1.8.21

agosto, em tons de rosa, pela manhã

 


e agora

com travo na boca a café,

vou deixar-te o Pina, 

antes de encostar a porta,

para que não digas que não me despedi.



Perde-se o corpo na inabitada casa das palavras,

nas suas caves, nos seus infindáveis corredores;

pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja,

na ausência das palavras calar-se.

Não, com nenhuma palavra abrirás a porta,

nem com o silêncio, nem com nenhuma chave,

a porta está fechada na palavra porta

para sempre.

O azul é uma refracção na boca, nunca o tocarás,

nem sob ele te deitarás nas longas tardes de Verão

como quando eras música apenas

sem uma casa guardando-te do mundo.


|Uma Casa|

31.7.21

Si me ves por alguno de tus pensamientos, abrázame, que te extraño, meu querido Julio.

 

Júlio Cortázar e Flanelle

Julho termina hoje e eu sem lhe tocar. 

25.7.21

está a fazer-se cada vez mais tarde

Tabucchi, Tabucchi, saber que andamos tão perto e afinal eu nem te conhecia.  Doravante, dormirás comigo.

Bando

manhã bem cedo, em coro.

24.7.21

...

Tinha desejado ter-te já conhecido, quando te conheci, e terá sido porventura este, até agora, o meu desejo mais oculto.


Está a fazer-se cada vez mais tarde, Antonio Tabucchi

...

A lembrança da tua cona (desculpa insistir nesse cruento pormenor anatómico) desdobrou-se subitamente à minha frente, se assim o posso dizer, talvez de forma sacrilégia, não o nego, atendendo ao sagrado do lugar, por abandonado que estivesse. E ao contrário de Kazantzakis, percebi que não era livre. Melhor, estava prisioneiro de mim próprio. E sobretudo já não era jovem, ou pelo menos tão jovem como quando te conheci. Mas pareceu-me perceber mais, bastante mais. Estranhas, certas associações de ideias: por exemplo, que aquela tua greta seria não só uma espécie de vórtice onde gostaria de voltar a penetrar, porque ela tinha sido para mim um lugar de inefável prazer (demasiado fácil), mas efectivamente uma possível via de regresso ao imemorável, à origem do mundo, como diria o engenhoso pintor, mais além, mais e mais além, até atingir a origem das coisas, a natureza mononuclear, melhor, a bactéria, melhor, o aminoácido, melhor, o Verbo, que deve ser a metáfora suprema do aminoácido.

 

Está a fazer-se cada vez mais tarde, Antonio Tabucchi

...

Terei apanhado o universo em loop, quando levantei a cabeça do livro pela segunda vez e olhei ao fundo, a pequena estrada de terra entre as vinhas extensas, e vi novamente os dois ciclistas?

As mesmas roupas, a mesma posição. 

Que diabo se passa? 


Tento uma terceira vez, mas agora, mais atento e quem sabe espiando os meus pensamentos, o universo volta à sua pasmaceira habitual, duas pessoas caminham, uma mais alta do que a outra, o que me deixa alguns segundos a ponderar se serão mãe e filho ou filho e mãe. A pessoa mais baixa move-se devagar, eis o germinar da minha dúvida. Felizmente, um outro ciclista passa, agora de laranja e não de azul, e percebo que o universo não se desnudou sem querer, nem eu estou tão ausente como me sinto, é apenas uma corrida de bicicletas.

...

Eu tinha-te dito: agora acabou-se. Mas sem to dizer, porque também o silencio é cársico. Cuidavas que eu tivesse desaparecido? E desapareci, de facto, ao ficar ali, como no nada, suspenso e meio perdido. Encontrava-me agora num lugar qualquer, bem distinto desse outro, majestoso, de que te falei há pouco: uma garganta entre os montes com escassas oliveiras, e moitas silvestres que florescem na altura própria. De quando em quando pensava no feitio da tua greta, e via-a como que enquadrada na paisagem: o pequeno clítoris escondido debaixo dos grandes lábios, e depois a púbis vasta, que se abre como uma arbusto até ao baixo-ventre.

Assim sendo, eu estava longe, nesse entretanto, o que é fundamental para se perceberem as coisas que não se entendem, e era grande a solidão, lá entre os montes. Entrei numa taberna que se chamava Antartes, que em grego significa guerrilheiro, e era também esse o meu sentimento, o de alguém que vive escondido no mato e combate, mas contra quem?, pensava eu, ora, contra as coisas, já se sabe, contra tudo, quero eu dizer, porque aos poucos a vida vai-se enchendo e inchando sem se dar por isso, mas é uma intumescência excedente, como um quisto ou um caos, e a  certa altura esse conjunto de coisas, de objectos, de recordações, de ruídos, de sonhos ou entre-sonhos já não nos diz nada, é tão-só um rumor indistinto, um sufoco, um soluço que não sobe nem desce, e estrangula.


Está a fazer-se cada vez mais tarde, Antonio Tabucchi

...

Como gostariam deste lugar certos poetas que conhecemos, de tão agreste, essencial, feito de pedras, outeiros calvos, espinheiros e cabras. Cheguei mesmo a pensar que esta ilha não existe, e que a teria encontrado só porque a tinha imaginado. 


Está a fazer-se cada vez mais tarde, Antonio Tabucchi

21.7.21

réptil




folheio Edward Weston a preto e branco, pousado na mesa de centro. talvez o meu corpo tivesse gostado de se desnudar à sua lente, nas areias quentes do deserto de mojave. há sempre um exibicionismo alegórico, carnal, na geometria angulosa das grandes pedras quentes.

19.7.21

Houston, we have a problem! (capítulo 2)

isto é bicho munto 'sperto, menina! num vamos lá com raminhos de hortelã! o cabrão ainda vem cagar aqui! e desculpe lá a linguagem.

a dona está furiosa, deixou me tentar primeiro com hortelã, cujo cheiro dúzias de entradas no google me dizem que é tiro e queda, tudo faz-de-conta, bem de certo, para afastar a ratada da cozinha. não tendo óleo de hortelã, improvisei com raminhos da mesma. mas o universo, em forma de pequenos cilindros de cocó de rato ao lado da hortelã, devolveu me o gesto com uma bela lambada de merda. 


ok, dona, avance lá com o veneno, mas cuidado onde o põe e use umas luvas.

ó menina, 'steja descansada, que disto percebo eu. e vai ver que o caçamos!


espuma de felicidade pelos olhos, a dona, não a imaginava um carrasco tão feliz. já eu não me alegro. os ratos do campo, ou mesmo os os ratos domésticos, são bichos peludinhos e inteligentes. matá-los não me parece certo, infelizmente, a dona da bata às riscas não me deixa tentar a segunda opção da minha lista desejos de miss mundo: paz na terra e trazer uma cobra para equilibrar a fauna cá de casa.

“Os morcegos são talvez os animais tratados da forma mais injusta no planeta”

Concordo, Rodrigo. Suspeito até que a maioria da gente, se vir um morcego voando sobre a sua cabeça, acredita que o pobre lhe quer chegar ao pescoço para lhe chupar o sangue. Nem o Conde tinha tão fracas maneiras. 

14.7.21

"A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver, nem morrer, e cuja atenção nunca se afasta dessa dupla impossibilidade."

vejo a triste. fala me da solidão, mesmo tendo marido, filho e netos e de às vezes pensar que mais valia beber o veneno dos ratos, que não anda cá a fazer nada, nem fará falta a ninguém. assim, sem vergonha, como se vidas como a sua fossem apenas enganos de contabilidade. reajo finalmente, sirvo me de frases feitas, digo lhe que ideias negras todos nós temos, especialmente agora,  afastados uns dos outros. só não lhe digo que as minhas aparecem muitas vezes quando me aproximo das pontes nas autoestradas. de que adiantaria?

12.7.21

memento mori

não digo que o vírus não seja assustador, tudo o que nos mata é assustador, mas é o cancro que me rodeia, que me leva conhecidos, familiares e amigos. e não pára. e no entanto, caímos na apatia de aceitar a falha colossal dos serviços de saúde, onde a falta de recursos e a burocracia kafkaniana sugam qualquer possibilidade, resignando-nos ao fado de ser português. 

«está tudo nas estrelas!»

enviou mensagem dizendo que me ia deitar as cartas. que está tudo nas estrelas e que o meu signo não vive bem sem estabilidade. que é preciso equilibrar a vida e alinhar os chakras. fico contente que a mensagem tenha vindo escrita, fosse a M. a ligar e eu ter-me-ia embalado na sua voz de hipnotizadora das televendas e estaria já a caminho da via láctea. 

11.7.21

à noite, só os sussurros do vento e o piar dos mochos.

longe do olhar manso e do pensamento reflexivo do Sr. Palomar, eu sou aquela que vocifera mentalmente contra todos os transeuntes, quando decide descer a ladeira até ao rio. hoje foram as adolescentes e as suas gargalhadas ruidosas com cheiro de chamon. se ao menos as nuvens escuras chovessem alguma coisa. a falta que me faz o silêncio.

mais frágil do que um cristal, mais suja do que um farrapo

Basta que uma fechadura não abra, as mãos cada vez mais trôpegas, a raiva quente na cara, e quebro, as lágrimas vêm em catadupa. Claudina diz me que estou exausta emocionalmente e tenta abraçar me. Chora, desabafa, repete, e é quanto basta para me recompor. Afasto a gentilmente, falo das hormonas e daquela altura do mês e volto à fechadura enferrujada.

10.7.21

Estimada Mãe Preocupada,

nunca nego a mão a uma flor, seja ela das de pêlo na venta ou nariz empinado. se a Mãe botasse imagem, era tudo mais fácil, mas entendo, recusa-se a mostrar a pobre em agonia, onde a pouca beleza que tinha já não reside.

será que fala do fungo Botrytis?

Houston, we have a problem!

ai, menina!!, 

o que foi, dona?! [ó porra, queres lá ver que lhe está a dar uma coisinha má!]

ai, menina, que tem aqui um 31!

[respiro de alívio] o que foi, dona? que me assustou, pensei que se estava a sentir mal!

não senhora, eu estou rija, a menina é que tem aqui um problema! eu bem lhe disse que tinha de arranjar mais gatos. casa sem gato é casa de rato!

ratos?!

sim senhora! ólarilas! tem aqui a gaveta das farinhas cheia de caganitas.

hum... deite isso tudo fora, acho qu'isso até já está fora de validade.

eu deitar deito, mas isso não mata o rato. é preciso comprar veneno.

nem pensar! na minha casa não, dona, não quero cá venenos.

pois foi por isso que lhe falei de arranjar mais gatos. daqui amanhã até cobras cá entram! ai jesus!...

vou pensar nisso, dona. mas não me mate o Mickey, 'tadinho. 

ai não que não mato, ele que me passe à frente, que vai ver! num quero cá bicharada desta.

[ri-me. se a dona soubesse que ainda há dias vi uma sibilante nos seus banhos de sol, na esquina do palácio...]

puff! foi-se. morreu de irritação.

ninguém morre de enfarte no miocárdio, enquanto assiste ao um filme sobre si, Boris, por mais ruinzinho que seja!, apeteceu-me gritar, mas depois lembrei-me do Alface*.


*neste caso, na paz do senhor, sem irritações e de avc. eu sei, não é bem a mesma coisa, mas lembrei-me, que querem? estar toda a gente ali por causa de nós e puff, ficam feitas as despedidas.

8.7.21

L'amour, c'est toi entre mes bras.

Boris Vian entrou sozinho, só mais tarde dei conta que o acompanhava Ursula Kübler, a sua última esposa. bonita, esguia e de olhar desconfiado, lembrou-me de imediato uma gazela em alerta. Boris procurava um livro qualquer, antigo, mas não ouvi o nome, nem ele sabia ao certo o autor. ria alto, um riso sedutor e quente que derretia descaradamente a menina do balcão. Ursula parecia não se importar, ia circulando devagar na zona da literatura de viagem, pegando ora num ou outro livrinho exposto e lendo a contracapa. de todo o universo possível de gente famosa da minha biblioteca, não era Boris que esperava encontrar, ou pelo menos, não sem o seu trompete brilhante, trauteando j'suis snob... ler mais de duas páginas seguidas tornou se tarefa impossível faz já algum tempo, como se a massa cinzenta se tivesse liquidificado, bandeando dentro da minha cabeça. a música, transformada em som ambiente ao qual não se dá demasiada importância, é por agora a companhia diária. Boris saiu pouco tempo depois, de mão dada com Ursula, para tristeza da menina da caixa, que mesmo assim permanecia de rosto corado, oferecendo-lhe o sorriso inteiro. Un café, mon amour? é a última coisa que lhe ouço dizer. As três, aposto, dissemos que sim.

29.6.21

?

Maria Caruncho e Sara Pinote cruzaram-se na rua, pelas 9:32 desta manhã, mas nenhuma delas se apercebeu  deste facto. Não se conhecem, não existem na vida uma da outra, embora - mais uma vez, sem nenhuma delas saber - as suas vidas já se tenham cruzado antes.

Onde, pergunto-vos.


{se nenhum de vós me responder, ó meia dúzia de leitores, lá terei de encher a caixa de comentários em modo anónimo, como faziam as bloggers famosas de antigamente, quando queriam engajamento nos grandes temas...}

28.6.21

You better not never tell nobody but God. It’d kill your mammy

com o celeiro vazio, sem o cultivo da terra, onde faltou o cereal e quem cuidasse dele, também abandonamos a criação de plumas. os estábulos precisam de manutenção, mas decidimos deixá-los cair. a decadência não chegou apenas às paredes velhas dos barracões, cada um de nós, à sua maneira, desistiu de si mesmo e dos outros e deambula pela casa, fugindo às moscas e ao calor.

27.6.21

a felicidade está nas vossas mãos, diz ela, radiante, como uma boa comercial de energias. eu magoo as minhas para saber se ao menos ainda sentem dor. será que a felicidade se lê nas linhas das palmas? o meu pai sempre me disse que eu era uma pessoa muito carente. ou talvez não tenha dito, imaginei, projecto diálogos com os mortos na parede do quarto estéril. ouves-me, desse lado do universo, debaixo da terra?

 post vazio

que tristeza é ser triste e vir chorá-lo em frente a toda a gente

os dias são feitos de noites intermináveis

de canções que se enroscam ruidosamente ao corpo  

e eu trago o inverno a respirar-me junto à face  

trago as mãos rasgadas  

sem bolsos onde se encolherem de frio  

é mais do que certo:  

se te visse regressar manhã dentro  

não sobraria apenas a geometria das árvores em redor do coração


Ana Caeiro