29.6.21

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Maria Caruncho e Sara Pinote cruzaram-se na rua, pelas 9:32 desta manhã, mas nenhuma delas se apercebeu  deste facto. Não se conhecem, não existem na vida uma da outra, embora - mais uma vez, sem nenhuma delas saber - as suas vidas já se tenham cruzado antes.

Onde, pergunto-vos.


{se nenhum de vós me responder, ó meia dúzia de leitores, lá terei de encher a caixa de comentários em modo anónimo, como faziam as bloggers famosas de antigamente, quando queriam engajamento nos grandes temas...}

16 comentários:

  1. Afonso Cachucho, não passava de um jovem, quando a filha do Manuel Caruncho (carpinteiro) veio com a história da gravidez. Até então, as suas únicas preocupações eram ganhar uns trocos nas cartas, meter gasolina na mota e ir à Vila de Cima visitar Sara, a Pinote.
    Maria chorava. Manuel de maceta na mão já trazia o destino traçado, na oficina uma bancada esperava o genro.
    Para tristeza de Afonso, que já se via a ensinar o rebento a jogar à bisca, a gravidez não vingou.
    Os dias arrastaram-se. Manuel Caruncho morreu sem netos.
    De manhã cedo, Afonso abria a capintaria. Ao almoço, Maria Caruncho aparecia com a marmita. Almoçavam em silencio, Maria regressava aos afazeres domésticos.
    Ao final da tarde Afonso aparecia para jantar, lavava-se enquanto Maria arrumava a cozinha, enfiava o capacete do braço e atirava para o ar - vou ao café venho já. Maria acenava, sabia que o café estava fechado à mais de 10 anos mas isso não a preocupava. Afonso haveria de voltar e voltou, como sempre.
    Sara recebia-o com cuidado, em vésperas de fim-de-semana esperava-o com um bolo para dividir com os meninos mas ele já não era o mesmo.
    O que aparentemente não passava de cansaço ou desgaste natural da idade revelou-se fatal.
    Maria ficou sozinha. Viúva, agora de marido morto, vendeu a carpintaria e comprou uma vivenda na Vila de Cima na rua de Sara Pinote, mãe solteira de três filhos quase adultos.

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    1. !!! Caraças, T. Só por este pedaço de prosa, já valeu a pena! Continuas com esse bichinho vivo 💙

      Obrigada! Muito bom!

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  2. Se a memória não me falha, foi uma vez na peixaria: Pinote levou chicharro e a outra uma enguia.

    ;)

    (faço parte daqueles leitores meio mudos)

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    1. Sois poucos/poucas, mas valeis cada caractere! :)

      Não sei se foi na peixaria, se no cabeleireiro, notei que ambas frequentam o mesmo. Até a tinta do cabelo é da mesma cor! 😄

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  3. Estimada Flor,
    Quer que a leve a casa?

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  4. Não foi no consultório médico? Volta não volta, tropeço na Maria Caruncho.

    Alma azeda!

    Um abraço do Algarve,

    Sandra Martins

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    1. Pobre Maria, Sandra. Leu o texto da Tetisq? Como não ter alma azeda?
      😄

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  5. Maria Caruncho, ainda quase catraia, limpava com o afinco possível a trave onde a Sara Pinote esticava o seu pezinho de futura bailarina. Sara, contudo, apesar do investimento familiar não resistiu à forma como na adolescência o seu corpo cresceu, alargou e se encheu de outras vontades. Carreira de nenúfar posta de lado, preferiu dedicar-se aos cavalos e fez da herdade dos pais um centro equestre. Maria Caruncho, essa pouco cresceu, ficou sempre miudinha e sem ninguém ver, ensaiava poses de bailarina. Contudo, sem posses para aulas ou aspirações de artista, entrou no rancho por ser a forma mais certa de rodopiar e vadiar. A pandemia trouxe-lhes complicações adicionais, as aulas de equitação rareiam e o rancho quase deixou de ensaiar. Mas como os sonhos nunca morrem, encontram-se a caminho da papelaria do Senhor Idalécio, afinal há sempre um sonho escondido dentro de uma raspadinha.
    ~CC~

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    1. 😂😂😂 (na verdade, não sei se ria, se chore, que isso da raspadinha é um pouco deprimente.)

      Maria pobre, Sara rica, dava novela :)

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  6. Sim. Acredito que cruzaram mãos e suor no corpo do mesmo homem
    Não me lembro do nome dele

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  7. Foi num dia de inverno quando aquela que apregoa "a faca não corta o fogo", não manteve a palavra.
    A jura da “chama eterna” falhou e tudo escureceu.

    Uma massa humana marchou e todo o chão tremeu. Os vidros das janelas estilhaçaram, vozes de milhares de bocas murmuraram a uma lua desaparecida e a um sol apagado:

    -Queremos o luar, queremos o sol, queremos a luz!
    - Queremos o luar, queremos o sol, queremos a luz!

    Todos juntos numa causa, onde todas as vozes se uniam num lamento choroso, Maria Caruncho, vendedora de velharias, subiu a uma árvore já toda despida pela estação dos ventos, das chuvas e do frio e lançou na sua voz firme um apelo ao silêncio.
    Os que marchavam e murmuravam pararam para escutar quem falara assim naquela voz rouca e tomava o comando. Fez-se silêncio e uma coruja piou. Encolheram-se todos os vultos e deram as mãos uns aos outros para terem a certeza de que estavam lá.

    Surge então outra voz.
    Uma voz diferente, doce e musical como se quisesse embalar todos os seres da noite. Era a Sara Pinote - atleta de Ginástica Rítmica que tateara um muro de pedra e num salto de precisão elevou-se como um vulto esguio em forma de anjo por causa das sombras de uma ramada de cedro que baloiçava... e baloiçava... como se fossem asas.

    Não tenham medo – disse ela - Não culpem quem ainda não se justificou.

    Vamos ter esperança e, entretanto, vou levar-vos a ver os pirilampos.

    De olhos abertos, mas cegos na visão, marcharam silênciosos.

    Brilharam os pirilampos e todos adormeceram cansados de tanta beleza.

    Acordaram com um sol morno e todos se misturaram esquecendo a escuridão que lhes tinha atravessado a alma. Sem saberem quem era quem, partiram de chama acesa numa esperança maior.

    Aquela que apregoa “a faca não corta o fogo” voltou ao seu estado de graça.

    Maria Caruncho e Sara Pinote podem cruzar-se centenas de vezes que nunca se irão reconhecer; as vozes saídas das suas bocas foram vozes que apaziguam as multidões - são raras e têm momentos únicos.

    :)

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    1. 💙 Caramba! Não vos mereço mesmo! Tão bom, MZ! Que maravilha de postal! Obrigada!

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  8. Cesaltina Fagundes, parteira reformada, entretém-se, assomada à janela, a ver quem passa. Descendo a rua, vê vir Maria Caruncho, mulher solteira que mora com a mãe viúva, Idalécia, no prédio amarelo que faz esquina com a avenida. Como todos os dias aquela hora, Maria vai apanhar o autocarro para o trabalho. Em sentido inverso passa Sara Pinote. Não é habitual vê-la por ali, mas Cesaltina reconhece-a. É filha de Soledade e de Joaquim Pinote. Que fará ela por ali? A família Pinote saiu do bairro vai para 40 anos, quando, para escândalo da vizinhança, se descobriu que Joaquim andava metido com Idalécia. Consumavam a sua relação no primeiro andar direito do prédio amarelo, sempre que Jaime Caruncho, embarcadiço, saía para o mar. Aos poucos o falatório foi diminuindo, cada família por seu lado a remendar os danos, o tempo a fazer o que lhe compete. Cesaltina, que meses depois do sucedido ajudou Maria Caruncho a nascer, nunca teve grandes dúvidas quanto à paternidade daquela criança.

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    1. 😄 as melhores leitoras são as minhas!!! Que maravilha, Luísa. Obrigada!
      Que novela escreveríamos...

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