.19

Para o Luís e para a Alexandra

A flor é fogo?, pergunta o imberbe Jasmim, antes de atirar novamente o dado. Claro que não!, ruge-lhe Cirilo, sentado do lado direito. És um cona de sabão, não percebes um caralho de mulheres, foda-se. Jasmim envergonha-se e deixa-se ficar, é Bartolomeu quem dá o troco. E tu deves ser um braço de ferro. Cirilo franze o sobrolho. Só tocas punhetas!

Para a noname

Pedes-me que te fale do silêncio da minha noite, não sabes que passa nela um avião e um carro lá ao fundo, agora mesmo. Os cães ladram à luz intermitente de uma bicicleta solitária que atravessa o jardim devagar. Às vezes consigo ouvir a música do bar da ponte e com ela os gritos estridentes dos adolescentes bêbados. Prefiro o pio das aves nocturas e o som dos chocalhos vindos da quinta do outro lado do vale. Há no barulho humano um sabor a finitude que às vezes me assusta.
Quando o silêncio se apodera da minha noite, apenas o vento se atreve, insolente, nos canaviais junto ao rio.  As minhas mãos ficam geladas e os  meus olhos demasiado abertos, não tenho para onde fugir.