15.10.19

para a Linda Blue

...

e a menina dos caracóis, bailarina de palmo e meio, avançou para o centro do grande palco da vida, ignorando o suor frio que lhe descia pela coluna, com um suave demi plié começou:

azul é a mão da minha mãe, juntas a caminho da pastelaria, o calor do sol no meu rosto, o coração a transbordar de alegria, disse a menina, saltando numa bonita série de pas de chat, Mel, Mia e Molly já à sua espera, para depois rodopiar, sorrindo, em várias pirouettes:

o mar é vasto como o amor profundo que sentirei por cada um dos meus filhos, gerados do meu corpo de carne e alma, fusão estelar, continuou a menina, antes de se lançar no mais belo grand jeté:

entre o azul e o mar, o meu coração pulsando, amor eterno, elo de ligação.



Dancer, 1925 by Joan Miro


14.10.19

para o Senhor Impontual

Posto isto, o Senhor Impontual saiu da conferência absolutamente convencido de que o aspecto principal da preservação de um edifício é a sua história e não a sua beleza. Nem que para se atingir tal desiderato seja preciso ficar quieto.


O Senhor Impontual, protegido pela massa humana da rua, continua a vaguear dentro dos seus pensamentos, enquanto se distrai a observar as jovens alegres que passam. Num jogo de esquecimentos e recordações, deambula pelas mulheres bonitas que se cruzaram consigo ao longo dos anos. Todas traziam nos gestos um encantamento que o atemorizava. Temia enlouquecer, ficar marcado numa equimose sentimental incurável, humilhado na sua condição de ser medíocre e banal, terminando num desses suicidas anónimos. Talvez Ambrose tivesse razão e a beleza fosse mesmo o poder pelo qual uma mulher encantava o amante e aterrorizava o marido. O Senhor Impontual nunca permitiu que alguma delas de alojasse na sua vida, mais tempo do que o necessário para se fazer abandonar sem segundas oportunidades. Preferiu sempre considerar-se objecto de uma história de ciúmes, que as mulheres bonitas costumam inventar para chamar a atenção dos homens que realmente desejam, ou um momento de fraqueza, uma aventura fugaz para desenjoar da vida caseira. Não o magoava saber-se usado, porque controlava os danos da rejeição. Uma buzina perto resgata-o à vida e encaminha-o em direcção à  Fontana delle Tette, estremecendo com antecipada visão dos jorros ébrios. Nunca temeu uma mulher de pedra.

11.10.19

brincadeirita

repete-me o excelso leitor, grilo falante em aborrecida estridulação, que tudo o que tenho publicado nesta brincadeirita de desafio, não passa de capa de cd dos anos noventa, tocado em baile kitsch da aldeia, com rimas básicas, alternadas entre aliterações e assonâncias. quase choro, de tão apoquentada que fico, quando o leitor me vem anunciar a sua crítica divina. consumo o corpo em dores de barriga, calafrios e suores incómodos que limpo às escondidas. a raiva de não ser aceite na sagrada academia literária da blogosfera, pouso das aves maiores e raras, gaviões emplumados de vitórias, desfaz-me as fezes em catadupa na triste sanita. temendo pela minha saúde intestinal, segundo cérebro confirmado pela ciência actual, com mais neurónios embutidos nas paredes do que o original, prometi ao ortóptero deambulante que o desafio insano não se havia de repetir.

10.10.19

para a Paula

a inspiração, tal como as açucenas, volta sempre a florescer após um período de quietação 
(vem na página 987 do Manual Blogtânico)


a amizade, tal como as flores silvestres, nasce onde bem lhe apetece, sem precisar  de ordem ou razão.
(vem na página 988 do Manual Blogtânico)

um abraço ainda maior, querida Paula.

para a Maria Eu

Porque los pájaros nacidos en jaula creen que volar es una enfermedad, de más en más hay pájaros rogando porque los  metan en una jaula.

Alejandro Jodorowsky


voam em bando
os pássaros negros do teu cabelo,
mas não te digo nada para não te acordar. 
fico só olhando, 
adivinhando o rumo no bater das asas,
o crocito em coro sobrevoando o teu ventre, 
alto-ventre, 
baixo-ventre,
espero até os ver pousar.
imobilizo-me depois,
fico quieto,
na intimidade do teu quarto
respiro mais devagar.
já não sinto o dia, nem a dor,
nem o tempo, nem a voz,
apenas um sopro suave
e faço os pássaros voar.

8.10.19

para a Janita

não me venhas, amor,
falar dessa maneira,
dizer que a vida já passou por nós,
que estamos velhos e não nos fica bem,
agora é sentar o corpo cansado na cadeira
e ver os outros passar,
porque eu, amor,
quero bailar, rodar nos teus braços,
grandes como laços,
beijar-te a pele enrugada,
o tempo que me deste.
não, amor, não te deixarei sentar na cadeira,
nem que tentes,
porque eu, amor,
quero é propostas estranhas e indecentes.


7.10.19

para a ana p

o meu medo era mirrares
em melancolia sem fim,
perto de mim,
longe do princípio do mundo
onde nasceste.
murmurei-te
a mesma melodia,
dia após dia,
música mineral, rocha metamórfica,
melindrosa manifestação nasal
bilabial
e muito mais.
Pierre Magnol saberia cuidar de ti,
magnólia
monofilética,
estética harmonia em pétalas paradoxais,
hóstias pagãs,
és tu
a flor de mim.

Adam Cohen & Lana Del Rey



Chelsea Hotel No. 2

And you got away, didn't you babe,
You just turned your back on the crowd
You got away, I never once heard you say,
I need you

5.10.19

para a UJM

rompem flores das paredes,
quando das minhas mãos
são já os netos que procuram
alguma coisa para romper.
bordadas em mil cores,
carros de linhas em círculos sobre a mesa,
cata-ventos coloridos girando na janela,
crianças que riem e correm
num sábado de sol.
plumérias, rosas, lírios, jacintos,
narcisos e miosótis,
frágeis peónias, gentis amores-perfeitos,
erva-doce, alfazema, um singelo malmequer,
rompem flores de todas as paredes
na nossa casa-poema,
e do meu corpo, útero criador, rompem
dores e alegrias
e flores,
de avó, mãe e filha, mulher.


|espero que não me leve a mal não ter acatado a sua segunda sugestão, mas gostei tanto da sua proposta inicial|

para a Sónia

nos teus olhos
vi trémulos fragmentos de mim,
pedaços de sonhos, aromas púrpura
e mãos nervosas,
um mundo novo nas nossas vozes
onde uma tarde,
esquecidos no nevoeiro do rio,
aceitei o medo e mergulhei contigo.
eras belo,
refulgente como o metal das estrelas distantes,
quando se sabem observadas.
era frágil,
um murmúrio teu fez parar a minha vida.