23.1.22

a faca não corta o fogo, mas corta me a mim

perdi-me da pessoa que deu início a este blog em dois mil e catorze e por mais que tente não consigo voltar. as palavras estão gastas, geladas como estas noites de inverno ao relento. sinto apenas a lonjura das memórias, uma mancha escura cada vez maior e uma aridez que me mantem parada. creio que desisti de esperar por godot e não há nada mais triste do que perder a esperança assim. tornei-me feia, um pouco amarga, ausente. saio agora. maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.

26.12.21

26.12.2021

não vos vou mentir, este ano não vivi o natal e foi uma sensação de calma, de recolhimento e de silêncio tão perfeita, que hei de repeti-la daqui para a frente.

Egon Schiele, Still Life with Books (Schiele’s Desk),1914

 


Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros; Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem água; Ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.

JLB

24.12.21

24.12.2021

Feliz natal e obrigada a todos pela companhia. 🎄

23.12.21

23.12.2021

Não há nada mais deprimente do que a alegria dos tristes, diz Agualusa nO livro dos camaleões. Não encontro palavras mais adequadas para legendar a vida por estes dias. Gente pobre - podemos conversar sobre a palavra - gastando o que não tem para comprar bugigangas e quinquilharias que serão recebidas com sorrisos cansados e cínicos. O que se passa connosco? Quando foi que a nossa presença, a nossa amizade, o nosso carinho deixaram de ser suficientes?

22.12.21

22.12.2021

Maria está no fim do tempo, perto de dar à luz aquele que Deus escolheu para nos salvar. Que sacrifício inglório, continuamos perdidos e Jesus subiu, tão novo, aos céus e por lá permanece sentado à direita do pai. Que diabo, que pai sacrifica um filho pela salvação da sua imperfeita criação? História mal contada, tradução de algum Raimundo Silva apaixonado, sei lá, faltam capítulos. E quem terá cortado o cordão ao menino, terá Maria amamentado sem fissuras ou mastites, chorou o garoto primeiro ou levou palmada? Enfim, estas e outras perguntas que gente beata trata como blasfémia e que nunca serão respondidas. Já se sabe que aos homens não importam os pormenores mundanos da intimidade feminina, mas louvemos a generosidade de José em aceitar a paternidade de filho alheio, sem drama nem violência.

 

21.12.21

21.12.2021

 Vinte e um de dezembro, primeiro dia do inverno, quem diria, com o frio que veio antes desta chuva, quem diria que ainda estávamos no outono, para além das folhas da Taro que não param de cair. A partir de hoje os dias crescem, ouço dizer esperançosamente. Quem diria que o inverno é já, afinal, uma estação crescente, de vida e de luz. Talvez o menino jesus tivesse nascido neste dia e não no dia vinte cinco, muito menos na primavera, quando o pobre, trinta e três anos mais tarde, é condenado à cruz e à morte. O frio manter-se-á por mais alguns meses, mas se os dias trouxerem mais luz, cá nos havemos de arranjar. 

Hoje larguei as comfy clothes, como agora está na moda chamar à roupa de trazer por casa, passear os cães, ir ao supermercado, ao veterinário, ao takeaway e basicamente fazer a minha vida quase toda, e vesti-me como uma senhora, diria a minha querida avó, se ainda estivesse viva para me ver.

20.12.21

20.12.2021

Finalmente a família grande decidiu, por unanimidade, que o natal passará a festejar se no belíssimo mês de setembro, entre vinhas e vinho. Dezembro não será mais do que  o último mês do ano, frio e silencioso.

Comprei mais dois garruços e uns collants tão grossos que parecem ceroulas. O frio massacra me, mas não desisto. 

Hoje apeteceu me um sonho, mas não havia. Torci o nariz, tão difícil apetecer me alguma coisa, ainda mais finalizar o pedido. Lá fiquei a augar, de café amargo na boca. Mais vale dormir cedo.

 

 

19.12.21

19.12.2021

"Nada fiz e se nada fizer não terei sido", quem o escreveu foi Eduardo Lourenço, mas sinto a frase universal. O tempo escoa como um punhado de areia de uma das mãos. Que mamíferos perturbados somos, maldita consciência, pobres seres dependentes, egos inflamados, saber da morte mata-nos primeiro, mas cada um suporta a finitude à sua maneira. Eu fico aterrorizada, nada tenho feito. 


Falei com tia Lúcia ontem. Uma amargura na voz que se cola e nos deixa num incómodo persistente. Não posso fazer nada pela doença do tio Zé, a Alzheimer levou-o para um outro mundo ainda antes da morte. Pelo menos, penso, não dará conta do fim. Ou talvez dê, como numa ironia filha da puta, em que volta ao lado de cá apenas para se ver morrer.


Lamento muitas vezes por vós, estimados leitores, porque, a bem da verdade tenho de o dizer, nem eu gosto de ler o que aqui escrevo. Muito menos me atrai esta pessoa que aqui se queixa continuamente. Antes, confesso-vos, gostava de escrever, agora faço-o quase como quem se agarra a uma sanita para vomitar. 

18.12.21

18.12.2021

Pelo tecido translúcido da cortina consigo ver as pás gigantes a rodar, do outro lado do vale. O barulho, perto delas, é estranho, estive uma vez ao lado de uma e não gostei. Vejo também, na contraluz, alguns morcegos trambolhos e adoráveis a voar perto da janela. Ouço o cão grande a ressonar, o cão do vizinho a ladrar e um filme esquecido que passa na televisão. Ouço o ronrom da gata no meu colo. Dói me a cabeça, tenho os pés frios e estou a tentar matar vos de tédio com estes posts. Mais um esforço e estamos quase na consoada. Coragem, minha gente.


Adenda: esqueço me sempre de dizer o mais importante, o melhor do natal são as tangerinas.

17.12.21

17.12.2021

Tenho um chapim azul a cantar perto da janela da cozinha. Queria lavar a loiça, mas estou quieta. Uma serenata destas, sem encomenda sequer, é de apreciar com atenção. A encomenda do UK chegou finalmente, sim, tive de desalfandegar três pares de meias, felizmente tudo online. Terei de passar a comprar as meias especiais para o nativo mais velho noutro país europeu, sem exit, nem brexit. Chegou uma alveola branca, que concerto, vou me calar.

16.12.21

16.12.2021

A oito dias da noite de consoada, nascimento fingido do menino Jesus, que toda a gente sabe que nasceu em Abril, como a primavera e as flores do campo, recuo cada vez mais na toca e inicio os votos de silêncio e contemplação do inverno. Não é de agora este despreendimento pela (minha) palavra, sinto a oca ou balofa de clichês de redação de escola. Estranhamente, quanto menos falo e escrevo, mais penso, ou vice-versa, porque ainda não percebi o que vem primeiro. 

Sophia disse me há pouco que arranjou um cão e não tem interesse nenhum em procurar um homem, numa conversa que me pareceu genuína. Quem sou eu para julgar? Gozei com o nome do bicho, pedi fotos e dei sugestões de ração. Tenho a certeza de que o Benzo a fará muito feliz.

15.12.21

15.12.2021

Hoje vamos fazer de conta que o chocolate caiu ao chão, mais de 3 segundos, e deitamos fora. Mas antes de ir, uma nota, leiam o último texto da mãe preocupada. Precioso.

Até amanhã. 


(Tenho um vídeo com os morcegos de ontem, talvez o partilhe)

14.12.21

13.12.21

13.12.2021

Segunda feira, dia 13. Vou a pouco mais de meio dia e já tenho vontade de me atirar da varanda do quarto, um modesto primeiro andar a contar vindo do chão. Não resolvia nada em concreto, mas enquanto gania com dores, sempre me esquecia desta treta toda a acontecer no ecrã.

Posto isto, o habitual queixume de quem não passa fome, mas é irritante, calo-me.

Até amanhã.

12.12.21

12.12.2021

Domingo. Dia do Senhor, mas já nenhum dos nativos procura o Senhor na igreja fria da aldeia. Os mais novos sempre foram agnósticos e pouco dados à liturgia. Os mais velhos dizem que Deus está em toda a parte e não precisam de ir à igreja para falar com ele: assim mesmo, na rebeldia, estes nativos octogenários. Eu percebo, ao deixarem de ir à missa, livram se do bando de cuscuvilheiras e dos seus olhares de escárnio. A felicidade dos outros sempre causou inveja em gente pequena.

Deus, essa força superior que edifica galáxias no universo, não se há de importar.

11.12.21

11.12.2021 - 2v

Limpar vidros com toalhetes não é assim tão má ideia, embora a prima Lurdes não pareça convencida. Faço biscoitos de laranja, receita da minha mãe, que agora estão na moda mas com nome estrangeiro, os muffins. Gosto de pequenas tacinhas de metal. Na verdade, apenas ajudo a fazer, é a prima Lurdes quem comanda as operações. Eu sigo confortavelmente as regras sugeridas. A seguir faremos uma fornada de biscoitos, muffins, perdão, de chocolate, os preferidos da criançada. A prima Lurdes, curiosa de nascimento e faladora de família, lá vai cuscando a minha vida, entre duas chávenas de açúcar e quinhentos gramas de farinha. Eu espremo as laranjas.

11.12.2021

 "Creiam-me, o menos mau é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se possa gozar deveras, porque entre uma e outra dessas duas ilusões, melhor é a que se gosta sem doer."


Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis

10.12.21

blue

 






10.12.2021

Estranhos tempos estes em que a advogada se despede de mim com "Beijinhos". Em contexto profissional, não sei gerir esta proximidade. E "beijinhos" não é a minha cena. Ou é beijo na boca ou um passou-bem, e a senhora, garantidamente, não está na minha lista de gente para provar. Curiosamente /eu sei, abuso dos advérbios de modo, deixem me em paz!/ a arquitecta, com quem tenho falado para agilizar a papelada de uma possível venda dos terrenos de uma prima segunda da minha tia alemã - novelas - também se despede com beijinhos nos emails. Mal não faz, sejamos sinceros, antes beijos do que balas, mas fico sempre na dúvida se respondo igual ou abrevio para um menos informal Bj. Detesto estes incómodos. Isso e o preço que ambas cobram.

9.12.21

9.12.2021

A terra lavrada do vizinho, que num ano qualquer já teve alhos plantados, lembra me uma tablete de chocolate de leite. Hoje é só isto, que tenho um tractor à minha espera, para me levar à serra, onde um bando de nataleiros irá escolher as árvores para cortar. Para este ano, uma fogueira ainda maior.  A única regra é plantar dois rebentos, por cada uma que se cortar. Assim tipo um esquema de Ponzi do bem.  Eu vou para ver as vistas e partir as cruzes na condução selvagem do Tio Alípio, que, Deus queira, ainda estará sóbrio o suficiente para lá chegar. Fui.

8.12.21

8.12.2021

Feriado religioso, trabalho, é o que me faz sentido. Mas trabalho menos, para não ganhar demasiada vantagem à concorrência. Sou um anjo, bem sei. Varri as folhas, mas o vento não pára e o páteo está novamente coberto. Para hoje, talvez uma ida às termas, num desses países frios de leste. Depois umas batatas gratinada com salmão e muita vodka a acompanhar. E é isso. Talvez encontre o nariz de Gogol por lá.

7.12.21

7.12.2021

Acho que percebi finalmente onde estava a errar. Foi esta manhã, enquanto era arrastada pelo caminho cheio de cocós caninos por dois monstros peludos, que me veio de repente à cabeça o erro grosseiro da minha autoria. É claro que vir à noite contar o que aconteceu me deprime, porque nada de especial acontece, e ao escrever a pasmaceira da vida esvai-se a pouco vontade que resta. Que interesse tem vir falar das iscas que comi ontem? Nenhum. Metade da plateia faz um esgar de nojo e a outra metade encolhe os ombros de desinteresse. O que vou passar a fazer - se me aguentar serena das hormonas, o que duvido - é contar logo pela fresca o que prevejo para o dia que começa. Isso sim, há de ter algum interesse, porque tudo é possível na imaginação, certo?

Começo. Hoje, depois de levar a Pi ao médico para a vacina, meto a bicharada toda no heliuber, voo até à Serra, onde um almoço tardio será oferecido à família gigante de loucos, que é a minha. Estou a pensar ter um mágico por lá, para entreter a malta e criar ilusões. Ou talvez não, porque a magia me irrita, melhor um passeio pelo campo, pelas terras do meu pai, agrestes, e quem sabe à minha espera.

É isto ou ir até Siena...

6.12.21

6.12.2021

Neste momento não tenho nem cabeça, nem jeito, nem merda nenhuma para continuar por cá a escrever. Mas não quero sair sem antes deixar a minha admiração escrita pela Linda Blue, que hoje me deixou numa tristeza tão profunda. Sei que ela é forte e embora o sentido de humor seja sempre uma capa que criamos para entreter os outros para que não nos vejam do outro lado do espelho, também é a melhor arma para superar adversidades e acreditar que o sol pode continuar a brilhar para nós.

Eu adoro te, Linda Blue (e és mesmo linda, mulher!), e não vou estar aqui com palavras batidas, nem tu as queres, nem eu as tenho, peço te "apenas" que acredites que mereces o dia seguinte. Sempre. Que acredites sempre no dia seguinte.

💙



5.12.21

5.12.2021

Péssima ideia isto do advento no blog. Triste ideia ainda manter um blog. Já não faz sentido nenhum. Perdi o comboio e não posso ficar, tonta, à espera na plataforma, para o resto da vida.

 

4.12.21

4.12.2021

Vi dois corvos esta tarde, no campo lavrado do lado norte. Que um deles seja o Pedro Gonçalves. Paz à sua alma. Não me apetece dizer mais nada hoje.

3.12.21

3.12.2021

Não sei o que vos dizer. No país e no mundo, coisas importantes acontecem, algumas confusas, outras finalmente. Mas por aqui, mantenho me a cento e oitenta no tanque, a Pi sentada no banco ao lado, e, ora uma, ora outra, olhamos o tecto em silêncio. Só sairei quando a água arrefecer. Vi Oblivion esta tarde, gosto de sci-fi, Tom não esteve mal, era o que tinha de ser, passar tempo. Ainda me faltam os últimos 5 minutos, mas a curiosidade é pouco. Comprei um brioche no Lidl, gosto daquela massa simples, aborrecida. Talvez tenha sido o meu jantar. Tenho saudades do cheiro a Nivea na pele da minha mãe, quando era pequena e ficava doente, dormia com ela e não havia sítio melhor. A minha mãe encolhia se para eu ter um lugar na beirinha da cama e não incomodar o meu pai. Havia água de rosas, e aquela voz doce, uma voz que nos sossega, nos carrega e nos ama. Mas havia algum medo também, os seus gestos nervosos, recordo me que me assustavam, mas depois deixava me dormir e esquecia. O medo de que o meu pai se zangasse por eu estar ali, era isso. Todos tínhamos medo do meu pai.

Está na altura de sair da água. Tenho uma toalha em cima do aquecedor à minha espera.

2.12.21

2.12.2021

Está mais frio hoje, os pés parecem tijolos de gelo, e mesmo com o ar condicionado ligado, não consigo despir o casaco. É inverno, nada do que digo surpreende. Na verdade, já me arrependi desta ideia de advento escrito de natal, porque não tenho nada de interessante para contar. Falei com o dono de um labrador chocolate, o cão era lindo de morrer, mas para o homem quase nem olhei. Não sei dizer porquê, não sei mesmo, as pessoas deixaram de me interessar até como possíveis personagens de historietas blogosfericas. A conversa foi generosa em lugares-comuns. Dei conta de como a minha voz soava a falso, porque nada daquilo me fazia diferença. No centro comercial, nem as montras olhei. Como as pessoas, as coisas também não me interessam grandemente. Preciso de encher os pneus, ando sempre com eles tão vazios, que os estrago, disse me o homem simpático da inspeção. O problema é que aquelas máquinas do ar nunca regulam como deve ser, começam logo a apitar e eu tenho medo que algum dos pneus me rebente na cara e a cara também. Cortei uma pernada grande à taro, aquela onde batia constantemente com a cabeça, a decisão estava tomada há muito, mas no momento cortei de raiva, depois de mais uma pancada valente. Fiquei a pensar se as árvores sentem, se sofrem, porque o ramo já estava cheio de pequenos novelos para rebentar em breve. Senti que lhe matava os bebés. Sou pouco religiosa, mas um pouco panteísta, o que não facilita. E depois veio o vento, as folhas pareciam murmurar-me um segredo e eu quieta a tentar entendê-las. Falo sozinha, desde criança, só não o digo a ninguém.

 

1.12.21

1.12.2021

No primeiro dia do último mês de dois mil e vinte e um, já perto da noite e depois de alimentar os animais, decidi que devia escrever o meu advento de natal, mesmo não sabendo ao certo o que isso seja.

Feriado, ainda não preenchi as folhas de Excel de novembro, nem enviei as facturas. Felizmente, não me esqueci de pagar o IMI, nem o IVA. Diria que estou falida a caminho de ficar rica, como dizia a Carminho, que morreu de cancro no ano passado. As botas e as sapatilhas chegaram hoje, vieram na Ups, numa caixa rota, mas intactas. Tenho os pés gelados, mas não tenho febre. O meu irmão não virá este ano. Sinto que toda a gente anda triste ou talvez seja só eu. Não vou voltar a repetir o que já escrevi dezenas de vezes, detesto o Natal e o frio e as freiras. Afinal repeti. Chá do Lidl, tangerinas e broa de batata-doce, uns snacks estranhos de farinha de quinoa e cerveja. A Pi continua a dormir ao meu colo. Fim. Que hei de dizer mais? Lavei a manta outra vez. Li Irene. Vi um filme imbecil só porque sim, perdi tempo, mas às vezes preciso, e agora começava o poder do cão. Tenho os pés gelados, já disse. Está frio. Estou fria. Apetece me cortar o fio do alarme com a tesoura da poda, um barulho irritante de quinze em quinze minutos, ou será de dez em dez?  mudei a areia, mas o gato continuar a mijar onde lhe apetece, como se a casa fosse a sua rua e os testículos estivessem inteiros. Maldito. Mas adoro-o. Está velho e julgo que senil também. Fornica com todas as peças de vestuário e cobertores que encontra. É patético, decadente e triste como eu.

21.11.21

homo sapiens

Não se trata de adivinhar, nem tão pouco um sexto sentido, mas há jogos que não valem a pena simplesmente porque o seu fim é previsível. Especialmente entre duas pessoas. E se outrora a adrenalina do primeiro passo era prazer, dor, aprendizagem e superação, agora é dejavu. Dentro de todas as nossas singularidades, nunca deixaremos de ser criaturas de imitação.

20.11.21

Onde está Peng Shuai?

somos todos cúmplices da ditadura do regime chinês. 

|e o silêncio cobarde da europa, continente que não há muito tempo tinha campos de concentração, para com a situação dos Uighurs? Absolutely No Mercy, diz o ditador.|

Orwell tinha Muriel

queixa se o homem, reformado há muito, que se aborrece, que a vida é sempre igual, em casa, ora nas palavras cruzadas, ora nos jornais online. que se divertia muito mais no trabalho, onde era príncipe único entre mulheres. saudades da brincadeira. sugiro que arranje um animal, pois não há melhor companhia e mulher já tem, embora se evitem bastante. declina, diz que nem pensar, que não quer estar preso à responsabilidade, quer sair quando lhe apetece. não insisto, mas rio por dentro. a ironia, um homem que nunca vai a lado nenhum, para além da manhã de compras no auchan à terça-feira e a ida à missa ao domingo, onde deixa a mulher, para a ir buscar depois.

moi, quase uma Marilyn Monroe*

por causa de Ishmael Reed, que ainda não li, petisco os Dublinenses, de James Joyce, e estou a gostar muito. curiosa esta teia invisível que nos encaminha para os livros abandonados. de Joyce, confesso, num pudor de brincadeira, apenas li Cartas a Nora, a sua querida sonsinha. não sabia que estava pronta para ler Joyce fora da alcova...


*daqui

19.11.21

segundo útero

nómada e feliz, diz ela, e eu, bicho do mato, fico a pensar. não pertencer a ninguém é uma inevitabilidade, não pertencer a lado nenhum também, mas encontrar uma toca onde as paredes revestidas de erva macia, colhida por nós, finalmente nos deixam descansar o corpo e nos aconchegam a alma, é muito bom. sou criatura de hábitos e quietude, penso, e ainda assim, curiosamente, já vivi em mais de dez casas, desde que larguei a saia da minha mãe.

the way it allows depicting narrative moments with just a single frame*

 

Henri Prestes


*Daqui


confesso a minha vontade igual, contar histórias com uma simples imagem, porque me cansam as palavras, já gastas, ocas, repetidas. numa imagem ver a criança que fui, sozinha, sempre, a caminho da escola, com medo, mas corajosa, sonhando que ia conquistar o mundo como o avô 'berto dizia.

18.11.21

...

Confessa-me o Damas que afinal o sexo casual, mesmo que abundante, só o deixa mais vazio. É uma conversa que já não me apetece, sinto-me velha e cansada para falar do óbvio. 

4.11.21

teoria geral da improdutividade

Fique quieto, o que é seu há de vir.

my fake plastic love

longe, o tempo passa de maneira diferente, circular, imagens que aspiramos nos dedos molhados. quando finalmente abrimos a porta da rua, resta apenas o outono espalhado pelo chão. 

21.10.21

«um tempo mítico em que olhámos o mundo e a nós próprios pela primeira vez»


(clicar na imagem, para aumentar)

Para quê Tudo Isto?, Biografia de Manuel António Pina de Álvaro Magalhães 

díptico de peixes e aves

Nas profundas águas do mar do norte existe um peixe chamado Kun, tão grande que o seu tamanho é impossível de medir. Esse peixe, de repente, pode transformar-se num pássaro chamado Peng, com este a mostrar um corpo tão comprido que não se consegue distinguir bem onde acaba; só fazendo um enorme esforço é que ele é capaz de levantar voo com as suas asas que cobrem o seu como nuvens passageiras. É uma ave surpreendente. Quando voa, dirige-se sempre para as profundas águas do mar do sul, também conhecidas pelo nome de Lago Celestial.

A Borboleta Voando no Vazio, Lié Tzu e Chuang Tzu 


Segundo a mitologia dos egípcios, Abtu e Anet são dois peixes idênticos e sagrados que vão nadando à frente da nave de Rá, deus do Sol, para o advertirem de qualquer perigo. Durante o dia, a nave navega pelo céu, de nascente para poente; durante a noite, por baixo da terra, em sentido inverso.

O Livro dos Seres Imaginários, Jorge Luis Borges 

19.10.21

a borboleta voando no vazio

A minha arte consiste nisto: fazer ver o meu vazio

Chuang Tzu

8.10.21

...

Nas cidades amanhece mais cedo. Seguimos o pulsar na engrenagem, nenhum de nós tem realmente vontade própria. Talvez me habitue a isto novamente, como nos habituamos a tudo, quando temos preocupações maiores. Ou talvez não e peça à madrinha que me liberte do fardo de a herdar. 

7.10.21

...

Sei perfeitamente o que sentem os ursos por esta altura. Enfardo tudo, chocolates, maçãs cobertas de manteiga de amendoim, gomas, chocolates novamente. O objectivo é simples, deixar de ter frio.

wc

à espera do nobel, que possivelmente ainda não li e talvez nunca lerei. como teresa que leu ana na casa de banho, quem sabe porque susana ajudou quando ainda era apenas uma possibilidade, a vida tem destas coisas, de cruzar as vontades das pessoas e com sorte as pessoas também, tenho um particular gosto pela leitura dentro do tanque. os prémios não me dizem muito, dizem me quase nada, aguardo com a mesma curiosidade de quem lê a astrologia no jornal. ou talvez menos.

2.10.21

uma infância medrosa

Interrogarme sobre el miedo en mi infancia es abrir un territorio vertiginoso y cruel que vanamente he tratado de olvidar - todo adulto es hipócrita frente a una parte de su niñez.

Julio Cortázar 

medo

passar manhã cedo onde durante a noite pisaram as bestas de roncos estridentes e os seus bacorinhos, provoca me uma espécie de calafrio, daqueles que ficam das madrugadas em que a porta do quarto se entreabre em segredo.

30.9.21

...

Ontem, na sala de espera do consultório, em horário tardio, uma mulher lia a campânula de vidro de Plath. Apateceu me perguntar lhe se estava a gostar, mas fui chamada logo de seguida.  Que parvoíce, penso agora, por que diabo lhe iria perguntar aquilo a que mais detesto responder?