31.1.20

leninha

viste o meu gato, pergunta-me ela, de repente, atrás de mim. quase tropeço na rapariga à minha frente, junto à vitrina dos bolos, mas lá me consigo segurar. a leninha já é conhecida aqui no bairro. jovem nos seus vinte, tem síndrome de down e adora fazer perguntas. no início, não sabia bem o que havia de lhe responder, sempre que ela me apanhava no café. a senhora da caixa lá me salvava, tomando ela as rédeas da conversa. com o tempo, comecei a saber conversar com a leninha, percebi que a melhor resposta às suas perguntas, era uma nova pergunta. assim a leninha parava para pensar e ia avançando na história com algumas informações. a leninha tem uma pureza que às vezes ainda me desarma.
não, não vi, onde o deixaste? 
o meu gato? o meu gato ficou em casa. tu queres ir à minha casa?

30.1.20

E foi então que apareceu a raposa:

às vezes a única solução é caminhar em direcção ao embate. calha doer menos, sendo o golpe mais rápido, do que viver segurando as pontas rasgadas de um lençol. ao menos descobres se é medo ou cansaço, diz a raposa.

29.1.20

coronavírus ainda

há dias assim, em que a beira do precipício está logo ali, a um passo de uma torrente de lágrimas ou um desespero gritado asperamente, e há-os para toda a gente, não são da minha exclusividade. mas hoje, por mero acaso, vi um vídeo onde chineses quarentenados de Wuhan, o epicentro do vírus, gritavam palavras de apoio à janela, encorajando os vizinhos a resistir ao medo e ao isolamento, e emocionei-me. muito. os problemas não desapareceram de cima da minha secretária, mas a dor de cabeça abrandou.

25.1.20

coronavírus

o chinês que vive ilegalmente no prédio, responde ao meu cumprimento de forma ainda mais apressada do que o costume. tenho a certeza de que já começou a sentir os olhares recriminadores dos que o julgam hospedeiro do novo vírus. recordo muitas vezes uma cena que vi acontecer no Museu do Oriente, quando a gripe era das aves. um indonésio, - os europeus gozam com os americanos, mas não são muito melhores a identificar asiáticos -, espirrou, a sua face denotava fraqueza, e todos os que o acompanhavam fugiram alguns metros, assustados. o rapaz já tinha dito que estava constipado, tanto quanto me lembro, mas o medo é uma arma poderosa para a sentença rápida e a dúvida estava instalada. atravessei a sala, sem pensar, e estendi-lhe um lenço, depois uma garrafa de água. nunca esqueci o seu olhar, agradecendo muito mais do que o lenço, a confiança, o amparo.
num mundo que queremos cada vez mais global, não há culpados, apenas viajantes.

joaquim ornitólogo

Angela Moulton


aos sábados nunca encontro o joaquim, por mais voltas que dê ao parque. não que tenhamos conversas muito profícuas, a não ser que algum pássaro corra veloz por ali perto. quando isso acontece, joaquim roda imediatamente o corpo, coloca a mão em pala e, por de trás de meio metro de vidro, pisca os olhos várias vezes, tentando enganar as dioptrias. sem os binóculos é difícil, justifica-se. eu solidarizo-me com a falta e clamo vivaz: claro que é, joaquim! 
falamos pouco, mas entendemo-nos nos pontos fundamentais de uma caminhada matinal; joaquim, tal como eu, prefere falar com os bichos e tagarela com os cães de forma admirável. como aproveita para tomar o pequeno-almoço no parque, uma sandes gigante enrolada em papel de prata, garante sempre a atenção dos seus interlocutores. 
nada sei sobre o joaquim, para além do seu trabalho na junta e o seu gosto pela observação das aves. introvertido, esconde o corpo balofo em roupas largas e tem cabelo oleoso. com excepção do grupo dos domingos, que percorre as serras circundantes em busca de passarada, não lhe conheço mais nenhum passatempo. na minha arrogância de rapariga comum, espanto-me por ainda assim o joaquim ter mais vida social do que eu.  

24.1.20

és tão terno e tenro

és tão terno e tenro
e eu dessossava-te com mil cuidados,
os ossos bem chupados
e roía-te as cartilagens.

enchia a barriga de misérias,
um caldinho com as carnes superiores,
as coxas era à dentada,
fritas em cebolada,
um quartilho de vinho
para matar as bactérias.

os miolos e os miúdos,
refeição gourmet à luz da vela,
eram picados aos bocadinhos,
um sopro de pimenta,
uma pitada de sal
e picante à cautela.
e no fim da bebedeira, ainda haveria maneira
de provar que o crime
fora afinal
refeição passional.

23.1.20

I can't love you anymore /Any more than I do

Bebe Daniels






eram os roaring twenties, onde a liberdade parecia tomar conta até do corpo, que se libertou do espartilho e das curvas asfixiantes, para respirar e dançar o charleston de mãozinhas a abanar e as pernas à mostra.

procuro réstia desses loucos anos vinte, nestes em que agora estamos, e nada que valha, tudo tão sombrio. tudo tão vazio. preciso de música e champanhe.

22.1.20

ice burn

Bruce Boyd









eu sei que não pode ser apenas dos pés frios como blocos de gelo, mas finjo que não sinto mais nada, vocifero alto o calão das tabernas e cerro os dentes para não chorar. 
minto, omito, disfarço. a pele gelada dói, rebentam frieiras nas mãos, fissuras, pruridos, os lábios rasgam-se e sangram. 
tolhida, queimo-me em desespero.

18.1.20

bando de asas negras

Bradford Martin


um bando de corvos brinca no prado do homem, logo pela manhã. no mesmo sítio onde vi as garças-boieiras, divertem-se agora os festivaleiros góticos, em voos curtos de pousa-levanta.
quando joaquim ornitólogo, auxiliar da junta de freguesia, me convidou para me juntar ao grupo de birdwatchers dos domigos, justifiquei a recusa com a falta de material apropriado. ambos sabíamos que eu estava a mentir, tenho uns velhinhos binóculos que de vez em quando ainda carrego no bolso e ele já os viu. mas observar os pássaros é algo que gosto de fazer sozinha, mirá-los enquanto me apetece, imaginar-lhes dramas e novelas, enlevar-me com a beleza dos seus voos, admirar-lhes a delicadeza das formas, rir-me das suas traquinices, coisa em que as pegas-rabudas são mestres, acreditem no que vos digo. dos corvo, reais ou imaginados, sei da inteligência, da autoconsciência e da possibilidade de assassinar. fascina-me semelhante criatura. tudo isto, perdoa-me joaquim, não o poderia ter elaborado, se ao meu lado palmilhassem o carreiro mais uma dezena de alminhas.

11.1.20

e será como se nunca tivesse existido.