22.9.21

  A tia zeza afligia se muito com as trovoadas, é Deus que está zangado e pragueja, não é para brincadeiras. Segurava a vela acesa como uma menina assustada no dia da primeira comunhão, enquanto arrastava as pantufas pelo chão e cirandava pela casa inteira. Ó tia zeza apague a vela, a luz ainda não faltou. Apague isso antes que aconteça alguma desgraça. Mas a tua zeza não vergava, não faltou, mas há de faltar.

 o equinócio veio montado nos trovões.

20.9.21

remoinho

Fechou os olhos, trincou as bochechas como fazia desde criança quando tinha medo, e largou o pequeno ramo que ainda a mantinha presa à margem.

surrealizar, por aí

 «(…) Belo como o encontro fortuito de um guarda-chuva com uma máquina de costura sobre uma mesa de operações».

in Cantos de Maldoror, de Isidore Ducasse, (dito Conde de Lautréamont) (1874), citado no 1.º Manifesto Surrealista, de André Breton (1924)

18.9.21

...

queria poder dizer, não sei bem por que razão, talvez receie ser vista como um monstro, que logo no primeiro parágrafo de Vigiar e Punir de Foucault tive vontade de fechar o livro, mas, longe disso, avancei no sofrimento do esquartejado, vi os cavalos puxando as cordas que torciam os membros procurando arrancá-los, e fiquei com ele até que não fosse mais do que uma brisa de carne queimada.

15.9.21

vórtice

deitada na maca fria, envergonhada pela pequenez do corpo, o arrepio ao sentir as mãos tocando a minha pele quente, as perguntas que já aguardava, as respostas que não sei se invento, mas repito sempre convicta, temendo que me pergunte depois àquilo que não posso responder. tudo me parece estranhamente familiar, a solidão do corpo, entregue a quem pago para que o cuide. 

7.9.21

uma caixa de chocolates

hoje é dia de pôr flores na campa do teu pai, bem sei que tu não ligas a isso, que os mortos, nos seus ossos despidos, não cheiram, nem veem, e que julgas que os arranjos são para cobiça dos vivos que passam a caminho dos seus mortos também, numa espécie de concurso de vitrine de mármore. sempre foste de língua afiada tu, o teu pai dizia que lias demasiados livros, como se às mulheres bastasse a cozinha, a costura e o trato dos filhos. às vezes penso se tudo o que fazes para te magoares não será uma ideia de vingança ao teu pai. o homem está morto, viste-o sofrer durante meses naquela cama do hospital, sofreste com ele, mas não consegues deixar essa vontade de te atirares contra a parede. o teu pai também foi vítima, já to disse. nasceu num tempo escuro onde aos homens mandavam ser assim. não precisas de cair nua, numa viela de machos de ponta em riste, suja entre o lixo do chão, para deixares de sentir que serás sempre indesejada. a carência que nasce da falta de amor de um pai não se mendiga aos pés de outro homem. como se resolve também não sei, mas que te custa passar no cemitério e deixar lá estas flores?

4.9.21

Para ti, Luís, numa revolvida e eterna paixão

 Paixão,

            Desejo,

                        Sobressalto,

                                           Solidão.


entre a vertigem

e a queda

entre a perda e a fissura


wook

da pitonisa do amor e do erotismo

não

Não te fies do tempo nem da eternidade,

que as nuvens me puxam pelos vestidos

que os ventos me arrastam contra o meu desejo!

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã morro e não te vejo!

maybe,

Damas, por outro lado, diz muitas vezes que não concorda com as bullshits psicológicas que dizemos para justificar o nosso desejo de múltiplos parceiros e falta de vontade para relacionamentos monogâmicos. vêm sempre que a conversa dos traumas infantis, da insegurança no liceu, édipos e electras, não papo isso, Alicinha, assumam que são animais com maneiras à mesa e pouco mais, que gostam da adrenalina constante do acasalamento, e não dos papeis assinados na igreja e no banco. a sociedade arruína-nos a satisfação, Alicinha.

oui?

écoutez-moi, ma chérie, o único momento em que praticamos o livre arbítrio é quando estamos apaixonadas. nada mais nos importa. e sentimos peur, mais c'est bon.

3.9.21

...

Sophia diz me que agora toma uns comprimidos que a ajudam a não sentir. pergunta me se quero saber o nome. recuso. nasci para ser alma penada, não saberia passar por zombie.

gaia

Corre um rio pelo vale das suas pernas.

30.8.21

Schnauzer

 


Uma chuvinha miúda vai cobrindo o vale de bruma cinzenta. O homem do Schnauzer, mais simpático do que o cão, atalha o passeio a meio e cumprimenta me lá de longe com um aceno de mão.  A chuva não chega para assustar, mas o pobre do bicho fica com o pêlo todo cheio de nós, disse me o homem há dias, enquanto mo exibia com orgulho. Não lhe disse que na raça dos cães sou como na cor da pele das pessoas, não vejo relevância. Digo mais, ler as características dos canídeos soa me quase a astrologia. Sou das que vê na criação a justificação para quase tudo, escapando às vezes, é verdade, uma maldade intrínseca composta de genes e biologia.

Chove. Sigo sozinha.

29.8.21

a venda ou à venda

como seria de esperar, que hábito de intelectual é sinónimo de marca registada, idiossincrasia que diferencia as várias etiquetas da literatura, não fossem eles confundir-se todos pelas capas enfadonhas da colecção; retomo, como seria de esperar, vão aparecendo nas suas redes sociais, sempre envoltos numa aura sagrada de ateísmo mictório, junto a figuras de relevo internacional - que talvez não passem de iguais figurinos lá na terra -, mas hablando língua estrangeira dá um certo je ne sais quoi |não falo do restaurante caviar lisboeta| e mantém a finesse culturelle.

de estranhar é que estas damas e cavalheiros sejam tão prontos a trinchar as influencers do batom e da sandalucha, bufando, sempre ao som do melhor compositor, o seu desinteresse por figuras vazias que só procuram a projecção de narrativas pictóricas virais e vazias, das que não alimentam o intelecto. estão todos a fazer pela vida, é o que é e não há mal, e o pessoal das bugigangas chinesas sempre vais comendo uns crepes ovo-lacto-vegetarianos de vez em quando e não a palha do costume do mercado livreiro português.

azedam-se-me os intestinos, quando dou conta do vácuo da elite letrada da nação. não tenho culpa. tende piedade. ou não. como diz o poeta, i'm shitting myself pró assunto.

28.8.21

feiticeira,

era um dos muitos nomes que os cowboys dos meus irmãos, mais velhos e umas pestes, me gritavam, quando eu fazia alguma coisa que não era do seu agrado. talvez viesse agarrado ao um bruxa, para reforçar a ideia, mas sinceramente já não me recordo. entre bruxa e feiticeira, a última remete-me para actos mais modernos e eficientes e Represas canta-lhe uns versos docinhos, portanto, é essa que prefiro guardar no baú das memórias afectivas.

foi por isso que quando Sophia, tão devoradora de folhas de papel quanto eu, me enviou sms com letras garrafais a dizer SUA FEITICEIRA!, imediatamente recuei aos meus sete, oito anos e sorri. mas depois lá tive de perguntar, Pq?!, ao que Sophia responde: Pq como tu ñ gostas da feira, agora tá a chover!!

uau!... mantenho os meus poderes ocultos a funcionar, passados todos estes anos. talvez os velhacos tivessem razão e eu seja mesmo uma versão da minha querida Maga Patalójika.


Boa Feira a todos.

26.8.21

feira das vaidades

todos os anos, aproximada a data, me questiono se, tal como aconteceu com a época natalícia, (não fosse ter uma família do tamanho de uma colónia de formigas africana em constante copulação e nem daria pela sua existência), finalmente já tolero a feira do livro. ainda não.

seria justo explicar-vos o porquê desta minha comichão com uma festividade que traz livros, gente e boa disposição ao parque, mas, para lá do meu notório desagrado por multidões e dos preços trafulhas da maioria dos livros, não tenho razões válidas. a mais próxima que encontro do coração é a de saber que quem ama os livros não os compra ao quilo, numa feira snob da capital, onde a selfie literária e o cachorro têm primazia no must do dos "leitores"...


25.8.21

virtue signalling

dói-me tantas vezes o mundo, dentro da bolha segura em que transito. tenho vergonha até de o dizer, porque me soa a impostura. na vida suburbana que levo, beneficiando de direitos há muito conquistados, a consciência tranquiliza-se com alguns trocos transferidos para quem pede na internet. são penso rápido sobre uma ferida de carácter, o meu, o nosso, enquanto europeus e privilegiados.

24.8.21

nunca mais?

Numa geração que cresceu ligada aos ecrãs, é notória a ignorância da realidade. Se lhes pedes momentos históricos, falam te de séries americanas. É o conforto de uma Europa sem guerras, bem sei, mas temo pelo dia em que não seja só o PCP a negar Holodomor.

23.8.21

ficámos lá atrás,

 não sei qual dos dois o disse, mas ambos o sabiam.

22.8.21

bitch

Damas, o dandy reciclado de Monfortinho, está velho. maduro!, corrigir-me-ão alguns, e também não os desdigo, a idade traz sabor. diz-me que já não é o que era com as mulheres, saltar de cama em cama aborrece-o. que agora se lembra mais dos barulhos delas na casa de banho, do que dos seus gemidos entre lençóis. e que lhe faz confusão ter de as ouvir falar de coisas que não entende, num portuglish reles que o irrita até aos tecidos subcutâneos do seu oxford advanced. Damas sabe, mas não diz, que chegou ao cliché de si mesmo. mantém uma boa cabeleira, mas esforça-se cada vez mais para acondicionar uma cintura decente no engate. o que mais lhe custa é o update na linguagem, não bastavam os memes, agora parece que falam todas igual, em código marketeiro. sugiro lhe mulheres mais velhas, têm tudo a favor, mas torce o nariz. diz que não quer ser a bitch de ninguém. que ironia. no fundo, com o Damas é sempre uma questão de aparências. rodeado de anões, pensa que será sempre um gigante.

21.8.21

fico,

disse ele, enquanto tirava as chaves do bolso e se preparava para sair. são feitos destas ironias, em jeito de jogo de palavras, todos os amores impossíveis. Damas, se me ouvisse, haveria de repetir me as palavras do costume, só é amor se for impossível, de outra maneira será sempre e apenas mais uma relação com data de princípio e fim. e eu, também em gestos repetidos, haveria de responder, que o luto se faz a um morto, mas nunca a um desaparecido.

18.8.21

escapista

e novamente empty note,

centro comercial

não que fosse muito óbvio, mas foi tão insistente, aproveitando todas as pausas na conversa com os outros dois amigos, que era impossível não sentir os olhos cravados em mim. às vezes acontece e faz com que me lembre de que não sou invisível, o que me deixa desconfortável. é uma sensação estranha, o desejo de um homem.

17.8.21

primeiro capítulo



A neologista, ou o curioso ofício de caçar, coleccionar e classificar palavras novas, como um entomologista caça, colecciona e classifica coleópteros.
Este capítulo versa também sobre a instalação dos milagres no quotidiano das pessoas, prodígios domésticos, quase secretos, de cujo fulgor pouca gente se apercebe.

Milagrário Pessoal, José Eduardo Agualusa 

16.8.21

Axilas & outras histórias indecorosas

«A axila da mulher tem uma beleza misteriosamente inefável que nenhuma outra parte do corpo feminino possui. A axila, além de atraente, é poética. A boceta pulsa, e o cu é enigmático; são muito atraentes, reconheço, porém circunspetos, dotados de certa austeridade.

Mas ainda falando de cu e boceta. Durante muito tempo esses foram os tesouros do corpo feminino que eu mais amei, os orifícios. O da boceta, gruta que quanto mais estreita, mais gratificante era o prazer que me proporcionava; e o do cu, uma toca, um buraquinho que se abria como uma flor caleidoscópica para receber o meu pênis. Contudo, isso era no tempo em que o pênis era uma peça importante da minha arte amatória, em que o meu poeta favorito então era o Aretino, o clássico Pietro Aretino, que nasceu em Arezzo em 1492 e morreu em Veneza, em 21 de outubro de 1556.

Como dizia, isso era no tempo em que eu ainda não havia descoberto com a língua a delicada textura do cu e da boceta, que passei a lamber com um prazer jubiloso. Como no poema de Drummond, «a língua lambe, lambilonga, lambilenta, a língua lavra certo oculto botão, e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos». Sim, foi a minha fase de polir, de bajular com a língua os orifícios. Isso durou até eu conhecer o encanto inspirador da axila, o lugar perfeito para a língua. Refiro-me à axila dos meus sonhos, a axila da mulher por quem me apaixonei, a de Maria Pia, a violinista, e não à da minha bisavó.»

...

Vou me embora pra Pasárgada. Lá sou amiga da rainha, lá tenho o homem que eu quero na cama que escolherei.