8.4.21

tudo igual

a neblina do vale mantém o cheiro da erva cortada rente ao chão. vagueio pelo terreno, inebriada. sob os meus passos, descansam os restos de todos os meus animais mortos. não aspiro a nada que vá para lá da comida na mesa, liberdade do meu nariz. a madrinha convidou me novamente para a acompanhar na viagem à américa do sul. ela quer muito ir ao peru, eu gostava de descer ao chile. quem sabe. não há ninguém à vista, apenas eu e os pássaros. é verdade que tenho pensado com gosto na ideia, embora a viagem me aterrorize. sugeri irmos de barco. concordou depressa demais, desconfio que nem ouviu. percorro o carreiro que os cães fizeram, estou em paz e feliz por tudo o que recebi, lamento não ter dado mais. a culpa, sempre a culpa, a culpa de não ser suficiente. não é exclusivamente minha, é até bastante comum. somos frágeis criaturas, expostas desde cedo à perda. Ayrton voltará ainda mais uma vez para terminar o serviço. tenho de ir levantar dinheiro para lhe pagar. gosto dele, é um homem tranquilo. nunca avança sem pé. as vizinhas debicam as alterações na paisagem, mais do que os pássaros. ignoro-as. sinto falta de um café.

Sem comentários:

Publicar um comentário