o fogo varre o restolho amarelo,
enquanto o vento o empurra e o obriga a rodopiar.
juntos, numa brincadeira de rapazes traquinas,
jogando pião nas esquinas,
galgam o sul da encosta até o dia acabar.
louco e guerreiro,
são espiral de vida e de morte,
ave de fogo renascida das cinzas,
forte, carregando em si um mundo inteiro.
uma mulher de ouro com asas,
segredo maior da antiga alquimia,
uma fita dourada de möbius,
em que o último dia é o primeiro,
infinitamente em sintonia.
12.11.19
11.11.19
resgatado à melancolia do dia 31/12/17
And this I dreamt, and this I dream,
And some time this I will dream again,
And all will be repeated, all be re-embodied,
You will dream everything I have seen in dream.
To one side from ourselves, to one side from the world
Wave follows wave to break on the shore,
On each wave is a star, a person, a bird,
Dreams, reality, death—on wave after wave.
No need for a date: I was, I am, and I will be,
Life is a wonder of wonders, and to wonder
I dedicate myself, on my knees, like an orphan,
Alone—among mirrors—fenced in by reflections:
Cities and seas, iridescent, intensified.
A mother in tears takes a child on her lap.
10.11.19
para o Manel Mau-Tempo, Cigano daqui e d'além mar, Octopus de óculos graduados, mas nunca vulgar!
![]() |
| Wu Yung-sen |
No dia seguinte, de manhazinha muito cedo, lá ia o Sr. Polvo no transporte público, de óculos postos e olhos bem abertos. Sim, um polvo pode usar óculos, desde que os segure com um elástico. Entrou a Menina Lulinha, duas paragens à frente, sem olhar para as ameijoas, também ela atenta. Era o início de um belo romance, pensava o Sr. Polvo, ainda havia esperança. Mas com a Menina Lulinha entrara também um choco encorpado, prai um metro e noventa e seis todo ele riscas. Sepia zebrina, apresentou a Menina Lulinha, o meu noivo.
Sr. Polvo engoliu em seco, segurou a lágrima grossa que subiu directa de um dos corações, estendeu o tentáculo mais musculado e cumprimentou o choco encorpado. Não disseram mais nada. Sentiu-se tão idiota que não voltou a apanhar a linha amarela durante o resto do mês. O percurso alternativo obrigava-o a levantar-se uma hora mais cedo, mas nem isso o demoveu. A tristeza voltou mansamente a aninhar-se entre os três corações. Tinha nascido para ser infeliz.
Foi numa daquelas noites sombrias, Sr. Polvo tinha recebido a garrafinha de aguardente de medronhos, que Alexandra do G que lhe tinha enviado, da sua produção caseira. A fogueira que inicialmente se lhe acendia na boca e na garganta depressa tomou conta do corpo todo. Cantou, tocou todas as musicas de Cohen que conhecia, depois gritou, primeiro na cozinha, depois na varanda, quase como um lobo, e amaldiçoou a sua vida até adormecer no sofá. Acordou no dia seguinte com uma dor infernal de cabeça e na ponta dos tentáculos e a boca a saber a papel pardo. Um banho gelado e dois cafés depois, Sr. Polvo, atrasado, correu para o metro. Dois dos seus corações amedrontaram-lhe o passo, e se encontrasse Menina Lulinha com o azeiteiro do Sepia outra vez?, mas o terceiro, talvez um pouco mais jovem e selvagem, empurrava-lhe os tentáculos ressacados em direcção à estação. Não valia a pena levar um raspanete do chefe, o Sr. Gadus Gadidae era muito simpático, mas pouco tolerante com os atrasos. Se a visse, fingia que não a tinha visto e pronto, aconselhou-o o tolo ingénuo do jovem coração.
Ainda mal se tinha ajeitado ao banco e já o telemóvel, perdido em um dos mil bolsos, tremia como uma máquina de lavar em centrifugação. Sr. Polvo, cuja indisposição ainda lhe magoava os olhos à luz da manhã, nem se preocupou em procurar o maldito. Alguma factura em atraso, aposto, pensou, e encostou a cabeça contra no vidro, preparando-se para adormecer. Ao seu lado, três sardinhas novinhas teclavam afincadamente. Foi quando o telemóvel tremeu outra vez, ele meio estremunhado, que se assustou e deu um salto no banco. Felizmente, as sardinhas, entretidas com a sua intensa vida digital, nem se moveram, tão-pouco riram, e por isso ele quase nem se envergonhou. Procurou atabalhoadamente o aparelho, com a força do medronho, todos os tentáculos se trocavam ainda, e quando finalmente o encontrou deu conta que já tinha vinte e cinco notificações no ecrã... do tinder...?!
Mas como assim, do tinder?! Sr. Polvo nunca se tinha inscrito na app, nem sequer a tinha instalada no telemóvel. O cérebro, mole como papa cerelac, não ajudava. Sugeria-lhe todas as possibilidades, mesmos as mais descabidas e assustadoras, Alguém entrou em casa durante a noite! A vizinha do 5º clonou-te o telemóvel, eu disse-te que as pescadas têm maus fígados! Não, espera, deves ter um vírus no telemóvel! Porra, eu disse-te para não veres aqueles filmes aí! Aaahhhh! E agora?! Sr. Polvo transpirava, uma das sardinhas, a que estava sentada à sua frente, olhava-o fixamente. Tentou acalmar-se, respirando lentamente como ana o tinha ensinado na terapia.
Tudo isto não demorou mais de um minuto, embora na cabeça deste tonto Octopus vulgaris, o tempo fosse difícil de medir. Tomado finalmente pela curiosidade, desbloqueou o ecrã e começou a ler. Tinha sete correspondências!! Sete criaturas marinhas que tinham visto o seu perfil e tinham deslizado o dedo para a direita! Mas que perfil? Se ele nunca tinha usado o tinder... Ah! Lembrou-se! De certeza que algum outro Polvo se tinha enganado a digitar o número de telefone e daí a confusão. Mas não! Que estúpido, isso não podia ser. Claro que não pode ser, seu idiota!, grita-lhe o cérebro gelatinoso. Deves ter instalado isso ontem à noite, seu pobre bêbado! Nunca tinha sido meigo consigo mesmo, mas a ressaca piorava exponencialmente os maus fígados aos miolos.
Decidiu procurar o ícone da aplicação e clicou, a conta de email e a password já estavam gravadas, entrou de imediato.
Nome: Conde de Trovisco e Além-Mar
Ocupação: Sou conde, mas pouco, vivo como octopus vulgaris nos arredores de Cephalopoda e cultivo majericão e tomatinhos na varanda cá de casa. O meu sonho é ser pastor e ter um rebanho de filhos também. Tenho três corações para amar em todas as dimensões e oito tentáculos para dar muito prazer (emoji envergonhado). Não sou rico, mas dou-me sempre por inteiro, não cobro nada.
Foi numa daquelas noites sombrias, Sr. Polvo tinha recebido a garrafinha de aguardente de medronhos, que Alexandra do G que lhe tinha enviado, da sua produção caseira. A fogueira que inicialmente se lhe acendia na boca e na garganta depressa tomou conta do corpo todo. Cantou, tocou todas as musicas de Cohen que conhecia, depois gritou, primeiro na cozinha, depois na varanda, quase como um lobo, e amaldiçoou a sua vida até adormecer no sofá. Acordou no dia seguinte com uma dor infernal de cabeça e na ponta dos tentáculos e a boca a saber a papel pardo. Um banho gelado e dois cafés depois, Sr. Polvo, atrasado, correu para o metro. Dois dos seus corações amedrontaram-lhe o passo, e se encontrasse Menina Lulinha com o azeiteiro do Sepia outra vez?, mas o terceiro, talvez um pouco mais jovem e selvagem, empurrava-lhe os tentáculos ressacados em direcção à estação. Não valia a pena levar um raspanete do chefe, o Sr. Gadus Gadidae era muito simpático, mas pouco tolerante com os atrasos. Se a visse, fingia que não a tinha visto e pronto, aconselhou-o o tolo ingénuo do jovem coração.
Ainda mal se tinha ajeitado ao banco e já o telemóvel, perdido em um dos mil bolsos, tremia como uma máquina de lavar em centrifugação. Sr. Polvo, cuja indisposição ainda lhe magoava os olhos à luz da manhã, nem se preocupou em procurar o maldito. Alguma factura em atraso, aposto, pensou, e encostou a cabeça contra no vidro, preparando-se para adormecer. Ao seu lado, três sardinhas novinhas teclavam afincadamente. Foi quando o telemóvel tremeu outra vez, ele meio estremunhado, que se assustou e deu um salto no banco. Felizmente, as sardinhas, entretidas com a sua intensa vida digital, nem se moveram, tão-pouco riram, e por isso ele quase nem se envergonhou. Procurou atabalhoadamente o aparelho, com a força do medronho, todos os tentáculos se trocavam ainda, e quando finalmente o encontrou deu conta que já tinha vinte e cinco notificações no ecrã... do tinder...?!
Mas como assim, do tinder?! Sr. Polvo nunca se tinha inscrito na app, nem sequer a tinha instalada no telemóvel. O cérebro, mole como papa cerelac, não ajudava. Sugeria-lhe todas as possibilidades, mesmos as mais descabidas e assustadoras, Alguém entrou em casa durante a noite! A vizinha do 5º clonou-te o telemóvel, eu disse-te que as pescadas têm maus fígados! Não, espera, deves ter um vírus no telemóvel! Porra, eu disse-te para não veres aqueles filmes aí! Aaahhhh! E agora?! Sr. Polvo transpirava, uma das sardinhas, a que estava sentada à sua frente, olhava-o fixamente. Tentou acalmar-se, respirando lentamente como ana o tinha ensinado na terapia.
Tudo isto não demorou mais de um minuto, embora na cabeça deste tonto Octopus vulgaris, o tempo fosse difícil de medir. Tomado finalmente pela curiosidade, desbloqueou o ecrã e começou a ler. Tinha sete correspondências!! Sete criaturas marinhas que tinham visto o seu perfil e tinham deslizado o dedo para a direita! Mas que perfil? Se ele nunca tinha usado o tinder... Ah! Lembrou-se! De certeza que algum outro Polvo se tinha enganado a digitar o número de telefone e daí a confusão. Mas não! Que estúpido, isso não podia ser. Claro que não pode ser, seu idiota!, grita-lhe o cérebro gelatinoso. Deves ter instalado isso ontem à noite, seu pobre bêbado! Nunca tinha sido meigo consigo mesmo, mas a ressaca piorava exponencialmente os maus fígados aos miolos.
Decidiu procurar o ícone da aplicação e clicou, a conta de email e a password já estavam gravadas, entrou de imediato.
Nome: Conde de Trovisco e Além-Mar
Ocupação: Sou conde, mas pouco, vivo como octopus vulgaris nos arredores de Cephalopoda e cultivo majericão e tomatinhos na varanda cá de casa. O meu sonho é ser pastor e ter um rebanho de filhos também. Tenho três corações para amar em todas as dimensões e oito tentáculos para dar muito prazer (emoji envergonhado). Não sou rico, mas dou-me sempre por inteiro, não cobro nada.
Procuro companheira para partilhar a vida, os dias e as noites, o sol e a chuva, a mesa, a cama, o chão, o pão e a fruta, os beijos e os abraços, os malteseres e as ovelhas-do-mar. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Procuro uma companheira para não enlouquecer, para contar o que vi de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Que piegas, grita-lhe o cérebro, e roubaste metade da lamúria a um poeta!, mas por essa altura já os três coração galopavam como cavalos. Aquele perfume inconfundível a gelado de baunilha a aflorar-se-lhe no palato... ela estava por perto. Bloqueou. Rodava o pescoço e procurava-a ou não? E se estivesse outra vez com aquele Sepia cheio de gel na cabeleira? O que lhe diria? Afinal ela estava noiva, noiva!, ia casar. A pequena trovoada dentro do seu cérebro aos gritos, iluminava-lhe a fronte. As sardinhas deixaram de teclar e apontaram-lhe o telemóvel à cara, excitadíssimas, preparavam-se para fazer um live!
Sr. Polvo, Conde de Trovisco e Além-Mar, em pânico, procurava uma saída, mas o barulho dos passageiros, juntamente com o chiar dos travões da carruagem e a dor de cabeça, não o deixavam pensar. Só lhe resta uma solução, é terrível, mas tem de ser. As sardinhas já guincham para a câmara do telemóvel, numa antecipação do momento bizarro que vão partilhar, rindo alto como enguias. Sr. Polvo, octopus encurralado, mas não vulgar, vomita toda a tinta escura que pode e foge aflito, sem se voltar. Que vergonha, julga que vai morrer, soluça enquanto corre, a tinta fá-lo chorar.
noite
Entre o livro dos seres imaginários, o bestiário de kafka e as criaturas mitológicas das redes sociais, fico indecisa.
8.11.19
Agência do Ó
A Menina mais bonita da blogosfera, quiçá agente infiltrada russa, sem saber, deixou-me o coração em cuidados esta manhã. Enviou-me alguns prints do blog que estupidamente apaguei, porque o achei fraco. Santo Deus!, quem me julgaria eu na altura, para exigir de mim algo melhor?... Felizmente, essa dúvida existencial, tão comum em quem publica, tem vindo a deixar de me afligir. Aceitar os defeitos e viver com eles é o melhor ensinamento que a vida me tem trazido. Mas a questão com a Agência do Ó, e com qualquer história que se queira manter, era também a falta de tempo - sem tempo, toda a escrita nos parece pobre, inacabada, e num blog que se queria de mistério e bom-humor a falta de tempo ditou a sentença.
Por isso, querida Menina Tétisq, do fundinho do coração, grata pelas lembranças do meu saudoso Agente XPTO, esse taradão da espionagem :)
7.11.19
para a alexandra g
vulcão, torrente de lava que dá costa ao mar, guerreira das terras altas, animal que pisa descalço o caminho inclinado: urzes, silvas e musgo, pedras soltas, cascalho, areia fina colando-se à pele, a boca estancando o sangue, trincando a polpa da maçã. a voz sem freios, não monta arreios no coração, é mulher que galopa nas suas próprias pernas, longas, seguindo trilhos e carreiros. a carne suada na cama, fêmea inteira, aguardente queimando a garganta, em beijos lentos cuspindo caroços de maracujá, ri. canta, grita, dança. a família num abraço, as conversas no café, um copo de vinho e um cigarro nas mãos, sujas de terra, onde brilham estrelas de tarefas por cumprir. na elipse do ventre, Nigga e Porcelana, a neta Victoria, cada qual caminhando os seus próprios passos, espaços, ternura, um mundo inteiro onde habitar. o homem, vinho do porto antigo, outrora lobo do mar.
4.11.19
Carlota
a osga, discreta sob o braço do portão, aproveita o movimento para se refugir no seu interior. desde que tapei os buracos da caixa dos fusíveis com a espuma que o rapaz me aconselhou, nunca mais houve mortes por electrocussão, nem placas queimadas. creio que daquela chacina esta osga não sabe, ou talvez saiba - que podemos nós afirmar da vida dos outros, afinal? -, mas prefira não se deixar tolher pelo medo e viva cada dia como se fosse o último e o primeiro, ou vice-versa, consoante a filosofia de cada um. seja o que for, há dias, bastantes, em que admiro muito mais a osga, do que me tolero a mim.
literatas
rio-me quando elas chegam, cultíssimas, um charme que exala sapiência, mais ou menos discreto, quando puxam a cadeira. nunca se misturam, especiais como sabem que são. reservam as suas palavras aos deuses, não perdem tempo com serviçais, excepto quando lhes batem à porta, rogando migalha. babam, no esplendor das suas capacidades receptoras, mas fazem-no com discrição. são umas senhoras.
eu, como diz o cristiano, estou-me a cagar.
3.11.19
tender potential of masculinity
![]() |
| Denisse Ariana Pérez |
É Denisse quem me remete para O Peixe, curta de Jonathas de Andrade, que me deixa sem palavras...
2.11.19
O que nos condena*
a inevitabilidade da morte do que ainda está por nascer;
descobrir que todas as promessas são frases provisórias
e todas as certezas são meras intenções;
estender as mãos ao vazio e sentir-lhe o bafo gelado;
carregar o segredo da nossa existência;
sentir as lâminas das máquinas que bombeiam o coração;
respirar a ameaça de uma sombra que nos pesa;
o falhanço iminente;
um murmúrio fantasma que nunca se extingue;
o nada, espesso e surdo;
o silêncio branco da luz;
a foice;
a agudez da aflição;
a matança do porco na mesa improvisada;
afogar a criança no saco dos gatos recém-nascidos;
a fuga em sonhos, tentar correr e tropeçar a noite inteira;
um livro raro que não se encontra,
um verso que não se esquece,
a tinta de uma caneta que não se apaga;
o reflexo no espelho;
saber que a pedra quieta pode rolar, que ícaro nunca será a gaivota, que o mundo é o labirinto;
a eternidade da polissemia;
a matemática celestial;
as fronteiras da pele, intransponíveis;
a profundidade imensurável do mar e do centro;
todas as crateras da lua;
as geadas de abril;
o corpo materno que nos enjeita;
a pluviosidade contida pelas barragens internas;
o olhar de um moribundo deitado;
o cheiro a gás;
o gosto a podre;
o riso trocista de uma velha muito velha;
uma fotografia esquecida no casaco de um morto;
uma aliança na gaveta de uma mesinha de cabeceira;
a auto-indução;
um momento parado no tempo que nos persegue;
um espaço desaparecido;
o primeiro beijo;
o último abraço;
saber.
descobrir que todas as promessas são frases provisórias
e todas as certezas são meras intenções;
estender as mãos ao vazio e sentir-lhe o bafo gelado;
carregar o segredo da nossa existência;
sentir as lâminas das máquinas que bombeiam o coração;
respirar a ameaça de uma sombra que nos pesa;
o falhanço iminente;
um murmúrio fantasma que nunca se extingue;
o nada, espesso e surdo;
o silêncio branco da luz;
a foice;
a agudez da aflição;
a matança do porco na mesa improvisada;
afogar a criança no saco dos gatos recém-nascidos;
a fuga em sonhos, tentar correr e tropeçar a noite inteira;
um livro raro que não se encontra,
um verso que não se esquece,
a tinta de uma caneta que não se apaga;
o reflexo no espelho;
saber que a pedra quieta pode rolar, que ícaro nunca será a gaivota, que o mundo é o labirinto;
a eternidade da polissemia;
a matemática celestial;
as fronteiras da pele, intransponíveis;
a profundidade imensurável do mar e do centro;
todas as crateras da lua;
as geadas de abril;
o corpo materno que nos enjeita;
a pluviosidade contida pelas barragens internas;
o olhar de um moribundo deitado;
o cheiro a gás;
o gosto a podre;
o riso trocista de uma velha muito velha;
uma fotografia esquecida no casaco de um morto;
uma aliança na gaveta de uma mesinha de cabeceira;
a auto-indução;
um momento parado no tempo que nos persegue;
um espaço desaparecido;
o primeiro beijo;
o último abraço;
saber.
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