recados para uma Pirata que vai ficar com Milu alguns dias em agosto.
• Milu não come mosquitos. Diz que fica enjoada. Ainda não percebi bem de onde vem isso, pensei que fosse do glúten, mas ela só come mosquitos sem glúten. Aliás, ela não come glúten. A nutricionista naturopata recomendou. Também não come ovos de melga. (nem bebe run, nem gin, nem aguardente, nem cachaça, nem whisky - apenas absinto e apenas para desmoer a digestão mais pesada.)
• Deixei um saco com comida para a Milu. Moscas sem glúten, libelinhas sem gordura, abelhas sem açúcar, larvas desidratada, nacos mirandeses na pedra e quinoa dos Andes (para ti).
• Não lhe dês bolos de pastelaria, a menos que sejam palmiers encobertos esfoliados. Nem sumos de pacote, que não tenham sido espremidos manualmente. Nem leite de vaca que não seja de origem controlada dos açores. Nem chocolates com menos de 80% de cacau, torrado em horário matinal. Nem leite com chocolate, que tem iva mais caro. (parece óbvio, mas tenho de ter em conta de que és Pirata)
• Se ela insistir muito para comer doces, dá-lhe uma peça de fruta biológica, pode estar podre. Ou deixa-a brincar com o teu órgão electrónico, piano ou lá o que é. Ou fazer tranças indianas na barba - desde que higienizada - do guedelhudo do teu cozinheiro. Ou um abraço.
• A Milu pode brincar com o iPad dela antes de ir para a cama (atenção ao acesso à pornografia! e aos vídeos sobre extraterrestres e aos sites de gastronomia chinesa). Mas não nos últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais recentes.
• Se ela ensaiar uma fita por causa disso, não a contraries. Não lhes tires o iPad das patas à força. Dialoga com ela. Convença-a. Quero que a Milu tenha capacidade de argumentação e não quero contrariá-la demasiado, para não ser castrada na construção da sua personalidade. No fim, dá-lhe um abraço. Ela precisa de três abraços por dia. Pelo menos. Por favor não te esqueças isso. E se puderes (sei que podes ou terás notícias do meu advogado), dá-lhe abraços de pele a tocar na pele. A energia positiva assim passa de forma mais eficaz, a peçonha também.
Paulo Farinha, daqui, visto por aí
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2.8.17
25.3.17
não vejo Milu há várias semanas e decido acreditar que navega, intrépida, no ombro da Capitã, tendo enxotado com sedas armadilhadas o louro já velho. sempre que encho o tanque do submarino, penso em Milu, a pequena aranha, e de como tão bem me aninhava os pensamentos na sua teia silenciosa. se não regressar até à Páscoa, preparo uma incursão ao cacilheiro pirata, o tal das purpurinas.
1.2.17
[sim, por agora e até ver, /ou colapso total da autora/, este blog sobreviverá de más fotografias, uma ou outra vez, acompanhadas por versos de poetas que estão para a poesia como, nos anos oitenta do século passado, o Vasco Granja esteve para os desenhos animados...]
25.11.16
oriundo do pequeno país do continente e famoso contador de estórias, júlio - e o seu bestiário mágico - tem viajado comigo, nestes que têm sido os tempos das descobertas azul profundo do mar. Alyyah, ora peixe, ora pássaro, é massa espessa que me navega as veias e à noite se deita ao meu lado. tal como o rei que reinava sem nunca ter visto o mundo, também eu me atrevi a abandonar o palácio e a procurar o meu deserto. júlio diz-me que todos temos um tempo à nossa espera, enquanto improvisa algumas notas no velho trompete. se algum dia encontrares o rei de quem fala Tagik, o berbere, repete-me, quero apenas que lhe ofereças estas palavras:
Allá al fondo está la muerte, pero no tenga miedo. Sujete el reloj con una mano, tome con dos dedos la llave de la cuerda, remóntela suavemente. Ahora se abre otro plazo, los árboles despliegan sus hojas, las barcas corren regatas, el tiempo como un abanico se va llenando de sí mismo y de él brotan el aire, las brisas de la tierra, la sombra de una mujer, el perfume del pan.
/Instrucciones para dar cuerda al reloj: traduzido aqui/
Allá al fondo está la muerte, pero no tenga miedo. Sujete el reloj con una mano, tome con dos dedos la llave de la cuerda, remóntela suavemente. Ahora se abre otro plazo, los árboles despliegan sus hojas, las barcas corren regatas, el tiempo como un abanico se va llenando de sí mismo y de él brotan el aire, las brisas de la tierra, la sombra de una mujer, el perfume del pan.
/Instrucciones para dar cuerda al reloj: traduzido aqui/
19.8.16
que sirva de resposta àquelas que julgam que ter contactos na mafia russa e andar em cima de uma tábua lisa (num mar parado de fazer rir) chega para encontrar a destemida Cuca.
/observo o bando de longe.../
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| «Jonny Duddle» |
18.8.16
se alguém souber coisa que valha* sobre a famosa lenda do navio pirata que galgou pelos céus adentro e lutou contra o polvo admastor, por favor, use a caixa de comentários. lá porque eu ando macambúzia, isso não é motivo para não querer saber de uma boa peleja, lá pelos mares do sul?norte?
alguém?
Cuca?... Manuel?... Mundo?...
|*leia-se: o que quer que seja|
4.6.16
um dia conheci um homem que me confessou que nunca seria capaz de viver longe do mar. falávamos de frente para o vasto horizonte de prata escura, onde só já restavam alguns surfistas boiando nas pranchas. o seu arrebatamento nas palavras deixou-me curiosa e quis saber qual a razão para um compromisso tão intenso. respondeu-me que era no movimento da ondulação, compassado pelos gritos das gaivotas, que basculava o pêndulo do seu coração.
quando voltei a vê-lo, anos mais tarde, e lhe perguntei pelo mar, olhou-me estranhamente, antes de responder: o meu mar subiu ao céu e levou consigo as estrelas. agora vivo na montanha. e o pêndulo do seu coração?, continuei. badala como um sino de ar puro, respondeu a sorrir. senti-lhe a mentira no trémulo dos olhos. bebemos o café e despedimo-nos em silêncio.
nunca mais vi aquele homem. começo até a duvidar da sua existência. talvez o tenha sonhado, talvez me tenha sonhado ele a mim. tenho saudades do mar.
26.4.16
O que nos condena*
a inevitabilidade da morte do que ainda está por nascer; descobrir que todas as promessas são frases provisórias e todas as certezas são meras intenções; estender as mãos ao vazio e sentir-lhe o bafo gelado; carregar o segredo da nossa existência; sentir as lâminas das máquinas que bombeiam o coração; respirar a ameaça de uma sombra que nos pesa; o falhanço iminente; um murmúrio fantasma que nunca se extingue; o nada, espesso e surdo; o silêncio branco da luz; a foice; a agudez da aflição; a matança do porco na mesa improvisada; afogar a criança no saco dos gatos recém-nascidos; a fuga em sonhos, tentar correr e tropeçar a noite inteira; um livro raro que não se encontra, um verso que não se esquece, a tinta de uma caneta que não se apaga; o reflexo no espelho; saber que a pedra quieta pode rolar, que ícaro nunca será a gaivota, que o mundo é o labirinto; a eternidade da polissemia; a matemática celestial; as fronteiras da pele, intransponíveis; a profundidade imensurável do mar e do centro; todas as crateras da lua; as geadas de abril; o corpo materno que nos enjeita; a pluviosidade contida pelas barragens internas; o olhar de um moribundo deitado; o cheiro a gás; o gosto a podre; o riso trocista de uma velha muito velha; uma fotografia esquecida no casaco de um morto; uma aliança na gaveta de uma mesinha de cabeceira; a auto-indução; um momento parado no tempo que nos persegue; um espaço desaparecido; o primeiro beijo; o último abraço; saber.
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