14.2.20

O único amigo que tenho

Funguei compridamente.
-- Não faz mal, eu vou matar ele.
-- Que é isso, menino, matares teu pai?
-- Vou sim, eu até que comecei. Matar não quer dizer a gente pegar o revólver de Buck Jones e fazer Bum! Não é isso. A gente mata no coração. Vai deixando de querer bem. E um dia a pessoa morreu.
-- Mas tu também disseste que me matavas?
-- Disse no começo. Depois matei você ao contrário. Fiz você morrer nascendo no meu coração. Você é a única pessoa que eu gosto, Portuga. O único amigo que tenho.


Meu Pé de Laranja Lima, José Mauro de Vasconcelos

do amor

apaixonei-me por esta magnolia x soulangeana...

Flor

13.2.20

azul profundo

No tengo miedo ni esperanza. Desde un hotel exterior al destino, veo una playa negra y, lejanos, los grandes párpados de una ciudad cuyo dolor no me concierne.

Vengo del metileno y el amor; tuve frío bajo los tubos de la muerte.

Ahora contemplo el mar. No tengo miedo ni esperanza.


Livro do Frio, Antonio Gamoneda

12.2.20

11.2.20

diagnóstico

- e esta dor, doutor, este aperto no peito, este sufoco, esta aflição?

- respire fundo mais uma vez,
isso, menina, são apenas os músculos intercostais superiores em tensão.

joaquim ornitólogo

Heike Kuzminski


começo a habituar-me a vê-lo sentado no banco do costume, debicando a sandes do pequeno-almoço, sempre embrulhada em papel de prata. o caixote do lixo andante, de um verde escuro imaculado, fazendo-lhe companhia, ninguém por perto para incomodar. talvez por pudor, também eu não me atrevo a seguir em frente pelo carreiro e escolho virar a direcção. se joaquim escolhe o banco mais afastado do jardim, por alguma razão há-de ser.

que estranhos seres humanos somos, evitando cruzar caminhos, fugindo uns dos outros, talvez temendo encontrar-nos a nós mesmos.

9.2.20

o dia dos felinos

Neste que agora é dia santo todas as semanas, são Corto Gatês e Marlon Brando os abençoados com uma manhã de aventuras e descobertas pelas salas do castelo. Como qualquer outra espécie no seu habitat natural, observo de longe para não interferir na conduta dos bichos (bem... excepto quando o artista do Marlon Brando decide peneirar as suas valentes garras na pele falsa do sofá, aí, por mais Attenborough que seja a minha veia, grito imediatamente um Sai daí, parvalhão!).
Enquanto os felinos vão vasculhando a selva em que se tem transformado esta casa, ouço tiros perto e lembro me do Joaquim ornitólogo, será que se atreve aos montes com tanto bêbado de espingarda nas mãos?
Marlon Brando, vendo me sentada na cadeira do descanso, enquanto a louça espera na pia, decide ajudar me a continuar o ócio por tempo indeterminado, aninhando se nas minhas pernas. Maldito felino sedutor...

Marlon Brando by Flor

8.2.20

amém!

que todos os passos atrás sejam sempre para tomar balanço, reza Bartolomeu.

7.2.20

competências

A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito.
Bartolomeu recorda as palavras de Machado de Assis, para dar início ao discurso fatigado. a mim pouco me importa a conversa, um desperdício de tempo, chorar sobre o leite derramado, quando o mais lógico é ir buscar rapidamente uma esfregona. 

do Bando


Bronagh Kennedy 


Lily, a última a juntar-se ao bando, depois do segundo choro, diz-nos que já não é feliz ali. apanhados de surpresa, vacilámos, abrimos os olhos e escancarámos a boca, mas, o que dizer? 
se já não és feliz, deves partir, Lily.