31.10.19

Agência do Ó - sucursais

Caríssimos Leitores,

A Agência do Ó, onde todos os casos são singulares e peculiares, multiplicou-se pela blogosfera. Maravilha das maravilhas, gente generosa e com muito sentido de humor abriu sucursal da Agência do Ó no seu blog. Partilho e agradeço.
Um abraço a todos.


Xilre - Caso Parte I | Parte II

Manel Mau-Tempo - Caso

noname - Caso

Janita - Caso

Sam Seaborn - Caso

~CC~ - Caso Parte I | Parte II  | Parte III 

Joaquim Ramos (em modo de comentário :) - Caso


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Linda Tétisq, hoje é dia de luta para ti. Muita força!

26.10.19

para a ana

ela,
que na ausência de luz
não é sombra,
nem medo,
apenas silêncio que nasce no veio de um rio
e o riso nas ondas do mar.
abraços de vento,
beijos de chuva e sal,
carícia do tempo sem nome,
aurora boreal,
terra, homem-terra,
as mãos apoiando os passos,
a dádiva da vida gerada,
cansada,
a dança em volta da fogueira.
ela,
que fala com os pássaros e ouve os anjos em redor,
costura as fragilidades da alma em palavras singelas,
deliciosas empadas, chás de cidreira e tanto amor.

24.10.19

para a Tétisq

Na Agência do Ó todos os casos são singulares e peculiares, avança o agente, enquanto desaperta o paletó para se sentar. Tétisq, que já tinha contado duas vezes todas as lombadas das estantes, à espera, levanta-se e estende-lhe a mão, agradecendo a amabilidade em aceitar o seu caso. Posso contar-lhe como tudo se passou? Não adiantei muito à sua secretária... O agente recusa com um gesto de enfado e procura as horas no relógio de pulso. Não vale a pena, Menina. O que me diz de almoçar comigo ali na Portugália e começamos já a trabalhar no caso? Tétisq olha admirada para o homem, depois para a secretária loira, que lhe sorri. A cena parece-lhe digna de Hitchcock. Mas que ideia tinha sido a sua em procurar ajuda nos classificados do jornal?! Ok, pode ser..., responde finalmente. Excelente, venha, estou a morrer de fome! Ofereço eu, faço questão. Patrícia, minha flor do oriente, queres  que te traga umas gambas à bras?, e salta da cadeira, apertando o paletó com alguma dificuldade. O perímetro abdominal resiste ao número abaixo do casaco. Quando finalmente consegue, ajeita primorosamente a gravata preta. A secretária diz que hoje trouxe marmita, não vale a pena. Já dentro do velho elevador, quase a chegar ao rés do chão, o agente pára de assobiar a melodia do glorioso e, sem olhar para Tétisq, pergunta, Mas afinal o que é que a Menina perdeu mesmo? Tétisq arregala os olhos, incrédula, e responde, Perdi o Cartão de Cidadão!... 
O agente ri-se, Isso, isso, o cartão do cidadão. Então vamos lá. Vou precisar de uma lista dos seus contactos mais directos, marido, namorado, ou namorada, claro, parentes vivos mais próximos, colegas de trabalho. Enfim, todos. Não se espante Menina, a maioria dos casos de furto são praticados por gente próxima da vítima. Tétisq, que tinha decidido, perante a estranheza de comportamento do agente, não dizer mais nada, não se contém, Mas eu não fui furtada, eu perdi o cartão de cidadão! Caminham pelo passeio apinhado de gente que se dirige para os restaurantes da zona. A voz sai-lhe mais aguda do que pretendia, algumas mulheres olham para ela, desconfiadas. Não se iluda, Menina, - continua o agente, - a maioria dos casos de perda são furtos encenados. Por exemplo, a Menina julga que perdeu a suas oportunidades de se realizar na vida, certo? Ser cineasta ou lá o que é isso, produzir cinema, filmes, essas coisas, em vez de trabalhar naquela gaiola de doidos, tenho razão ou não? Tétisq, pálida, gagueja que sim, mas como pode aquele homem saber tanto sobre ela, se nunca se tinham cruzado?! Como pode? Começa a sentir que caminha dentro de uma realidade paralela, um filme a que não se lembra de ter assistido e tem vontade de ir embora, apanhar o comboio e voltar para casa.
São levados para o canto mais calmo do restaurante, cortesia da casa, e sentam-se numa pequena mesa onde jaz um pires de camarões, cobertos com película aderente. Como por magia, um empregado surge do nada e pousa o copo na mesa, dizendo que volta já para tirar o pedido. Então o Agente continua, Mas está errada, percebe? A Menina não perdeu, não, a Menina foi furtada. Foi furtada pelo seu país, percebe? Pelos governantes que a deviam ter protegido, mas preferiram roubar-lhe o futuro. Furtada, roubada, tudo igual, é uma questão de semântica, percebe? E dito isto, embala a imperial até aos beiços e afoga-a de uma só vez, com a sofreguidão de um náufrago. Ahhhhh! Está calor, não está?


[querida Tétisq, ressuscitei o intrépido Agente do Ó exclusivamente para ti]

23.10.19

...

quem vem ao mundo por engano, há-de passar a vida inteira à procura de quem a deseje. 

puras deus, non plenas aspicit manus

invejo-os, às vezes, no peso que não carregam, na simplicidade com que lavam as mãos ao final do dia. como deve ser bom ter umas mãos tão puras, abnegadas de vícios mundanos. 

20.10.19

para a luisa

soubesse eu inventar palavras,
diz-me Milu, muito quieta na sua teia
como quem se senta no trono real,
e inventava um livro inteiro, assim como um dicionário,
mas muito mais bonito, e colava nele todos
os passeios da luisa para o ilustrar,
e quando tu viesses mirar-me com essa cara de cacto inundado,
das profundezas lamacentas do teu ser humana atormentada,
eu já não precisava de aranhar.
bastava abrir o livro na página certa, apontar o verbete,
e tu, petiza curiosa que deves ter sido,
juntarias as letras pequenas, depois as palavras rasas
e saberias, oh! como saberias,
que pior do que tudo é viver rente ao tecto do mundo,
a vida por um  fio e não ter asas!


[Milu, a aranha que já foi pirata, tem a mania de vadiar por blogs alheios. um deles, onde me diz ter sido muuuito feliz, foi à esquina da tecla, no coração generoso da luisa.]

18.10.19

She can make the birds and bees




She can turn her flesh to steel
But she can't get her scars to heal

16.10.19

para o Lúcio Ferro

sem um tostão no bolso, o álcool finalmente a embalar-lhe os movimentos anestesiados, avançou para a mulher de mini-saia, encostada ao barracão da oficina. continuava a arrastar a perna direita, já não lhe doía tanto, mas ainda não conseguia dobrar o joelho. cabrão do Vesgo, atacá-lo pelas costas com um ferro das obras, como se o lugar tivesse dono. a cabeça continuava a latejar desde manhã, talvez a Nelita lhe emprestasse algum guito, tinha mesmo de lá passar. o rio cheirava mais a merda do que nos outros dias, riu-se, meteu a mão ao bolso roto e coçou as peles frouxas, infestadas de carangos. quando chegou perto da mulher mostrou o sorriso desdentado, tirou o boné roto da cabeça e fez-lhe uma vénia antes de falar, atão, princesa, és nova aqui? a mulher continuou a pintar os lábios, mirando-se no pequeno espelho redondo. ai és fina, não respondes ao Lúcio? a mulher deu meia volta e virou-lhe as costas, enquanto ajeitava o cabelo. ó princesa, anda cá, não fujas, tão jeitosa que tu és, anda cá, faz-me uma mamada, que estou cheio de fibra no pau. a mulher afasta-se em direcção ao candeeiro do outro lado da rua, os saltos dos sapatos  fazem um barulho estranho,  ele continua a coçar o sexo mole,  apetece-lhe fumar mas já não tem beatas,  a cabeça  parece que vai rebentar, puta de merda...