Na Agência do Ó todos os casos são singulares e peculiares, avança o agente, enquanto desaperta o paletó para se sentar. Tétisq, que já tinha contado duas vezes todas as lombadas das estantes, à espera, levanta-se e estende-lhe a mão, agradecendo a amabilidade em aceitar o seu caso. Posso contar-lhe como tudo se passou? Não adiantei muito à sua secretária... O agente recusa com um gesto de enfado e procura as horas no relógio de pulso. Não vale a pena, Menina. O que me diz de almoçar comigo ali na Portugália e começamos já a trabalhar no caso? Tétisq olha admirada para o homem, depois para a secretária loira, que lhe sorri. A cena parece-lhe digna de Hitchcock. Mas que ideia tinha sido a sua em procurar ajuda nos classificados do jornal?! Ok, pode ser..., responde finalmente. Excelente, venha, estou a morrer de fome! Ofereço eu, faço questão. Patrícia, minha flor do oriente, queres que te traga umas gambas à bras?, e salta da cadeira, apertando o paletó com alguma dificuldade. O perímetro abdominal resiste ao número abaixo do casaco. Quando finalmente consegue, ajeita primorosamente a gravata preta. A secretária diz que hoje trouxe marmita, não vale a pena. Já dentro do velho elevador, quase a chegar ao rés do chão, o agente pára de assobiar a melodia do glorioso e, sem olhar para Tétisq, pergunta, Mas afinal o que é que a Menina perdeu mesmo? Tétisq arregala os olhos, incrédula, e responde, Perdi o Cartão de Cidadão!...
O agente ri-se, Isso, isso, o cartão do cidadão. Então vamos lá. Vou precisar de uma lista dos seus contactos mais directos, marido, namorado, ou namorada, claro, parentes vivos mais próximos, colegas de trabalho. Enfim, todos. Não se espante Menina, a maioria dos casos de furto são praticados por gente próxima da vítima. Tétisq, que tinha decidido, perante a estranheza de comportamento do agente, não dizer mais nada, não se contém, Mas eu não fui furtada, eu perdi o cartão de cidadão! Caminham pelo passeio apinhado de gente que se dirige para os restaurantes da zona. A voz sai-lhe mais aguda do que pretendia, algumas mulheres olham para ela, desconfiadas. Não se iluda, Menina, - continua o agente, - a maioria dos casos de perda são furtos encenados. Por exemplo, a Menina julga que perdeu a suas oportunidades de se realizar na vida, certo? Ser cineasta ou lá o que é isso, produzir cinema, filmes, essas coisas, em vez de trabalhar naquela gaiola de doidos, tenho razão ou não? Tétisq, pálida, gagueja que sim, mas como pode aquele homem saber tanto sobre ela, se nunca se tinham cruzado?! Como pode? Começa a sentir que caminha dentro de uma realidade paralela, um filme a que não se lembra de ter assistido e tem vontade de ir embora, apanhar o comboio e voltar para casa.
São levados para o canto mais calmo do restaurante, cortesia da casa, e sentam-se numa pequena mesa onde jaz um pires de camarões, cobertos com película aderente. Como por magia, um empregado surge do nada e pousa o copo na mesa, dizendo que volta já para tirar o pedido. Então o Agente continua, Mas está errada, percebe? A Menina não perdeu, não, a Menina foi furtada. Foi furtada pelo seu país, percebe? Pelos governantes que a deviam ter protegido, mas preferiram roubar-lhe o futuro. Furtada, roubada, tudo igual, é uma questão de semântica, percebe? E dito isto, embala a imperial até aos beiços e afoga-a de uma só vez, com a sofreguidão de um náufrago. Ahhhhh! Está calor, não está?
[querida Tétisq, ressuscitei o intrépido Agente do Ó exclusivamente para ti]