16.11.19

o desafio insano

foi insano, emotivo, assustador, engraçado, saudosista, às vezes mal conseguido, mas sempre escrito com a melhor das intenções, chegar a vós, tocar-vos, agregando as vossas palavras.

grata a todos os que quiseram fazer parte.






noname - texto 

luis & alexandra - texto

susana - texto

sónia - texto

ujm - texto

ana p - texto

janita - texto

maria eu - texto

paula - texto

impontual - texto

linda blue - texto

lucio ferro - texto

luisa - texto

tétisq - texto

ana - texto

~cc~ - texto

alexandra - texto

mau-tempo - texto

espiral - texto

be - texto


e assim se festejou o quinto aniversário do tasco.

para a Be

se tu fosses outro,
dizem-me algumas pessoas, compadecendo-se,
talvez pudesses ser alguém no mundo,
e eu cansada respiro fundo
e abraço me por dentro em segredo.
as pessoas continuam, julgando dar-me a salvação,
embora eu não queira ouvi-las, nem lhes tenha feito perguntas,
tantas vezes nem saiba sequer quem são,
que se tu fosses outro, tudo seria mais fácil,
diferente, haveria tranquilidade,
exemplificam com a norma-padrão
e a harmonia familiar.
se tu fosses outro, insistem,
até que eu as mando calar.
eu não quero que tu sejas outro,
nem tu precisas de o ser. não há nada de errado contigo,
és um ser humano perfeito, como eu
e elas,
repleto de imperfeições, e a única coisa que espero,
de todas as lutas que irás travar ao longo da vida,
de todas as dúvidas que te possam surgir,
é que nunca queiras ser um outro alguém,
porque eu,
meu macaquito lindo,
nunca quis ser de outro mãe.


/para a Be, mãe guerreira e mulher bonita, blogger que guardo no coração/

tat tvam asi, you are that

do Pina, meu pai poeta,

Tat Tam Asi

Nós os maus caminhamos em
círculos cada vez mais estreitos
até ao centro de tudo, o silêncio de tudo

(Nada é de mais, porque existe tudo)
Na nossa terrível vigília
cultivamos técnicas mortas,
o pleonasmo, a pura repetição

Aqueles que afirmam tudo
existem já na eternidade
conquistaram a imobilidade e o silêncio
com sábia indiferença são sidos por tudo



manuel antónio pina
aquele que quer morrer  (1978)

roubado no canal de poesia

15.11.19

nádegas

Damas, o meu querido Damas, poeta de Monfortinho, hipster a meio-tempo em Alfama, aproveita o momento no Café para me mostrar a nova amizade do facebook. De sua graça Bibi, loura brilhante de nalgueiral volumoso, diz-se terapeuta do corpo e das emoções, uma cuidadora, portanto. Aplaudo a iniciativa com um sorriso matreiro. Damas devolve-me o sorriso, já com os olhos a brilhar. É gira, não é? Muito, respondo sem hesitações. Uma mulher que tem como lema de vida que o que levamos da vida é a vida que levamos, só pode mesmo ser muito gira, meu querido Damas, é avançar.

Frio

A dor de cabeça com quem me deitei não é a mesma que acorda comigo. Esta, mais generosa na sua dádiva, ataca-me as têmporas e magoa-me por detrás dos olhos. Conheço-a. Nasce do frio e aninha-se em mim como um gato feudal. Enquanto a pequena criatura não vem empurrar-me para a vida, fico procrastinando com ela, sentada nesta cadeira.

14.11.19

...

Há dias que são travessias de um deserto tão escuro e sombrio, que nem toda a água que me cobre me poderia limpar o rasto do cansaço. Talvez nem toda a chuva que cai. A pequena criatura, anjo de um morto só meu, pede-me apenas que não desista. Soubesse eu como se foge sem rasto e nem aos mortos pediria perdão.

13.11.19

HSbF₆

peço-lhe que não grite, porque há no grito que os outros me dirigem uma raiva viscosa que se cola à minha voz e me obriga a gritar também. e há veneno na minha boca quando grito, e vidros que me cortam os olhos, e toda a raiva me corrói as paredes do estômago, que continuam a doer. a vida é ácido agora.

...


qué hiciste con tu vida

preguntó Dios

envejecer

respondió ella

con las manos llenas

de tierra


Isabel Lipthay

12.11.19

...



[obrigada, vidro azul]

para a Espiral

o fogo varre o restolho amarelo,
enquanto o vento o empurra e o obriga a rodopiar.
juntos, numa brincadeira de rapazes traquinas,
jogando pião nas esquinas,
galgam o sul da encosta até o dia acabar.
louco e guerreiro,
são espiral de vida e de morte,
ave de fogo renascida das cinzas,
forte, carregando em si um mundo inteiro.

uma mulher de ouro com asas,
segredo maior da antiga alquimia,
uma fita dourada de möbius,
em que o último dia é o primeiro,
infinitamente em sintonia.

11.11.19

resgatado à melancolia do dia 31/12/17

And this I dreamt, and this I dream,
And some time this I will dream again,
And all will be repeated, all be re-embodied,
You will dream everything I have seen in dream.

To one side from ourselves, to one side from the world
Wave follows wave to break on the shore,
On each wave is a star, a person, a bird,
Dreams, reality, death—on wave after wave.

No need for a date: I was, I am, and I will be,
Life is a wonder of wonders, and to wonder
I dedicate myself, on my knees, like an orphan,
Alone—among mirrors—fenced in by reflections:
Cities and seas, iridescent, intensified.
A mother in tears takes a child on her lap.




10.11.19

para o Manel Mau-Tempo, Cigano daqui e d'além mar, Octopus de óculos graduados, mas nunca vulgar!

Wu Yung-sen


No dia seguinte, de manhazinha muito cedo, lá ia o Sr. Polvo no transporte público, de óculos postos e olhos bem abertos. Sim, um polvo pode usar óculos, desde que os segure com um elástico. Entrou a Menina Lulinha, duas paragens à frente, sem olhar para as ameijoas, também ela atenta. Era o início de um belo romance, pensava o Sr. Polvo, ainda havia esperança. Mas com a Menina Lulinha entrara também um choco encorpado, prai um metro e noventa e seis todo ele riscas. Sepia zebrina, apresentou a Menina Lulinha, o meu noivo.


Sr. Polvo engoliu em seco, segurou a lágrima grossa que subiu directa de um dos corações, estendeu o tentáculo mais musculado e cumprimentou o choco encorpado. Não disseram mais nada. Sentiu-se tão idiota que não voltou a apanhar a linha amarela durante o resto do mês.  O percurso alternativo obrigava-o a levantar-se uma hora mais cedo, mas nem isso o demoveu. A tristeza voltou mansamente a aninhar-se entre os três corações. Tinha nascido para ser infeliz.

Foi numa daquelas noites sombrias, Sr. Polvo tinha recebido a garrafinha de aguardente de medronhos, que Alexandra do G que lhe tinha enviado, da sua produção caseira. A fogueira que inicialmente se lhe acendia na boca e na garganta depressa tomou conta do corpo todo. Cantou, tocou todas as musicas de Cohen que conhecia, depois gritou, primeiro na cozinha, depois na varanda, quase como um lobo, e amaldiçoou a sua vida até adormecer no sofá. Acordou no dia seguinte com uma dor infernal de cabeça e na ponta dos tentáculos e a boca a saber a papel pardo. Um banho gelado e dois cafés depois, Sr. Polvo, atrasado, correu para o metro. Dois dos seus corações amedrontaram-lhe o passo, e se encontrasse Menina Lulinha com o azeiteiro do Sepia outra vez?, mas o terceiro, talvez um pouco mais jovem e selvagem, empurrava-lhe os tentáculos ressacados em direcção à estação. Não valia a pena levar um raspanete do chefe, o Sr. Gadus Gadidae era muito simpático, mas pouco tolerante com os atrasos. Se a visse, fingia que não a tinha visto e pronto, aconselhou-o o tolo ingénuo do jovem coração.

Ainda mal se tinha ajeitado ao banco e já o telemóvel, perdido em um dos mil bolsos, tremia como uma máquina de lavar em centrifugação. Sr. Polvo, cuja indisposição ainda lhe magoava os olhos à luz da manhã, nem se preocupou em procurar o maldito. Alguma factura em atraso, aposto, pensou, e encostou a cabeça contra no vidro, preparando-se para adormecer. Ao seu lado, três sardinhas novinhas teclavam afincadamente. Foi quando o telemóvel tremeu outra vez, ele meio estremunhado, que se assustou e deu um salto no banco. Felizmente, as sardinhas, entretidas com a sua intensa vida digital, nem se moveram, tão-pouco riram, e por isso ele quase nem se envergonhou. Procurou atabalhoadamente o aparelho, com a força do medronho, todos os tentáculos se trocavam ainda, e quando finalmente o encontrou deu conta que já tinha vinte e cinco notificações no ecrã... do tinder...?!

Mas como assim, do tinder?! Sr. Polvo nunca se tinha inscrito na app, nem sequer a tinha instalada no telemóvel. O cérebro, mole como papa cerelac, não ajudava. Sugeria-lhe todas as possibilidades, mesmos as mais descabidas e assustadoras, Alguém entrou em casa durante a noite!  A vizinha do 5º clonou-te o telemóvel, eu disse-te que as pescadas têm maus fígados! Não, espera, deves ter um vírus no telemóvel! Porra, eu disse-te para não veres aqueles filmes aí! Aaahhhh! E agora?! Sr. Polvo transpirava, uma das sardinhas, a que estava sentada à sua frente, olhava-o fixamente. Tentou acalmar-se, respirando lentamente como ana o tinha ensinado na terapia.

Tudo isto não demorou mais de um minuto, embora na cabeça deste tonto Octopus vulgaris, o tempo fosse difícil de medir. Tomado finalmente pela curiosidade, desbloqueou o ecrã e começou a ler. Tinha sete correspondências!! Sete criaturas marinhas que tinham visto o seu perfil e tinham deslizado o dedo para a direita! Mas que perfil? Se ele nunca tinha usado o tinder... Ah! Lembrou-se! De certeza que algum outro Polvo se tinha enganado a digitar o número de telefone e daí a confusão. Mas não! Que estúpido, isso não podia ser. Claro que não pode ser, seu idiota!, grita-lhe o cérebro gelatinoso. Deves ter instalado isso ontem à noite, seu pobre bêbado! Nunca tinha sido meigo consigo mesmo, mas a ressaca piorava exponencialmente os maus fígados aos miolos.

Decidiu procurar o ícone da aplicação e clicou, a conta de email e a password já estavam gravadas, entrou de imediato.

Nome: Conde de Trovisco e Além-Mar
Ocupação: Sou conde, mas pouco, vivo como octopus vulgaris nos arredores de Cephalopoda e cultivo majericão e tomatinhos na varanda cá de casa. O meu sonho é ser pastor e ter um rebanho de filhos também. Tenho três corações para amar em todas as dimensões e oito tentáculos para dar muito prazer (emoji envergonhado). Não sou rico, mas dou-me sempre por inteiro, não cobro nada.

Procuro companheira para partilhar a vida, os dias e as noites, o sol e a chuva, a mesa, a cama, o chão, o pão e a fruta, os beijos e os abraços, os malteseres e as ovelhas-do-mar. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Procuro uma companheira para não enlouquecer, para contar o que vi de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.


Que piegas, grita-lhe o cérebro, e roubaste metade da lamúria a um poeta!, mas por essa altura já os três coração galopavam como cavalos. Aquele perfume inconfundível a gelado de baunilha a aflorar-se-lhe no palato... ela estava por perto. Bloqueou. Rodava o pescoço e procurava-a ou não? E se estivesse outra vez com aquele Sepia cheio de gel na cabeleira? O que lhe diria? Afinal ela estava noiva, noiva!, ia casar. A pequena trovoada dentro do seu cérebro aos gritos, iluminava-lhe a fronte. As sardinhas deixaram de teclar e apontaram-lhe o telemóvel à cara, excitadíssimas, preparavam-se para fazer um live!

Sr. Polvo, Conde de Trovisco e Além-Mar, em pânico, procurava uma saída, mas o barulho dos passageiros, juntamente com  o chiar dos travões da carruagem e a dor de cabeça, não o deixavam pensar. Só lhe resta uma solução, é terrível, mas tem de ser. As sardinhas já guincham para a câmara do telemóvel, numa antecipação do momento bizarro que vão partilhar, rindo alto como enguias. Sr. Polvo, octopus encurralado, mas não vulgar, vomita toda a tinta escura que pode e foge aflito, sem se voltar. Que vergonha, julga que vai morrer, soluça enquanto corre, a tinta fá-lo chorar.

noite

Entre o livro dos seres imaginários, o bestiário de kafka e as criaturas mitológicas das redes sociais, fico indecisa.

8.11.19

Agência do Ó

A Menina mais bonita da blogosfera, quiçá agente infiltrada russa, sem saber, deixou-me o coração em cuidados esta manhã. Enviou-me alguns prints do blog que estupidamente apaguei, porque o achei fraco. Santo Deus!, quem me julgaria eu na altura, para exigir de mim algo melhor?... Felizmente, essa dúvida existencial, tão comum em quem publica, tem vindo a deixar de me afligir. Aceitar os defeitos e viver com eles é o melhor ensinamento que a vida me tem trazido. Mas a questão com a Agência do Ó, e com qualquer história que se queira manter, era também a falta de tempo - sem tempo, toda a escrita nos parece pobre, inacabada, e num blog que se queria de mistério e bom-humor a falta de tempo ditou a sentença.
Por isso, querida Menina Tétisq, do fundinho do coração, grata pelas lembranças do meu saudoso Agente XPTO, esse taradão da espionagem :)


7.11.19

para a alexandra g

vulcão, torrente de lava que dá costa ao mar, guerreira das terras altas, animal que pisa descalço o caminho inclinado: urzes, silvas e musgo, pedras soltas, cascalho, areia fina colando-se à pele, a boca estancando o sangue, trincando a polpa da maçã. a voz sem freios, não monta arreios no coração, é mulher que galopa nas suas próprias pernas, longas, seguindo trilhos e carreiros. a carne suada na cama, fêmea inteira, aguardente queimando a garganta, em beijos lentos cuspindo caroços de maracujá, ri. canta, grita, dança. a família num abraço, as conversas no café, um copo de vinho e um cigarro nas mãos, sujas de terra, onde brilham estrelas de tarefas por cumprir. na elipse do ventre, Nigga e Porcelana, a neta Victoria, cada qual caminhando os seus próprios passos, espaços, ternura, um mundo inteiro onde habitar. o homem, vinho do porto antigo, outrora lobo do mar. 

4.11.19

Carlota

a osga, discreta sob o braço do portão, aproveita o movimento para se refugir no seu interior. desde que tapei os buracos da caixa dos fusíveis com a espuma que o rapaz me aconselhou, nunca mais houve mortes por electrocussão, nem placas queimadas. creio que daquela chacina esta osga não sabe, ou talvez saiba - que podemos nós afirmar da vida dos outros, afinal? -, mas prefira não se deixar tolher pelo medo e viva cada dia como se fosse o último e o primeiro, ou vice-versa, consoante a filosofia de cada um. seja o que for, há dias, bastantes, em que admiro muito mais a osga, do que me tolero a mim.

literatas

rio-me quando elas chegam, cultíssimas, um charme que exala sapiência, mais ou menos discreto, quando puxam a cadeira. nunca se misturam, especiais como sabem que são. reservam as suas palavras aos deuses, não perdem tempo com serviçais, excepto quando lhes batem à porta, rogando migalha. babam, no esplendor das suas capacidades receptoras, mas fazem-no com discrição. são umas senhoras.
eu, como diz o cristiano, estou-me a cagar.

2.11.19

O que nos condena*

a inevitabilidade da morte do que ainda está por nascer;
descobrir que todas as promessas são frases provisórias
e todas as certezas são meras intenções;
estender as mãos ao vazio e sentir-lhe o bafo gelado;
carregar o segredo da nossa existência;
sentir as lâminas das máquinas que bombeiam o coração;
respirar a ameaça de uma sombra que nos pesa;
o falhanço iminente;
um murmúrio fantasma que nunca se extingue;
o nada, espesso e surdo;
o silêncio branco da luz;
a foice;
a agudez da aflição;
a matança do porco na mesa improvisada;
afogar a criança no saco dos gatos recém-nascidos;
a fuga em sonhos, tentar correr e tropeçar a noite inteira;
um livro raro que não se encontra,
um verso que não se esquece,
a tinta de uma caneta que não se apaga;
o reflexo no espelho;
saber que a pedra quieta pode rolar, que ícaro nunca será a gaivota, que o mundo é o labirinto;
a eternidade da polissemia;
a matemática celestial;
as fronteiras da pele, intransponíveis;
a profundidade imensurável do mar e do centro;
todas as crateras da lua;
as geadas de abril;
o corpo materno que nos enjeita;
a pluviosidade contida pelas barragens internas;
o olhar de um moribundo deitado;
o cheiro a gás;
o gosto a podre;
o riso trocista de uma velha muito velha;
uma fotografia esquecida no casaco de um morto;
uma aliança na gaveta de uma mesinha de cabeceira;
a auto-indução;
um momento parado no tempo que nos persegue;
um espaço desaparecido;
o primeiro beijo;
o último abraço;
saber.




pai

Onde estás, meu pai?

No coração da terra, 
nos troncos das árvores, 
no zângão que zumbe 
e na nuvem que passa. 
Da minha carne, 
milhões de animais rastejam pela floresta. 
Em breve serão húmus, 
erva ou caruma, 
um pequeno musaranho 
ou uma libelinha do rio, 
grito de ave em esplendor. 
Pó, cinza, lôdo, lama, névoa e tempestade. 
O raio e o trovão. 
Sou a pedra quieta, o instante em que tremes, o jeito da tua mão. 
Olha dentro de ti.

Estás morto.

blue

notas azuis,
soltas,
prendendo-me ao fundo do mar onde
constelações de cavalos-marinhos e estrelas de mil cores
explodem dentro de mim,
na minha mente,
na minha alma, líquida,
no meu ser,
e eu gritando como quem nasce,
gritando como quem morre,
o frio nos meus olhos,
a mão procurando o pai,
o irmão,
a queda vertiginosa,
o fim ali ao fundo,
o estrondo,
combate final,
os ossos quebrando, rasgando a carne,
válvulas,
veias,
vértices,
tendões,
os fios de sangue,
sulcos,
e então o medo dando lugar à paz da imutabilidade,
e as sereias em coro depois,
cântico,
oráculo,
tristeza,
saudade,
certeza
de que a vida é curta como o riscar de um fósforo,
a lâmina cravando-se na raiz da existência,
crua,
em milhões de voltas,
flutuando nas ondas do corpo materno.
mar,
mãe,
cama,
ventre,
vida,
vento,
solidão.
correndo pelas ruas desertas da madrugada,
numa cidade do norte do mundo,
ninguém me vê,
ninguém saberá de mim,
as minhas mãos fervem. ácido.
sou invisível porque me fiz poeira no voo de um beija-flor.
nada agora,
apenas o silêncio do azul no espelho da parede.


para a ~CC~

da pequena planta, ansiosa aos primeiros ventos da encosta,
deitada à terra pelas mãos do meu avô,
brotou segura uma bela nogueira,
árvore, segundo os antigos, com dons de profecia.
um dia, estando a árvore tão alta, que impressionava os forasteiros,
alguém avisou que a altura da copa pressagiava a morte do dono.
o meu avô não se incomodou,
a árvore continuou, generosa, a oferecer o fruto do inverno,
duras nozes vestidas de verde, que tínhamos de descascar.
o tempo passou.
um outro dia, estando a árvore dando pouso a um bando de corvos,
outro forasteiro agourou a morte a caminho,
o meu avô não se assustou, tinha acolhido uma colónia de gatos pretos,
não tinha por que temer as aves escuras.
a árvore alimentou durante muitos e muitos anos os bolsos de todos os netos,
dentro das cascas de noz, éramos poetas, reis do espaço infinito.
finalmente, após vida longa, o meu avô morreu,
deixando-nos numa tristeza profunda de meninos. o nosso avô era como um pai.
a nogueira também chorou e logo depois adoeceu,
a minha mãe falou de uma doença qualquer, bacteriose ou coisa assim,
acabou por ter de ser abatida.
o meu avô, que era mais do que um pai para mim,
aparece-me às vezes nos sonhos,
já não naquela cama do hospital, onde tanto chorei à sua beira,
um cadáver com fios, disse à minha mãe que também chorava,
mas luminoso, o sorriso aberto à minha espera,
sentado à sombra da nogueira.


_saudades de todos os meus mortos_

31.10.19

Agência do Ó - sucursais

Caríssimos Leitores,

A Agência do Ó, onde todos os casos são singulares e peculiares, multiplicou-se pela blogosfera. Maravilha das maravilhas, gente generosa e com muito sentido de humor abriu sucursal da Agência do Ó no seu blog. Partilho e agradeço.
Um abraço a todos.


Xilre - Caso Parte I | Parte II

Manel Mau-Tempo - Caso

noname - Caso

Janita - Caso

Sam Seaborn - Caso

~CC~ - Caso Parte I | Parte II  | Parte III 

Joaquim Ramos (em modo de comentário :) - Caso


_______________________

Linda Tétisq, hoje é dia de luta para ti. Muita força!

26.10.19

para a ana

ela,
que na ausência de luz
não é sombra,
nem medo,
apenas silêncio que nasce no veio de um rio
e o riso nas ondas do mar.
abraços de vento,
beijos de chuva e sal,
carícia do tempo sem nome,
aurora boreal,
terra, homem-terra,
as mãos apoiando os passos,
a dádiva da vida gerada,
cansada,
a dança em volta da fogueira.
ela,
que fala com os pássaros e ouve os anjos em redor,
costura as fragilidades da alma em palavras singelas,
deliciosas empadas, chás de cidreira e tanto amor.

24.10.19

para a Tétisq

Na Agência do Ó todos os casos são singulares e peculiares, avança o agente, enquanto desaperta o paletó para se sentar. Tétisq, que já tinha contado duas vezes todas as lombadas das estantes, à espera, levanta-se e estende-lhe a mão, agradecendo a amabilidade em aceitar o seu caso. Posso contar-lhe como tudo se passou? Não adiantei muito à sua secretária... O agente recusa com um gesto de enfado e procura as horas no relógio de pulso. Não vale a pena, Menina. O que me diz de almoçar comigo ali na Portugália e começamos já a trabalhar no caso? Tétisq olha admirada para o homem, depois para a secretária loira, que lhe sorri. A cena parece-lhe digna de Hitchcock. Mas que ideia tinha sido a sua em procurar ajuda nos classificados do jornal?! Ok, pode ser..., responde finalmente. Excelente, venha, estou a morrer de fome! Ofereço eu, faço questão. Patrícia, minha flor do oriente, queres  que te traga umas gambas à bras?, e salta da cadeira, apertando o paletó com alguma dificuldade. O perímetro abdominal resiste ao número abaixo do casaco. Quando finalmente consegue, ajeita primorosamente a gravata preta. A secretária diz que hoje trouxe marmita, não vale a pena. Já dentro do velho elevador, quase a chegar ao rés do chão, o agente pára de assobiar a melodia do glorioso e, sem olhar para Tétisq, pergunta, Mas afinal o que é que a Menina perdeu mesmo? Tétisq arregala os olhos, incrédula, e responde, Perdi o Cartão de Cidadão!... 
O agente ri-se, Isso, isso, o cartão do cidadão. Então vamos lá. Vou precisar de uma lista dos seus contactos mais directos, marido, namorado, ou namorada, claro, parentes vivos mais próximos, colegas de trabalho. Enfim, todos. Não se espante Menina, a maioria dos casos de furto são praticados por gente próxima da vítima. Tétisq, que tinha decidido, perante a estranheza de comportamento do agente, não dizer mais nada, não se contém, Mas eu não fui furtada, eu perdi o cartão de cidadão! Caminham pelo passeio apinhado de gente que se dirige para os restaurantes da zona. A voz sai-lhe mais aguda do que pretendia, algumas mulheres olham para ela, desconfiadas. Não se iluda, Menina, - continua o agente, - a maioria dos casos de perda são furtos encenados. Por exemplo, a Menina julga que perdeu a suas oportunidades de se realizar na vida, certo? Ser cineasta ou lá o que é isso, produzir cinema, filmes, essas coisas, em vez de trabalhar naquela gaiola de doidos, tenho razão ou não? Tétisq, pálida, gagueja que sim, mas como pode aquele homem saber tanto sobre ela, se nunca se tinham cruzado?! Como pode? Começa a sentir que caminha dentro de uma realidade paralela, um filme a que não se lembra de ter assistido e tem vontade de ir embora, apanhar o comboio e voltar para casa.
São levados para o canto mais calmo do restaurante, cortesia da casa, e sentam-se numa pequena mesa onde jaz um pires de camarões, cobertos com película aderente. Como por magia, um empregado surge do nada e pousa o copo na mesa, dizendo que volta já para tirar o pedido. Então o Agente continua, Mas está errada, percebe? A Menina não perdeu, não, a Menina foi furtada. Foi furtada pelo seu país, percebe? Pelos governantes que a deviam ter protegido, mas preferiram roubar-lhe o futuro. Furtada, roubada, tudo igual, é uma questão de semântica, percebe? E dito isto, embala a imperial até aos beiços e afoga-a de uma só vez, com a sofreguidão de um náufrago. Ahhhhh! Está calor, não está?


[querida Tétisq, ressuscitei o intrépido Agente do Ó exclusivamente para ti]

23.10.19

...

quem vem ao mundo por engano, há-de passar a vida inteira à procura de quem a deseje. 

puras deus, non plenas aspicit manus

invejo-os, às vezes, no peso que não carregam, na simplicidade com que lavam as mãos ao final do dia. como deve ser bom ter umas mãos tão puras, abnegadas de vícios mundanos. 

20.10.19

para a luisa

soubesse eu inventar palavras,
diz-me Milu, muito quieta na sua teia
como quem se senta no trono real,
e inventava um livro inteiro, assim como um dicionário,
mas muito mais bonito, e colava nele todos
os passeios da luisa para o ilustrar,
e quando tu viesses mirar-me com essa cara de cacto inundado,
das profundezas lamacentas do teu ser humana atormentada,
eu já não precisava de aranhar.
bastava abrir o livro na página certa, apontar o verbete,
e tu, petiza curiosa que deves ter sido,
juntarias as letras pequenas, depois as palavras rasas
e saberias, oh! como saberias,
que pior do que tudo é viver rente ao tecto do mundo,
a vida por um  fio e não ter asas!


[Milu, a aranha que já foi pirata, tem a mania de vadiar por blogs alheios. um deles, onde me diz ter sido muuuito feliz, foi à esquina da tecla, no coração generoso da luisa.]

18.10.19

She can make the birds and bees




She can turn her flesh to steel
But she can't get her scars to heal