do Pina, meu pai poeta,
Tat Tam Asi
Nós os maus caminhamos em
círculos cada vez mais estreitos
até ao centro de tudo, o silêncio de tudo
(Nada é de mais, porque existe tudo)
Na nossa terrível vigília
cultivamos técnicas mortas,
o pleonasmo, a pura repetição
Aqueles que afirmam tudo
existem já na eternidade
conquistaram a imobilidade e o silêncio
com sábia indiferença são sidos por tudo
manuel antónio pina
aquele que quer morrer (1978)
roubado no canal de poesia
16.11.19
15.11.19
nádegas
Damas, o meu querido Damas, poeta de Monfortinho, hipster a meio-tempo em Alfama, aproveita o momento no Café para me mostrar a nova amizade do facebook. De sua graça Bibi, loura brilhante de nalgueiral volumoso, diz-se terapeuta do corpo e das emoções, uma cuidadora, portanto. Aplaudo a iniciativa com um sorriso matreiro. Damas devolve-me o sorriso, já com os olhos a brilhar. É gira, não é? Muito, respondo sem hesitações. Uma mulher que tem como lema de vida que o que levamos da vida é a vida que levamos, só pode mesmo ser muito gira, meu querido Damas, é avançar.
Frio
A dor de cabeça com quem me deitei não é a mesma que acorda comigo. Esta, mais generosa na sua dádiva, ataca-me as têmporas e magoa-me por detrás dos olhos. Conheço-a. Nasce do frio e aninha-se em mim como um gato feudal. Enquanto a pequena criatura não vem empurrar-me para a vida, fico procrastinando com ela, sentada nesta cadeira.
14.11.19
...
Há dias que são travessias de um deserto tão escuro e sombrio, que nem toda a água que me cobre me poderia limpar o rasto do cansaço. Talvez nem toda a chuva que cai. A pequena criatura, anjo de um morto só meu, pede-me apenas que não desista. Soubesse eu como se foge sem rasto e nem aos mortos pediria perdão.
13.11.19
HSbF₆
peço-lhe que não grite, porque há no grito que os outros me dirigem uma raiva viscosa que se cola à minha voz e me obriga a gritar também. e há veneno na minha boca quando grito, e vidros que me cortam os olhos, e toda a raiva me corrói as paredes do estômago, que continuam a doer. a vida é ácido agora.
...
qué hiciste con tu vida
preguntó Dios
envejecer
respondió ella
con las manos llenas
de tierra
Isabel Lipthay
12.11.19
para a Espiral
o fogo varre o restolho amarelo,
enquanto o vento o empurra e o obriga a rodopiar.
juntos, numa brincadeira de rapazes traquinas,
jogando pião nas esquinas,
galgam o sul da encosta até o dia acabar.
louco e guerreiro,
são espiral de vida e de morte,
ave de fogo renascida das cinzas,
forte, carregando em si um mundo inteiro.
uma mulher de ouro com asas,
segredo maior da antiga alquimia,
uma fita dourada de möbius,
em que o último dia é o primeiro,
infinitamente em sintonia.
enquanto o vento o empurra e o obriga a rodopiar.
juntos, numa brincadeira de rapazes traquinas,
jogando pião nas esquinas,
galgam o sul da encosta até o dia acabar.
louco e guerreiro,
são espiral de vida e de morte,
ave de fogo renascida das cinzas,
forte, carregando em si um mundo inteiro.
uma mulher de ouro com asas,
segredo maior da antiga alquimia,
uma fita dourada de möbius,
em que o último dia é o primeiro,
infinitamente em sintonia.
11.11.19
resgatado à melancolia do dia 31/12/17
And this I dreamt, and this I dream,
And some time this I will dream again,
And all will be repeated, all be re-embodied,
You will dream everything I have seen in dream.
To one side from ourselves, to one side from the world
Wave follows wave to break on the shore,
On each wave is a star, a person, a bird,
Dreams, reality, death—on wave after wave.
No need for a date: I was, I am, and I will be,
Life is a wonder of wonders, and to wonder
I dedicate myself, on my knees, like an orphan,
Alone—among mirrors—fenced in by reflections:
Cities and seas, iridescent, intensified.
A mother in tears takes a child on her lap.
10.11.19
para o Manel Mau-Tempo, Cigano daqui e d'além mar, Octopus de óculos graduados, mas nunca vulgar!
![]() |
| Wu Yung-sen |
No dia seguinte, de manhazinha muito cedo, lá ia o Sr. Polvo no transporte público, de óculos postos e olhos bem abertos. Sim, um polvo pode usar óculos, desde que os segure com um elástico. Entrou a Menina Lulinha, duas paragens à frente, sem olhar para as ameijoas, também ela atenta. Era o início de um belo romance, pensava o Sr. Polvo, ainda havia esperança. Mas com a Menina Lulinha entrara também um choco encorpado, prai um metro e noventa e seis todo ele riscas. Sepia zebrina, apresentou a Menina Lulinha, o meu noivo.
Sr. Polvo engoliu em seco, segurou a lágrima grossa que subiu directa de um dos corações, estendeu o tentáculo mais musculado e cumprimentou o choco encorpado. Não disseram mais nada. Sentiu-se tão idiota que não voltou a apanhar a linha amarela durante o resto do mês. O percurso alternativo obrigava-o a levantar-se uma hora mais cedo, mas nem isso o demoveu. A tristeza voltou mansamente a aninhar-se entre os três corações. Tinha nascido para ser infeliz.
Foi numa daquelas noites sombrias, Sr. Polvo tinha recebido a garrafinha de aguardente de medronhos, que Alexandra do G que lhe tinha enviado, da sua produção caseira. A fogueira que inicialmente se lhe acendia na boca e na garganta depressa tomou conta do corpo todo. Cantou, tocou todas as musicas de Cohen que conhecia, depois gritou, primeiro na cozinha, depois na varanda, quase como um lobo, e amaldiçoou a sua vida até adormecer no sofá. Acordou no dia seguinte com uma dor infernal de cabeça e na ponta dos tentáculos e a boca a saber a papel pardo. Um banho gelado e dois cafés depois, Sr. Polvo, atrasado, correu para o metro. Dois dos seus corações amedrontaram-lhe o passo, e se encontrasse Menina Lulinha com o azeiteiro do Sepia outra vez?, mas o terceiro, talvez um pouco mais jovem e selvagem, empurrava-lhe os tentáculos ressacados em direcção à estação. Não valia a pena levar um raspanete do chefe, o Sr. Gadus Gadidae era muito simpático, mas pouco tolerante com os atrasos. Se a visse, fingia que não a tinha visto e pronto, aconselhou-o o tolo ingénuo do jovem coração.
Ainda mal se tinha ajeitado ao banco e já o telemóvel, perdido em um dos mil bolsos, tremia como uma máquina de lavar em centrifugação. Sr. Polvo, cuja indisposição ainda lhe magoava os olhos à luz da manhã, nem se preocupou em procurar o maldito. Alguma factura em atraso, aposto, pensou, e encostou a cabeça contra no vidro, preparando-se para adormecer. Ao seu lado, três sardinhas novinhas teclavam afincadamente. Foi quando o telemóvel tremeu outra vez, ele meio estremunhado, que se assustou e deu um salto no banco. Felizmente, as sardinhas, entretidas com a sua intensa vida digital, nem se moveram, tão-pouco riram, e por isso ele quase nem se envergonhou. Procurou atabalhoadamente o aparelho, com a força do medronho, todos os tentáculos se trocavam ainda, e quando finalmente o encontrou deu conta que já tinha vinte e cinco notificações no ecrã... do tinder...?!
Mas como assim, do tinder?! Sr. Polvo nunca se tinha inscrito na app, nem sequer a tinha instalada no telemóvel. O cérebro, mole como papa cerelac, não ajudava. Sugeria-lhe todas as possibilidades, mesmos as mais descabidas e assustadoras, Alguém entrou em casa durante a noite! A vizinha do 5º clonou-te o telemóvel, eu disse-te que as pescadas têm maus fígados! Não, espera, deves ter um vírus no telemóvel! Porra, eu disse-te para não veres aqueles filmes aí! Aaahhhh! E agora?! Sr. Polvo transpirava, uma das sardinhas, a que estava sentada à sua frente, olhava-o fixamente. Tentou acalmar-se, respirando lentamente como ana o tinha ensinado na terapia.
Tudo isto não demorou mais de um minuto, embora na cabeça deste tonto Octopus vulgaris, o tempo fosse difícil de medir. Tomado finalmente pela curiosidade, desbloqueou o ecrã e começou a ler. Tinha sete correspondências!! Sete criaturas marinhas que tinham visto o seu perfil e tinham deslizado o dedo para a direita! Mas que perfil? Se ele nunca tinha usado o tinder... Ah! Lembrou-se! De certeza que algum outro Polvo se tinha enganado a digitar o número de telefone e daí a confusão. Mas não! Que estúpido, isso não podia ser. Claro que não pode ser, seu idiota!, grita-lhe o cérebro gelatinoso. Deves ter instalado isso ontem à noite, seu pobre bêbado! Nunca tinha sido meigo consigo mesmo, mas a ressaca piorava exponencialmente os maus fígados aos miolos.
Decidiu procurar o ícone da aplicação e clicou, a conta de email e a password já estavam gravadas, entrou de imediato.
Nome: Conde de Trovisco e Além-Mar
Ocupação: Sou conde, mas pouco, vivo como octopus vulgaris nos arredores de Cephalopoda e cultivo majericão e tomatinhos na varanda cá de casa. O meu sonho é ser pastor e ter um rebanho de filhos também. Tenho três corações para amar em todas as dimensões e oito tentáculos para dar muito prazer (emoji envergonhado). Não sou rico, mas dou-me sempre por inteiro, não cobro nada.
Foi numa daquelas noites sombrias, Sr. Polvo tinha recebido a garrafinha de aguardente de medronhos, que Alexandra do G que lhe tinha enviado, da sua produção caseira. A fogueira que inicialmente se lhe acendia na boca e na garganta depressa tomou conta do corpo todo. Cantou, tocou todas as musicas de Cohen que conhecia, depois gritou, primeiro na cozinha, depois na varanda, quase como um lobo, e amaldiçoou a sua vida até adormecer no sofá. Acordou no dia seguinte com uma dor infernal de cabeça e na ponta dos tentáculos e a boca a saber a papel pardo. Um banho gelado e dois cafés depois, Sr. Polvo, atrasado, correu para o metro. Dois dos seus corações amedrontaram-lhe o passo, e se encontrasse Menina Lulinha com o azeiteiro do Sepia outra vez?, mas o terceiro, talvez um pouco mais jovem e selvagem, empurrava-lhe os tentáculos ressacados em direcção à estação. Não valia a pena levar um raspanete do chefe, o Sr. Gadus Gadidae era muito simpático, mas pouco tolerante com os atrasos. Se a visse, fingia que não a tinha visto e pronto, aconselhou-o o tolo ingénuo do jovem coração.
Ainda mal se tinha ajeitado ao banco e já o telemóvel, perdido em um dos mil bolsos, tremia como uma máquina de lavar em centrifugação. Sr. Polvo, cuja indisposição ainda lhe magoava os olhos à luz da manhã, nem se preocupou em procurar o maldito. Alguma factura em atraso, aposto, pensou, e encostou a cabeça contra no vidro, preparando-se para adormecer. Ao seu lado, três sardinhas novinhas teclavam afincadamente. Foi quando o telemóvel tremeu outra vez, ele meio estremunhado, que se assustou e deu um salto no banco. Felizmente, as sardinhas, entretidas com a sua intensa vida digital, nem se moveram, tão-pouco riram, e por isso ele quase nem se envergonhou. Procurou atabalhoadamente o aparelho, com a força do medronho, todos os tentáculos se trocavam ainda, e quando finalmente o encontrou deu conta que já tinha vinte e cinco notificações no ecrã... do tinder...?!
Mas como assim, do tinder?! Sr. Polvo nunca se tinha inscrito na app, nem sequer a tinha instalada no telemóvel. O cérebro, mole como papa cerelac, não ajudava. Sugeria-lhe todas as possibilidades, mesmos as mais descabidas e assustadoras, Alguém entrou em casa durante a noite! A vizinha do 5º clonou-te o telemóvel, eu disse-te que as pescadas têm maus fígados! Não, espera, deves ter um vírus no telemóvel! Porra, eu disse-te para não veres aqueles filmes aí! Aaahhhh! E agora?! Sr. Polvo transpirava, uma das sardinhas, a que estava sentada à sua frente, olhava-o fixamente. Tentou acalmar-se, respirando lentamente como ana o tinha ensinado na terapia.
Tudo isto não demorou mais de um minuto, embora na cabeça deste tonto Octopus vulgaris, o tempo fosse difícil de medir. Tomado finalmente pela curiosidade, desbloqueou o ecrã e começou a ler. Tinha sete correspondências!! Sete criaturas marinhas que tinham visto o seu perfil e tinham deslizado o dedo para a direita! Mas que perfil? Se ele nunca tinha usado o tinder... Ah! Lembrou-se! De certeza que algum outro Polvo se tinha enganado a digitar o número de telefone e daí a confusão. Mas não! Que estúpido, isso não podia ser. Claro que não pode ser, seu idiota!, grita-lhe o cérebro gelatinoso. Deves ter instalado isso ontem à noite, seu pobre bêbado! Nunca tinha sido meigo consigo mesmo, mas a ressaca piorava exponencialmente os maus fígados aos miolos.
Decidiu procurar o ícone da aplicação e clicou, a conta de email e a password já estavam gravadas, entrou de imediato.
Nome: Conde de Trovisco e Além-Mar
Ocupação: Sou conde, mas pouco, vivo como octopus vulgaris nos arredores de Cephalopoda e cultivo majericão e tomatinhos na varanda cá de casa. O meu sonho é ser pastor e ter um rebanho de filhos também. Tenho três corações para amar em todas as dimensões e oito tentáculos para dar muito prazer (emoji envergonhado). Não sou rico, mas dou-me sempre por inteiro, não cobro nada.
Procuro companheira para partilhar a vida, os dias e as noites, o sol e a chuva, a mesa, a cama, o chão, o pão e a fruta, os beijos e os abraços, os malteseres e as ovelhas-do-mar. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Procuro uma companheira para não enlouquecer, para contar o que vi de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Que piegas, grita-lhe o cérebro, e roubaste metade da lamúria a um poeta!, mas por essa altura já os três coração galopavam como cavalos. Aquele perfume inconfundível a gelado de baunilha a aflorar-se-lhe no palato... ela estava por perto. Bloqueou. Rodava o pescoço e procurava-a ou não? E se estivesse outra vez com aquele Sepia cheio de gel na cabeleira? O que lhe diria? Afinal ela estava noiva, noiva!, ia casar. A pequena trovoada dentro do seu cérebro aos gritos, iluminava-lhe a fronte. As sardinhas deixaram de teclar e apontaram-lhe o telemóvel à cara, excitadíssimas, preparavam-se para fazer um live!
Sr. Polvo, Conde de Trovisco e Além-Mar, em pânico, procurava uma saída, mas o barulho dos passageiros, juntamente com o chiar dos travões da carruagem e a dor de cabeça, não o deixavam pensar. Só lhe resta uma solução, é terrível, mas tem de ser. As sardinhas já guincham para a câmara do telemóvel, numa antecipação do momento bizarro que vão partilhar, rindo alto como enguias. Sr. Polvo, octopus encurralado, mas não vulgar, vomita toda a tinta escura que pode e foge aflito, sem se voltar. Que vergonha, julga que vai morrer, soluça enquanto corre, a tinta fá-lo chorar.
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