15.4.21

13.4.21

You're stumbling in the dark

devolvam a minha liberdade de viver para lá destas paredes. preciso de caminhar por cidades distantes, falar línguas estrangeiras, voltar a dormir em camas de hotel, deixar caminhar a fêmea impaciente. devolvam me o mundo. a família. a fuga. o caminho. 

I didn't want to kiss you goodbye — that was the trouble — I wanted to kiss you good night — and there's a lot of difference.


El poema que no digo, el que no merezco. Miedo de ser dos camino del espejo: alguien en mí dormido me come y me bebe.



12.4.21

Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum.”

era testemunha abonatória, mas tremeu-lhe a voz quando contou a verdade, como se tivesses dúvidas das suas certezas.

...



o cheiro adocicado do sangue menstrual

em oxidação, 

morte quotidiana num trapo de algodão,

pedaços de um útero vazio,

         o colapso da matéria,

insuficiência animal.

somos

 somos tão mais fortes do que dizemos e tão mais frágeis do que pensamos. ou será ao contrário?

...



The body remembers

lido num artigo científico sobre a nutrição no paleolítico, da universidade de tel-aviv. o meu também, faz já algum tempo, mas julguei que era poesia.

8.4.21

tudo igual

a neblina do vale mantém o cheiro da erva cortada rente ao chão. vagueio pelo terreno, inebriada. sob os meus passos, descansam os restos de todos os meus animais mortos. não aspiro a nada que vá para lá da comida na mesa, liberdade do meu nariz. a madrinha convidou me novamente para a acompanhar na viagem à américa do sul. ela quer muito ir ao peru, eu gostava de descer ao chile. quem sabe. não há ninguém à vista, apenas eu e os pássaros. é verdade que tenho pensado com gosto na ideia, embora a viagem me aterrorize. sugeri irmos de barco. concordou depressa demais, desconfio que nem ouviu. percorro o carreiro que os cães fizeram, estou em paz e feliz por tudo o que recebi, lamento não ter dado mais. a culpa, sempre a culpa, a culpa de não ser suficiente. não é exclusivamente minha, é até bastante comum. somos frágeis criaturas, expostas desde cedo à perda. Ayrton voltará ainda mais uma vez para terminar o serviço. tenho de ir levantar dinheiro para lhe pagar. gosto dele, é um homem tranquilo. nunca avança sem pé. as vizinhas debicam as alterações na paisagem, mais do que os pássaros. ignoro-as. sinto falta de um café.

5.4.21

ela, aquela que eu amo, a ensinar me até ao fim

fico encantada de a ouvir, pensava que a fome pela vida e a paixão exacerbada eram coisas de adolescente e ela, dos seus oitenta e quatro, prova-me como a vida é aquilo que fazemos com ela, muito mais do que aquilo que ela nos dá. operada no ano passado, largou finalmente a bengala envergonhada e passa os dias a cavalgar por montes e cabeços. mimoso, o cavalo, é de uma mansidão que nos mareja os olhos, é verdade, mas ainda assim, é impossível não temer que algo possa correr mal. mas ela é clara, a vida é minha e não me vou proibir de nada que goste - sorrio, como não ver ali uma jovem rebelde e teimosa, se toda ela é a sua representação - escusais de me aborrecer e de vos aborrecer com isto. olha agora, o cavalo até pára quando toca o telemóvel, só para eu vos atender, o que quereis melhor? e ri-se, traquinas e feliz. não tenho o direito, mas ainda que o tivesse, como se proíbe alguém, que já caminhou tanto e carrega dores tão pesadas, de dar os últimos passos em liberdade? 


|que curioso ter encontrado isto!

4.4.21

o 'pólé'

diz Amália à irmã mais nova - os pais copulam como coelhos ou eu nem dei conta do tempo passar-, enquanto se dirigem ao baloiço que o avô extremoso, e com gosto para a pinga ao almoço, lhes construiu no pequeno jardim:

   – ... blá, blá, blá, e depois as abelhinhas vão de uma flor para a outra flor e levam o pólen, percebes?

   – o pó? 

   – não, burrinha, o pólen!

   – o pólé?

   – que burra, PÓLEN! - grita Amália do alto da sabedoria de quem é a irmã mais velha.

   – o pólé!, eu não sou bula, é o pólé! - e desata a chorar.

enquanto o pai não veio pôr ordem na zanga, ainda estive vai-não-vai para dizer à pequena que com aquele berreiro ia assustar as abelhinhas todas e isso era mau para a empresa de transporte e entregas de pólé da zona, mas, como um verdadeiro david attenborough dos subúrbios, decidi não interferir na vida familiar da fauna circundante. estes progenitores modernos são todos muitos sensíveis com as suas crias.

microconto de páscoa

e então, depois de vários anos carregando uma cruz, como o resto da humanidade, morri e renasci ao terceiro dia, acho, que nunca tenho a certeza do dia em que estou, à direita do meu pai e perguntei-lhe, porque me abandonaste?

3.4.21

[um aparte sem aparente importância, para além do fel que passou a controlar o teclado, gerado certamente por alguma* tensão pré-menstrual]

detesto SIMP. a eles, elas, or in between. felizmente, não os tenho, mas encontro-os, às dezenas, todos os dias. são intragáveis, de tão doces e repetitivos. quase me atrevo a dizer que prefiro um troll venenoso a um desses bonecos invertebrados, que parecem nunca ter opinião, quanto mais divergente, e se derretem de igual forma cons-tan-te-men-te. a admiração é enfadonha e quanto aos elogios, bem, quanto aos elogios, estou como a Louise, i'd rather take coffee than compliments.

boto as mãos à consciência e confesso que já deixei de comentar muita gente nas várias redes sociais, porque as aprecio em demasia e eu própria me dou conta no quão aborrecida me torno. provavelmente, uma SIMP em potência. e então recuo, para não ser obrigada a dar-me uns sopapos bem dados na tromba.

açúcar faz mal. pronto, disse.