23.10.19

...

quem vem ao mundo por engano, há-de passar a vida inteira à procura de quem a deseje. 

puras deus, non plenas aspicit manus

invejo-os, às vezes, no peso que não carregam, na simplicidade com que lavam as mãos ao final do dia. como deve ser bom ter umas mãos tão puras, abnegadas de vícios mundanos. 

20.10.19

para a luisa

soubesse eu inventar palavras,
diz-me Milu, muito quieta na sua teia
como quem se senta no trono real,
e inventava um livro inteiro, assim como um dicionário,
mas muito mais bonito, e colava nele todos
os passeios da luisa para o ilustrar,
e quando tu viesses mirar-me com essa cara de cacto inundado,
das profundezas lamacentas do teu ser humana atormentada,
eu já não precisava de aranhar.
bastava abrir o livro na página certa, apontar o verbete,
e tu, petiza curiosa que deves ter sido,
juntarias as letras pequenas, depois as palavras rasas
e saberias, oh! como saberias,
que pior do que tudo é viver rente ao tecto do mundo,
a vida por um  fio e não ter asas!


[Milu, a aranha que já foi pirata, tem a mania de vadiar por blogs alheios. um deles, onde me diz ter sido muuuito feliz, foi à esquina da tecla, no coração generoso da luisa.]

18.10.19

She can make the birds and bees




She can turn her flesh to steel
But she can't get her scars to heal

16.10.19

para o Lúcio Ferro

sem um tostão no bolso, o álcool finalmente a embalar-lhe os movimentos anestesiados, avançou para a mulher de mini-saia, encostada ao barracão da oficina. continuava a arrastar a perna direita, já não lhe doía tanto, mas ainda não conseguia dobrar o joelho. cabrão do Vesgo, atacá-lo pelas costas com um ferro das obras, como se o lugar tivesse dono. a cabeça continuava a latejar desde manhã, talvez a Nelita lhe emprestasse algum guito, tinha mesmo de lá passar. o rio cheirava mais a merda do que nos outros dias, riu-se, meteu a mão ao bolso roto e coçou as peles frouxas, infestadas de carangos. quando chegou perto da mulher mostrou o sorriso desdentado, tirou o boné roto da cabeça e fez-lhe uma vénia antes de falar, atão, princesa, és nova aqui? a mulher continuou a pintar os lábios, mirando-se no pequeno espelho redondo. ai és fina, não respondes ao Lúcio? a mulher deu meia volta e virou-lhe as costas, enquanto ajeitava o cabelo. ó princesa, anda cá, não fujas, tão jeitosa que tu és, anda cá, faz-me uma mamada, que estou cheio de fibra no pau. a mulher afasta-se em direcção ao candeeiro do outro lado da rua, os saltos dos sapatos  fazem um barulho estranho,  ele continua a coçar o sexo mole,  apetece-lhe fumar mas já não tem beatas,  a cabeça  parece que vai rebentar, puta de merda...

15.10.19

para a Linda Blue

...

e a menina dos caracóis, bailarina de palmo e meio, avançou para o centro do grande palco da vida, ignorando o suor frio que lhe descia pela coluna, com um suave demi plié começou:

azul é a mão da minha mãe, juntas a caminho da pastelaria, o calor do sol no meu rosto, o coração a transbordar de alegria, disse a menina, saltando numa bonita série de pas de chat, Mel, Mia e Molly já à sua espera, para depois rodopiar, sorrindo, em várias pirouettes:

o mar é vasto como o amor profundo que sentirei por cada um dos meus filhos, gerados do meu corpo de carne e alma, fusão estelar, continuou a menina, antes de se lançar no mais belo grand jeté:

entre o azul e o mar, o meu coração pulsando, amor eterno, elo de ligação.



Dancer, 1925 by Joan Miro


14.10.19

para o Senhor Impontual

Posto isto, o Senhor Impontual saiu da conferência absolutamente convencido de que o aspecto principal da preservação de um edifício é a sua história e não a sua beleza. Nem que para se atingir tal desiderato seja preciso ficar quieto.


O Senhor Impontual, protegido pela massa humana da rua, continua a vaguear dentro dos seus pensamentos, enquanto se distrai a observar as jovens alegres que passam. Num jogo de esquecimentos e recordações, deambula pelas mulheres bonitas que se cruzaram consigo ao longo dos anos. Todas traziam nos gestos um encantamento que o atemorizava. Temia enlouquecer, ficar marcado numa equimose sentimental incurável, humilhado na sua condição de ser medíocre e banal, terminando num desses suicidas anónimos. Talvez Ambrose tivesse razão e a beleza fosse mesmo o poder pelo qual uma mulher encantava o amante e aterrorizava o marido. O Senhor Impontual nunca permitiu que alguma delas de alojasse na sua vida, mais tempo do que o necessário para se fazer abandonar sem segundas oportunidades. Preferiu sempre considerar-se objecto de uma história de ciúmes, que as mulheres bonitas costumam inventar para chamar a atenção dos homens que realmente desejam, ou um momento de fraqueza, uma aventura fugaz para desenjoar da vida caseira. Não o magoava saber-se usado, porque controlava os danos da rejeição. Uma buzina perto resgata-o à vida e encaminha-o em direcção à  Fontana delle Tette, estremecendo com antecipada visão dos jorros ébrios. Nunca temeu uma mulher de pedra.

11.10.19

brincadeirita

repete-me o excelso leitor, grilo falante em aborrecida estridulação, que tudo o que tenho publicado nesta brincadeirita de desafio, não passa de capa de cd dos anos noventa, tocado em baile kitsch da aldeia, com rimas básicas, alternadas entre aliterações e assonâncias. quase choro, de tão apoquentada que fico, quando o leitor me vem anunciar a sua crítica divina. consumo o corpo em dores de barriga, calafrios e suores incómodos que limpo às escondidas. a raiva de não ser aceite na sagrada academia literária da blogosfera, pouso das aves maiores e raras, gaviões emplumados de vitórias, desfaz-me as fezes em catadupa na triste sanita. temendo pela minha saúde intestinal, segundo cérebro confirmado pela ciência actual, com mais neurónios embutidos nas paredes do que o original, prometi ao ortóptero deambulante que o desafio insano não se havia de repetir.

10.10.19

para a Paula

a inspiração, tal como as açucenas, volta sempre a florescer após um período de quietação 
(vem na página 987 do Manual Blogtânico)


a amizade, tal como as flores silvestres, nasce onde bem lhe apetece, sem precisar  de ordem ou razão.
(vem na página 988 do Manual Blogtânico)

um abraço ainda maior, querida Paula.